Desmantamento

Radar Verde: 96% de frigoríficos do Cerrado têm controle socioambiental muito baixo, aponta estudo

Mesmo sem atuação direta nas áreas desmatadas no Cerrado, empresas lucram com a produção pecuária local

Produção pecuária é um dos setores que geram mais desmatamento no Cerrado.
Produção pecuária é um dos setores que geram mais desmatamento no Cerrado. | Crédito: © Arquivo/Agência Brasil

Um estudo inédito realizado pelo Radar Verde avaliou o grau de compromisso, a transparência e o controle socioambiental dos frigoríficos que atuam no Cerrado. Segundo os dados, 96% das 225 empresas avaliadas na região do Cerrado possuem um grau “muito baixo” de controle socioambiental.

Em 2025, o Cerrado concentrou 55% de toda a área desmatada do Brasil, com isso o bioma liderou o ranking nacional de destruição de vegetação nativa pelo terceiro ano consecutivo.

Segundo Camila Trigueiro, pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e integrante do Radar Verde, ao olhar para os motivos do desmatamento na área, a utilização para pecuária é um dos principais. “Observando outros dados, notou-se que metade do desmatamento que ocorreu no Cerrado ao longo desse tempo foi para conversão de pastagem e o resto foi áreas agrícolas, mosaico agropecuário que também envolve a atividade pecuária.”

A declaração foi feita em entrevista do programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato. Durante a conversa, Triguero fez um alerta importante sobre os dados do Radar Verde. As empresas que foram monitoradas não atuam diretamente nas áreas desmatadas, mas se beneficiam da produção realizada nelas. “Esses frigoríficos não são os responsáveis diretos pelo gado. No entanto, a atividade deles lucra a partir disso, então, indiretamente, eles são corresponsáveis pelo que acontece nessas propriedades.”

A pesquisadora afirma que há uma diferenciação entre a forma de atuar dessas empresas na região do Cerrado em comparação com a atuação da região Amazônica. “Avaliando detalhadamente a política que essas empresas apresentaram, a gente encontrou que algumas delas têm seus compromissos de monitoramento para floresta, para o Prodes [Projeto de Monitoramento do Desmatamento por Satélite] Amazônia diferente do que para o Prodes Cerrado. Então, o mesmo município, o mesmo frigorífico que está localizado em ambos os biomas, ele pode ter uma parte contabilizada para o Prodes Amazônia e uma parte contabilizada para o Prodes Cerrado.”

A região do Matopiba, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, destaca-se negativamente como o principal foco de desmatamento no Brasil, concentrando a maioria dos municípios com as maiores taxas de destruição florestal devido à expansão acelerada da agropecuária no Cerrado.

Outro gargalo identificado nesse contexto de desmatamento no Cerrado é quanto à legislação, como explica Trigueiro. “A gente tem o Código Florestal em si diferente para a Amazônia e para o Cerrado. Para a Amazônia, por exemplo, é exigido que preserve 80% da propriedade, enquanto no Cerrado você pode desmatar até 80%. Isso acaba promovendo um maior desmatamento ali na região, porque a legislação permite.”

A pesquisadora destaca que há estudos que revelam que não é mais preciso avançar com mais desmatamento para desenvolver a atividade pecuária. “O que é necessário é ter uma coordenação de todos os entes que fazem parte da cadeia da carne, para que eles realmente deem andamento a essas soluções que são propostas pela classe científica, então, manejo rotacionado, antecipar a idade de abate dos animais, manejo do capim, por exemplo.”

Como uma ação possível para o consumidor final, a pesquisadora indica uma consulta nos dados do Radar Verde a partir do estado em que mora e cobrar dessas empresas fornecedoras no estado sobre qual o tipo de compromisso elas têm no combate ao desmatamento.

Acesse a pesquisa pelo site https://radarverde.org.br/dados-cerrado-2026/

Conversa Bem Viver

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Editado por: Luís Indriunas

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