Após uma década sem lançar músicas inéditas, Dexter voltou à cena com o single Vida que Segue, que antecipa o álbum Frustrações, Dogmas, Convicções. O clipe, dirigido pelo cineasta João Wainer, revisita sua trajetória, da adoção na infância à consagração nos palcos, e reforça a marca de superação que acompanha sua carreira. Aos 52 anos, o artista mantém firme o propósito de fazer do rap um instrumento de transformação.
“Eu continuo vendo o hip hop como sempre vi: como uma cultura que salva vidas. A música rap para mim é isso também. É uma música que coloca o dedo na ferida, que instrui, que é, por muitas vezes, a mãe, o irmão mais velho, o pai”, afirmou o rapper ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
Na nova faixa, Dexter fala de reparação, racismo e ausência paterna. “Algumas reparações se acertam em uma conversa, já outras nem em uma vida”, diz o verso que inspirou a música. Para o artista, há feridas que a vida não cura. “No meu caso, é a adoção. É uma coisa que a vida colocou nos meus caminhos, mas acho que é uma coisa que não se repara. Você pode ter a compreensão, pode respeitar, mas não se repara. O racismo sofrido na infância, a violência policial, a falta do pai… são reparações que a vida não vai resolver”, desabafou.
Adotado aos dois meses, o cantor relembra o gesto de coragem da mãe que o criou. “Minha mãe já tinha duas filhas pequenas e ainda pegou uma criança com dois meses de idade. Muito louco isso”, contou. Entre as lembranças, ele fala da descoberta da família biológica aos sete anos e da relação com os irmãos. “Eu era encantado com meu irmão jogando bola, e só depois descobri que ele era meu irmão”, relatou.
Essas experiências, afirma, moldaram o olhar sobre o mundo e a forma de escrever suas músicas. “Eu quero falar de tudo aquilo que me incomoda e de tudo aquilo que me faz feliz. Falar das vitórias agora é bom, porque a minha trajetória é uma volta por cima”, destacou.
Crítica ao Estado, à indústria e legado
Durante a entrevista, Dexter também refletiu sobre a realidade prisional e o papel do Estado. “Existe um plano, sobretudo para os pretos e pobres periféricos, de encarceramento em massa, e isso coloca muito dinheiro no bolso de muita gente. Antes de discutir o sistema carcerário, devia-se discutir a educação, pra que não tivéssemos o sistema carcerário que temos”, defendeu. Ele rejeita a ideia de privatização das prisões. “É você tirar a responsabilidade do Estado. O grande lance é que existe uma política de preconceito contra essas pessoas, e ponto”, apontou.
Ao falar sobre o cenário musical, o rapper criticou a lógica industrial que domina as plataformas. “Hoje tem lugares com 20 compositores fazendo uma música, escolhendo o melhor refrão quase cientificamente. É cruel para quem gosta de música. Quem tem dinheiro está à frente, quem não tem precisa confiar na própria obra”, observou. Mesmo diante das mudanças, ele mantém fidelidade à essência do rap. “Eu não sou melhor que ninguém. Só faço o meu trabalho, continuo sendo eu desde sempre”, disse.
Para o artista, mais importante que números é ser lembrado pela contribuição que deixou. “Quero ser lembrado como um cara que foi útil: ‘Dexter me ajudou com a música dele, com a obra dele.’ O mais importante é estar feliz comigo mesmo. O grande barato para mim é deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Fiz uma obra maravilhosa, primeiro para mim”, conclui.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
