Cinquenta anos após o assassinato de Vladimir Herzog pela ditadura militar, o jornalista Paulo Markun anunciou, em entrevista ao ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, um projeto que recria digitalmente o colega morto em 1975. Desenvolvido com o filho, Pedro Markun, o avatar foi alimentado com cartas, textos e documentos de Herzog e, segundo ele, é capaz de conversar com o público a partir dessas informações.
Em 25 de outubro de 1975, Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, foi preso e assassinado nas dependências do DOI-CODI em São Paulo. A versão oficial de suicídio foi rejeitada pela família e por colegas, e em 1978 a Justiça reconheceu a responsabilidade do Estado. A sua morte reuniu milhares de pessoas no culto ecumênico de 31 de outubro do mesmo ano na Praça da Sé, também em resistência ao regime.
“Há dois anos, eu trabalho com meu filho Pedro, que é um cara dessa área, hacker, da tecnologia. Desenvolvemos uma inteligência artificial que conversa sobre tudo o que Vlad supostamente sabe ou saberia até o dia em que ele se apresenta no DOI-CODI”, explicou. Markun trabalhou com Vladimir Herzog na TV Cultura e é autor do livro Meu querido Vlado.
O lançamento do avatar de Herzog está marcado para o dia 30 de outubro, às 19h30, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, na Bela Vista, com os jornalistas Caco Barcellos e Mariana Castro. No dia seguinte, 31, no mesmo horário, o espaço vai receber um debate sobre o uso ético da inteligência artificial, com os jornalistas Eugênio Bucci e Leonardo Foletto. As inscrições podem ser feitas a partir das 14h deste sábado (25) no site do centro.
Para Markun, a experiência mostra que a tecnologia pode servir à preservação da memória. “Existe um potencial educativo de um lado, e cívico de outro, que é utilizar isso para reconstruir pessoas que tiveram um papel importante na história do Brasil ou do mundo”, disse. Ao mesmo tempo, ele admite que a IA “precisa ser regulada e essa regulação é complexa porque é internacional, é contra poderosos interesses econômicos, as big techs”. “Mas ela pode e deve ser usada como instrumento a favor da humanidade”, pondera.
“Brasil não acertou contas com ditadura”
Markun afirmou que o país ainda carrega as marcas da ditadura. “Nem mesmo o julgamento dos torturadores, dos assassinos, das pessoas que causaram o desaparecimento de tantos presos políticos aconteceu porque a anistia se deu num outro cenário, em um jogo de forças diferente, que se construiu de um jeito que é tudo igual”, disse.
O jornalista critica a Lei da Anistia de 1979, que colocou vítimas e algozes no mesmo patamar, e defende que o Brasil siga o exemplo de países como Chile, Argentina e África do Sul. “Não fizemos esse acerto de contas que outros países fizeram. Muitas das instituições que nos comandam ainda são resquícios da ditadura. Não faz o menor sentido existir polícia militar, com regras militares, com julgamentos à parte, com uma hierarquia que não responde ao poder civil”, criticou.
Ele também se manifestou contra projetos que buscam anistiar envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. “Eu torço para que essa anistia não aconteça. Eu acho que aquelas pessoas que cometeram esse crime e foram julgadas têm que pagar”, defendeu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
