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‘Na periferia, nunca se leu tanto quanto hoje’, avalia poeta Sérgio Vaz

Escritor diz que saraus e hip-hop impulsionam leitura nas periferias, em contraste com queda do hábito de ler no Brasil

“Na periferia, acho que nunca se leu tanto como se lê hoje. Olha o paradoxo em que nós vivemos, num país hoje que pouco lê. Para mim, quem mais lê hoje é a periferia”, afirma o escritor e poeta Sérgio Vaz, fundador do Sarau da Cooperifa. Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele explica que essa percepção vem da própria vivência nos saraus e coletivos culturais que se multiplicaram pelo país.

“A Cooperifa, por exemplo, chegou a lançar uma média de 100 livros por ano. Não como editora, mas contribuindo com o espaço para que as pessoas lançassem. (…) Toda semana tinha lançamento de livro. Então as pessoas estavam lançando livros, estavam ouvindo poesia”, relata.

Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 53% dos brasileiros não leram sequer um trecho de livro nos últimos três meses do primeiro semestre de 2024, quando a pesquisa foi realizada, e 47% se declararam leitores nesse período. O estudo mostra uma queda no número de leitores, que era de 52% em 2019, o que equivale a uma redução de cerca de 6,7 milhões de pessoas, além da diminuição na média anual de livros lidos por elas (de 4,95 para 3,96).

Mais espaço para a literatura

Vaz destaca ainda o papel da oralidade, dos saraus e das batalhas de rima na transformação cultural das periferias. “Esse boom que a poesia vive hoje no Brasil se deve, primeiro, à cultura hip-hop. Depois, vieram os saraus. Agora, são as batalhas de rima. O jovem da periferia, por incrível que pareça, tem outra perspectiva. Ele tem mais espaço para praticar a literatura. (…) A revolução se deu pela oralidade”, avalia.

Diante disso, ele critica os projetos de lei que buscam cercear manifestações culturais, como a chamada “Lei Anti-Oruam”, apelidada assim depois que o rapper Oruam foi preso em junho, no Rio de Janeiro, e mobilizou a opinião pública. A proposta busca impedir o financiamento público a artistas que façam “apologia ao crime ou às drogas”. O texto tramita atualmente na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e tem sido interpretado como tentativa de criminalizar o funk e ritmos periféricos.

“É a história do samba, a história do rap, e agora a atual é a história do funk. (…) É mais um crime contra a nossa cultura, contra o povo, mais um jeito de proibir que ele se manifeste”, lamenta o escritor.

Para o poeta, a luta contra o racismo e a violência policial exige mobilização popular também fora das redes sociais. “É um genocídio contra a juventude negra e periférica. (…) A hashtag já provou que não muda nada. Precisamos ir para a rua, dominar a narrativa nas ruas”, defende.

Encontro da terceira e da primeira idade

Autor de dez livros e de projetos como Poesia Contra a Violência, que leva poesia a escolas públicas da periferia, Sérgio Vaz lançou, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2025, o conto Coração de Criança Não Morre, em que reflete sobre sua trajetória pessoal e coletiva.

Aos 60 anos, diz ter buscado reencontrar sua criança interior. “Eu acho que a criança da gente nunca morre. (…) Para comemorar a minha entrada na terceira idade, fui reencontrar a minha primeira idade. Eu quis fazer um conto baseado em fatos reais e surreais”, diz.

O poeta acredita que, apesar das dificuldades do cotidiano, é necessário cultivar a alegria. “Ser feliz também é um ato revolucionário. (…) Então eu quero sempre lembrar para as pessoas que é possível ser feliz também, e que a vida é difícil, mas é preciso enfrentá-la um pouco com um sorriso”, aponta.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

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