Racismo

A eugenia é uma pseudociência usada para justificar opressões, diz geneticista da USP

Professor alerta para uso distorcido da biologia e defende que cientistas se posicionem diante de racismo e determinismo

A eugenia — ideologia que defende o “aperfeiçoamento” humano por meio do controle reprodutivo — é uma pseudociência que vem sendo usada para justificar opressões a partir da ideia do determinismo genética, aponta o professor Diogo Meyer, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP), ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. “Você se apropria de um discurso que tem uma cara de ciência e o instrumentaliza para levar adiante ideias. Isso é uma definição de pseudociência”, afirma.

Segundo o geneticista, embora tenha nascido entre cientistas reconhecidos como Francis Galton, primo de Charles Darwin, a eugenia sempre foi marcada por intenções políticas e opressoras. “Ela representa uma tentativa de política de Estado, uma política de governo para atingir fins, tirando a liberdade pessoal das pessoas para atingir objetivos vistos como desejáveis”, observa.

Meyer ressalta que a ideia de determinismo genético, segundo a qual características como talento ou comportamento seriam definidas pelos genes, é equivocada e cientificamente insustentável. “A conexão quase que direta entre a constituição genética e o comportamento e as habilidades é muito tênue, para dizer o mínimo”, afirma.

Ao comentar declarações como as do jornalista Alexandre Garcia, que disse que pessoas negras seriam mais aptas para esportes de corrida, Meyer indica que “ele pegou e jogou no argumento dele essa categoria de negros, mas não é assim que funciona; não existe esse grupo biologicamente definido como negros”. O professor lembra que a genética já demonstrou que não existem diferenças biológicas entre raças humanas. “Esses grupos que usamos na linguagem — brancos, negros, asiáticos — não têm uma contrapartida biológica”, diz.

Sobre o sucesso comercial dos testes de ancestralidade genética, Meyer adverte que eles também podem reforçar ideias simplistas de identidade, moldada por múltiplos fatores culturais, familiares e sociais. “As empresas dizem ‘venha descobrir quem você é’, como se a informação sobre onde vivem pessoas mais parecidas com você geneticamente fosse o aspecto mais importante na sua construção de identidade”, critica. Ele também alerta para as limitações técnicas desses testes e a imprecisão das bases de dados, que podem gerar interpretações equivocadas.

Para o professor, esse tipo de simplificação abre brecha para o ressurgimento de discursos eugênicos e racistas. Ele cita o exemplo do presidente Donald Trump, que, em campanha, falou sobre “genes ruins” entre imigrantes indocumentados. “Algumas formas de discurso político não têm responsabilidade de precisão científica. Ele usa o vocabulário dos maus genes porque acha que isso vai agradar seu eleitorado”, analisa. Referências a “bons genes” voltam a circular recentemente também com uma propaganda estrelada pela atriz Sydney Sweeney, que fez trocadilho entre genes e jeans.

Meyer defende que cientistas assumam responsabilidade sobre o impacto social de suas pesquisas. “Cada vez mais essa forma de pensar está sendo questionada, de que o trabalho do cientista termina com a produção de um artigo técnico. O cientista deve estar atento para como o conhecimento que ele gera pode ser usado”, pontua. “O geneticista tem que estar à frente dessa situação, tem que se antecipar e desconstruir esses possíveis argumentos antes que caiam nas mãos dos Trumps da vida”, acrescenta.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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