Negro é lindo

‘Antes do racismo chegar, a cor preta é beleza’, diz autora de livro infantil sobre autoestima negra

Janine Rodrigues mistura a ciência e o lúdico em uma narrativa positiva de negritude para fortalecer as crianças

Detalhe do livro 'Por que não existe flor preta?' com ilustrações dea Anne Muanaw
Detalhe do livro ‘Por que não existe flor preta?’, com ilustrações de Ann Muana | Crédito: Reprodução

O livro “Por que não existe flor preta?” (Ed. Piraporiando), da escritora e educadora Janine Rodrigues, tem como título uma indagação surgida na infância da autora e desenvolve um debate sobre ancestralidade, identidade e pertencimento para crianças negras. A artista Ann Muana assina as ilustrações.

Rodrigues, em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, explica que a pergunta retornou ao seu cotidiano já na fase adulta há cerca de dois anos. A questão viralizou na internet, acompanhada de uma resposta de cunho racista, que afirmava que flores pretas não existiriam “porque preto não é flor que se cheire”. 

Segundo a autora, o viral no mundo digital levou crianças a oprimirem colegas negros no ambiente escolar. O livro surgiu assim como ferramenta para fortalecer a autoestima de crianças pretas e pardas.

“Essa é uma resposta que, além de mentirosa e racista, também barra o olhar do mundo que a criança está começando a ter. Eu venho com essa história lúdica, que fala do porquê de não existir flor preta, mas trazendo também um texto do ponto de vista da biologia do porquê da gente não ver flor de cor preta na natureza. Nesse livro, a pergunta talvez seja mais importante do que a resposta’, analisa a educadora.

Um cuidado importante para Rodrigues na escrita do livro foi não traumatizar mais uma vez uma criança que já tenha passado por um episódio de racismo. “O racismo traumatiza muito e não é algo que a gente consiga esconder. Então, eu fui pensando nessa menina andando com a avó, prestando atenção em algumas coisas: a noite é preta, o gato é preto e a sombra é preta, esse preto aparecendo no lugar da beleza.”

Para o intelectual Frantz Fanon, a nomeação dos negros vem a partir do olhar dos brancos, assim como a associação entre preto e o mal vem de uma autoidentificação da branquitude. Rodrigues expressa algo similar: “A minha construção foi pensando nesse olhar de uma criança para quem, antes do racismo chegar, a cor preta é beleza, é inteligência, é curiosidade, é fantasia.”

“A representação do preto como mal é inserida a partir dessa lógica da branquitude. Se a gente chega na África do Sul, Nigéria, não tem essa expressão, eu sou negro. Isso é um nome que nos é atribuído pelo outro. E é a mesma coisa que acontece com esse link do negro com aquilo que é perigoso, com aquilo que é feio. Isso não é à toa”, segue.

Para a autora, que também atende crianças como psicanalista, criar mais referenciais de negritude para crianças é um dos elementos que podem colaborar no processo de autoestima desses seres em desenvolvimento. “A criança pode ver Frozen, o problema é ela só ter Frozen para referência. Se a gente diz o que a criança tem que gostar ou que ela não tem que gostar, a gente também vai tirando a subjetividade dela. Não dá para dizer que uma criança negra, em todos os aspectos, tem a mesma oferta para poder fazer escolhas. É sobre ampliar esse repertório para que essas crianças tenham essa referência.”

Conversa Bem Viver

A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.

Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.

São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter