Para o escritor e professor cearense Moacir Fio, o terror latino-americano vive um momento inédito de afirmação estética e política. “Pela primeira vez, vemos certos medos latino-americanos tomando forma na literatura: ditaduras, violência contra a mulher, nossos próprios fantasmas históricos”, diz em entrevista ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
O autor, que acaba de lançar o romance Aranha Movediça, vê no gênero do horror uma forma de lidar com aquilo que a sociedade tenta silenciar. “O horror é um modo de lidar com o mal, e o mal é entendido como a negatividade, como aquilo que a sociedade busca ocultar, que raramente a sociedade sabe lidar, de fato”, explica.
Pesquisador de literatura fantástica e gótica, Fio enxerga na atual produção latino-americana, especialmente nas autoras mulheres uma revolução estética. “Embora pareça que, de repente, surgiu um monte de escritora, a verdade é que sempre teve muita gente escrevendo horror de muita qualidade aqui na América Latina”, afirma.
Ele cita nomes como Mónica Ojeda, Mariana Enríquez, Verena Cavalcante e Samantha Schweblin como expoentes do gênero, destacando a força da linguagem e da ambiguidade. “São escritoras que têm muito talento, um olhar literário rico. É um grande diferencial em relação ao horror mainstream, anglófono, em termos de trabalho com a linguagem, de possibilidades e ambiguidade”, analisa.
Para Moacir Fio, o horror latino-americano é também uma resposta a séculos de silenciamento. “É decolonial porque busca escapar de certas estruturas ligadas ao projeto colonial capitalista, de silenciamento da mulher, por exemplo. Rompem uma estrutura de silenciamento que dura séculos, que foi estabelecida”, aponta.
Ao dar corpo aos medos locais, diz ele, a literatura de terror do continente rompe com a ideia de que “a emonologia não encontra, na alegria americana, elementos que possam favorecer a criação de uma fase estética sombria e tenebrosa”, como escreveu o crítico Araripe Júnior no século 19.
“Não interessava por muito tempo, eu diria que até hoje, ao projeto estético de Brasil, desse país tropical, desse país solar, alegre, receptivo, mas sobretudo também um país que caminhava para a modernidade, para o futuro, que ele se voltasse justamente para as sombras do passado”, acrescenta.
O mal como esquecimento
Em seu novo livro, Aranha Movediça, Moacir Fio aborda o esquecimento como força política e tema central. “Tem vários males, mas eu acho que o pior é o esquecimento”, resume. A trama mescla a cena punk de Fortaleza e o sertão cearense, revelando, segundo o autor, um ciclo de violências que atravessa a história do estado “desde o período colonial até os dias de hoje”.
Ao revisitar episódios como os campos de concentração para os flagelados da seca no Ceará, o escritor busca questionar o apagamento histórico. “Pouca gente sabe que o Brasil teve campos de concentração gigantescos”, observa. “É uma história que foi esquecida por muito tempo e ainda é pouco conhecida, inclusive aqui”, indica.
Fio revelou que já trabalha em novas obras que ampliam o universo de Aranha Movediça. “Eu tenho um romance já pronto. Vou entrar no desespero das reescritas, mas já está pronto. É um romance caudaloso que também trata dessa aproximação entre Fortaleza e o sertão, dessas famílias coloniais. Tenho uma ideia para outro romance também, que talvez feche uma trilogia temática sobre esses fantasmas coloniais do sertão”, antecipou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
