O ex-ministro e economista Celso Furtado (1920-2004), referência na interpretação do desenvolvimento brasileiro e latino-americano, foi antes de tudo um tenente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que combateu o nazismo na Itália. Essa faceta pouco conhecida é o tema de O Tenente – Cadernos de um Expedicionário na Segunda Guerra Mundial (Companhia das Letras, 2025), novo livro organizado pela jornalista Rosa Freire D’Aguiar, viúva de Furtado, lançado neste ano, em que se completam 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, D’Aguiar explica que os textos reunidos no volume nasceram no retorno da guerra. “Celso começou a escrever já no navio de transporte que ele volta aqui, em setembro de 1945”, conta. Uma parte das narrativas foi publicada em 1946, em um livro de contos pela editora Zélio Valverde, que depois faliu. “Celso não quis mais saber desses contos, até porque ele tomou outro rumo na vida, e esses contos nunca mais foram publicados”, lembra.
O trabalho atual recompõe e expande esse material com base no acervo preservado pela família. D’Aguiar destaca o papel de Dona Maria Alice, mãe de Celso, que guardou as cartas enviadas do front. “Mãe é mãe, sempre sabe o que faz”, brinca. Anos depois, a correspondência, diários e objetos de guerra foram devolvidos ao filho e acabaram chegando à casa do casal. A partir daí, a autora selecionou cartas em que Furtado descrevia o ambiente da guerra e as trocas com amigos no Brasil, além de textos sobre o fascismo, o serviço militar e a vida na vila militar. “Juntei tudo isso e publiquei no livro, e mais fotos de objetos que ele tinha trazido”, explica.
A jornalista lembra que Furtado queria ir à guerra, mesmo que formalmente tenha sido convocado. Segundo D’Aguiar, havia “uma espécie de subtexto que dizia ‘nós vamos lutar por essas liberdades extras que não temos no nosso país’”.
Duas décadas depois, o mesmo Estado que o enviou ao combate virou-se contra o intelectual. Cassado pela ditadura de 1964, Furtado perdeu direitos civis e foi forçado ao exílio. D’Aguiar recorda que ele só descobriria mais tarde que as duas medalhas de guerra que valorizava haviam sido retiradas por um “decreto secreto”. Para ela, esse gesto ajuda a entender o silêncio do marido durante anos sobre a experiência na FEB. “Tudo isso pesava bastante”, afirma.
Esse quadro começa a mudar na redemocratização, quando Furtado voltou ao país, em 1979, tornou-se ministro da Cultura (1986–1988) e se recusou a receber novas condecorações militares enquanto suas medalhas da FEB permaneciam cassadas. A negativa chegou aos ouvidos do governo José Sarney. Segundo a jornalista, um decreto acabou restituindo não só as medalhas de Celso Furtado, mas também de outros ex-combatentes punidos após o golpe. Só então ele aceitou novas honrarias.
Ao tratar da FEB, Rosa evita generalizações, mas aponta contradições entre o contingente que foi à Itália e a cúpula que comandaria o golpe de 1964. Ela lembra que o governo Getúlio Vargas de 1942 era dividido entre uma ala pró-Alemanha, vinculada a generais, e outra pró-EUA, liderada pelo ex-ministro Oswaldo Aranha. Furtado, por sua vez, identificava na FEB quadros progressistas que queriam combater o nazifascismo fora e dentro do país. “Éramos progressistas, queríamos lutar contra o nazifascismo, mas também queríamos combater o nazifascismo dentro do Brasil”, dizia Furtado, em uma das passagens lembradas pelo livro.
No livro, Rosa d’Aguiar destaca o impacto que tiveram sobre o marido as primeiras imagens dos campos de concentração nazistas, exibidas pelos estadunidenses no fim da guerra. “O choque dele é indizível, realmente é uma coisa inaudita”, relata. Segundo ela, os pracinhas, como eram chamados os soldados brasileiros, “não tinham a menor ideia de que estava acontecendo isso na Alemanha” até assistirem aos documentários com corpos empilhados e prisioneiros esqueléticos. “É muito impressionante”, reforça.
Para Rosa Freire D’Aguiar, reunir esse material é uma forma de devolver ao público um capítulo essencial da biografia de Celso Furtado e de mostrar o vínculo entre sua atuação intelectual e a experiência concreta da guerra. “Essas experiências todas, sem dúvida, marcaram muito ele”, resumiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
