Após a análise de 80 mil postagens no Facebook e o acompanhamento das capas de três grandes jornais sobre as manifestações que tomaram o país há 13 anos, João Feres Jr. lança “Nas ruas e fora delas: junho de 2013 revisitado”. O que começou com uma mobilização contra o aumento de R$ 0,20 na tarifa do transporte público em São Paulo, organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), extravasou para um cenário de insatisfação geral e se tornou um marco que impôs grandes transformações na política nacional.
Ao Conversa Bem Viver, o autor do livro, que é doutor em ciência política e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), avalia que as chamadas jornadas de junho de 2013 foram fruto de manipulação consciente da mídia comercial e que até mesmo trabalhos acadêmicos sobre aquele contexto acabaram contaminados por esse discurso.
Feres Jr. recorda um conceito do meio acadêmico internacional de “paradigma de protesto”, que aponta como a imprensa geralmente atua em situações como essa. “A grande imprensa tem uma inclinação conservadora e tende a tratar movimentos sociais, principalmente movimentos de protesto, particularmente, por uma ótica bastante negativa, um enquadramento, como se diz nos estudos de mídia, bastante negativo, que envolve, por exemplo, escrever os eventos como baderna, distúrbio da ordem pública, causam prejuízos à administração pública”, explica. Nesse sentido, o cientista político destaca que a mídia, em um primeiro momento, tratou os protestos exatamente dessa forma.
O autor alerta, no entanto, que, mesmo com a entrada massiva da imprensa na cobertura de junho de 2013, havia uma diferenciação entre quem estava protestando de forma legítima e quem eram os “baderneiros”.
“Você tem, no começo, um movimento muito local em São Paulo, com o MPL, que acaba reprimido pela polícia do Alckmin e começa a trazer mais gente para a rua. E vai crescendo, crescendo, se espalhando pelo Brasil, já que em outros lugares também havia reajuste de tarifa. A violência da polícia realmente funcionou como estopim”, avalia.
João Feres Jr. conta que, na internet, é nítido o ponto de virada de pauta: quando o aumento da tarifa é revogado, imediatamente os temas de corrupção, dos eventos esportivos e outras políticas públicas inundam as redes. “A coisa antipolítica sobe lá em cima e vira uma coisa, inclusive com elementos de antipetismo bastante fortes. E você vê que, a partir daí, é só isso”, resume.
Nesse sentido, o pesquisador afirma que existe uma certa aura romântica que tentou imprimir nos movimentos uma retomada das ruas. “Essa leitura que a mídia fez de voz das ruas também é mentirosa, porque quando você olha a demografia das pessoas que estavam nas ruas nesses dias de pico, primeiro que tem uma sobre-representação de gente com alta educação e alta renda, muito maior do que as proporções das pessoas na cidade de São Paulo, enquanto as pessoas de baixa renda não estavam lá”, destaca.
Feres Jr. também compara a forma com que a população consumia notícia na época dos fatos, majoritariamente ainda pela TV aberta, e a informação mediada atualmente pelos algoritmos das redes sociais. E alerta: desde 2013, a direita já se mostrava mais estratégica para surfar esse novo modelo de comunicação que ainda iria chegar. “A direita estava muito à frente da esquerda”, resume.
O especialista avalia que, mesmo com as modificações na forma de consumir notícias, as grandes empresas de imprensa ainda têm influência muito grande no debate público brasileiro. “A razão para isso é bastante razoavelmente clara, eu acho. Elas são as únicas empresas que têm dinheiro para investir na produção de conteúdo”, analisa.

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