Mais de três décadas depois, o Brasil volta a se perguntar: quem matou Odete Roitman? O escritor Bráulio Tavares tem uma teoria: o assassino não seria nenhum dos cinco suspeitos da nova versão de Vale Tudo, mas alguém que passou a noite anterior escondido no quarto da vilã, aproveitando um momento em que as câmeras estavam desligadas. Assim, quando o crime acontece, essa pessoa se mistura à confusão e sai discretamente do local. “Eu faria assim: alguém que entrou antes, um possível amante ou sócio em alguma trambicagem”, brinca o autor, em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
A novela Vale Tudo, da TV Globo, foi escrita originalmente em 1988 por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Na primeira versão, foi Leila (Cássia Kis) quem matou a vilã por engano. No remake de 2025, escrito por Manuela Dias, a trama foi alterada e a autora já adiantou que Odete (Débora Bloch) será morta por um dos cinco principais suspeitos (César, Celina, Heleninha, Maria de Fátima ou Marco Aurélio). A nova versão já ultrapassou 25 pontos de audiência na Grande São Paulo, segundo o Kantar Ibope. O capítulo final vai ao ar nesta sexta-feira (17), às 21h20. Na versão anterior, o capítulo chegou a mais de 31 pontos de audiência.
Mas, para Tavares, a graça dessas narrativas não está só em descobrir o culpado. “A literatura policial tem um elemento muito forte de jogo. É uma disputa de inteligências dentro e fora do livro, entre o criminoso e o detetive, e entre o autor e o leitor”, define. Segundo ele, o fascínio do público por histórias de crime e mistério vem do prazer em tentar desvendar o enigma antes do final. “É um jogo de racionalidade, quase científico. O detetive precisa interpretar os fatos, entender causa e efeito, como as pessoas se comportam. E o leitor entra no jogo querendo ser mais esperto que ele”, analisa.
O escritor lembra que o gênero nasceu no século 19, com Edgar Allan Poe, e consolidou-se com Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. “Os primeiros detetives eram quase máquinas de raciocinar, herdeiros da filosofia e da Revolução Industrial europeia. Aos poucos, foram ficando mais humanos, vaidosos, falhos, e por isso mais próximos do leitor”, conta.
Do cortiço ao Copacabana Palace
No Brasil, o gênero ganhou um sotaque próprio. “Os modelos vieram da Europa e dos Estados Unidos, mas os crimes começaram a acontecer em Copacabana, no Flamengo, em São Paulo, no Recife. O leiteiro, o camelô, o flanelinha viraram personagens”, observa.
Para Tavares, autores como Luiz Lopes Coelho e Rubem Fonseca ajudaram a consolidar uma literatura policial brasileira voltada ao realismo. “Fonseca injetou violência, política e poder. Começa na rua e termina chegando em gente importante. É o Brasil por baixo do tapete”, diz.
A vítima ideal e o prazer do desfecho
Tavares vê nas novelas uma herdeira direta do folhetim e da tradição policial. “A telenovela é um gênero canibalístico, absorve tudo: história de vampiro, de crime, de detetive. E, como se desenrola por meses, estimula o público a criar teorias, conversar, apostar quem é o assassino”, explica.
No caso de Vale Tudo, a estrutura é perfeita, na avaliação do escritor. “A vítima ideal é aquela que todo mundo odeia, que fez mal a muita gente. E cada um tem um motivo para querer vê-la morta”, sugere. Na novela, Odete Roitman é uma empresária arrogante que humilha subordinados e manipula seus próprios filhos.
Um gênero que não sai de moda
O escritor também destaca a força de novos autores, como Rafael Montes, que misturam suspense, terror e investigação. “Ele é o símbolo de uma geração que cresceu lendo e vendo séries, com linguagem rápida e atual. Isso mostra que o gênero está vivo”, indica.
“Num mundo caótico, o conto policial mantém as virtudes clássicas: princípio, meio e fim”, dizia o poeta argentino Jorge Luis Borges. Para Tavares, é isso também que atrai o público até hoje.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
