Direito de escolha

Brasil ainda está no ‘ano 1’ do debate sobre morte assistida, diz presidenta da associação Eu Decido

Associação defende que Brasil avance no direito de decidir sobre fim da própria vida: 'Não podemos mais silenciar'

Uruguai se tornou terceiro país da América do Sul a legalizar eutanásia, após Colômbia e Equador
Uruguai se tornou terceiro país da América do Sul a legalizar eutanásia, após Colômbia e Equador | Crédito: Pexels

O recente avanço do Uruguai na legalização da eutanásia tem incentivado o debate sobre o direito à morte assistida na América do Sul. Enquanto países como Colômbia e Equador já autorizam a prática por decisão judicial, o Brasil ainda não possui nenhuma proposta de lei sobre o tema. Para a advogada Luciana Dadalto, presidenta da associação civil Eu Decido, que defende a legalização da morte assistida, o país ainda está dando seus primeiros passos. “O Brasil está, no momento, no ano 1 das décadas que ainda restam”, afirma ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.

Dadalto explica que a expressão “morte assistida” abrange dois procedimentos distintos: a eutanásia e o suicídio assistido. “Na eutanásia, uma terceira pessoa prescreve e injeta o fármaco no corpo do paciente, a pedido dele. No suicídio assistido, a pessoa mesma administra a dose letal”, diz. Cada país define critérios próprios para autorizar a prática, que pode ser restrita a doenças terminais ou ampliada a condições de sofrimento insuportável.

A presidente da Eu Decido destaca que a discussão sobre a morte assistida costuma durar décadas até chegar à regulamentação. “Na Espanha, por exemplo, o debate começou na década de 1980 e a lei só foi aprovada em 2021”, aponta. Para Dadalto, cada sociedade cria suas regras a partir de reflexões éticas e culturais próprias. “Os critérios de cada lei são fruto de uma construção coletiva”, indica.

Questionada sobre o peso das religiões no debate brasileiro, a advogada admite que as instituições religiosas têm um papel importante, mas não devem “interditar” a discussão. “Quando falamos em morte assistida, estamos falando em possibilidade de escolha, e não em obrigatoriedade. Quem for contrário, basta não realizar”, fala. Ela lembra que, nos países onde a prática é legalizada, nenhum médico é obrigado a participar, o que é chamado de “objeção de consciência”.

Cuidados paliativos e direito de escolha

Dadalto reconhece a importância dos cuidados paliativos, mas defende que a morte assistida deve ser mais uma opção. “O cuidado paliativo é suficiente para a grande maioria das pessoas, mas não para todas”, esclarece. Para ela, a autonomia pressupõe acesso à informação. “As pessoas precisam saber o que são os cuidados paliativos, mas também que pode haver situações em que isso não é suficiente”, acrescenta.

A especialista pontua que o Brasil já reconhece práticas como a ortotanásia, a decisão médica de não prolongar artificialmente a vida de pacientes terminais. “A ortotanásia é o reconhecimento de que existe uma morte no tempo certo, sem abreviação e sem prolongamento artificial”, analisa. Outra ferramenta existente é o chamado “testamento vital”, um documento em que a pessoa manifesta previamente como deseja ser tratada em caso de doença grave e irreversível.

Para ela, o país ainda está distante de aprovar uma lei, mas o essencial agora é romper o silêncio. “O momento do Brasil é de dizer: este é um tema que deve ser debatido. Nós não podemos mais silenciar em relação a esse tema porque estamos falando de algo que é um anseio social”, defende.

A associação Eu Decido, fundada neste ano, pretende promover eventos e workshops sobre o tema a partir de 2026. “Defender a morte assistida não significa não defender cuidados paliativos ou acesso à saúde básica. Significa que queremos que todos os direitos estejam à disposição das pessoas que moram neste país”, salientou.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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