A cannabis, hoje, é mercadoria global, negociada por corporações internacionais sob a lógica neoliberal. Em Cannabis Global Co.: consenso fissurado, publicado pela EDUC-Fapesp, o pesquisador de Relações Internacionais Paulo José dos Reis Pereira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), analisa o chamado capitalismo canábico. Ele foi o convidado da edição desta quinta-feira (8) do podcast BdF Entrevista, do Brasil de Fato, e falou sobre os dilemas da legalização da maconha em tempos de mercantilização acelerada.
O pesquisador destacou que o olhar punitivista e repressivo sobre as drogas é algo relativamente recente. A transformação aconteceu no século 20, especialmente em relação a substâncias produzidas a partir de plantas, como a própria maconha, a cocaína (que tem a folha de coca como base) e o ópio (criado a partir da papoula).
“A proibição nunca foi total. Sempre houve proibição de algumas plantas, e direcionada para alguns grupos. Isso fez com que de um lado muita gente ganhasse dinheiro com medicamentos produzidos a partir dessas substâncias, e de outro lado essas substâncias fossem utilizadas para encarcerar pessoas, violentar comunidades, estigmatizar grupos”, relatou.
Os movimentos de busca por alternativas à criminalização tiveram diversas origens de base social, como grupos de cultivadores de cannabis e movimentos críticos ao processo de encarceramento em massa das últimas décadas. Nesse contexto, grupos em defesa dos direitos humanos identificaram na proibição das drogas uma maneira de violência e de reforço de estigmatizações.
“Esses grupos foram se articulando na mesma medida em que, no caso da cannabis, particularmente, foram sendo identificados e recuperados os usos medicinais dessa planta, o que deu força e legitimidade muito grandes também para as contestações que começaram a acontecer nas últimas décadas”, destacou o autor.
O capitalismo canábico, na análise do autor, não é profundamente diferente da lógica proibicionista. Segundo Pereira, a mesma dinâmica que promoveu o processo de proibição da cannabis incentivava as corporações a produzirem mercadorias psicoativas, deixando de fora aquelas consideradas ilegais.
“Ou seja, se a gente continuar por esse caminho, com a lógica de uma captura corporativa dos novos mercados de cannabis, basicamente o que nós vamos fazer é reeditar a mesma lógica da proibição, mas agora numa dinâmica do capital a grupos considerados grupos vulneráveis continuam excluídos. Esses grupos seguem sendo criminalizados e deixados de lado”, alertou.
O processo não é nem um pouco simples. O autor lembra que na contemporaneidade nunca houve uma mudança tão grande de um mercado ilícito para um mercado lícito. A novidade gera dificuldades, mas também cria oportunidades.
“A beleza e a potência desse processo estão exatamente no fato de que, ao mesmo tempo que a gente não sabe como fazer, isso dá a oportunidade de podermos ser criativos para pensar novos futuros possíveis, com olhares cuidadosos com comunidades que foram afetadas por muitos outros processos relacionados à agricultura de exploração”, destacou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.
