multiculturalismo

K-pop, anime, novela turca: o império cultural dos Estados Unidos está ameaçado?

Para o mestre em História da Arte, Leonardo Rodrigues, há uma 'esgotamento do sonho americano'

O governo da Coreia do Sul investe em artistas e produções locais, como o K Pop, para exercer o chamado soft power
O governo da Coreia do Sul investe em artistas e produções locais, como o K Pop, para exercer o chamado soft power | Crédito: Michael Loccisano/Getty Images/AFP

Houve um tempo em que os Estados Unidos dominavam de maneira praticamente isolada a indústria cultural global. Isso, porém, parece ter ficado para trás. Países como a Coreia do Sul, com seus doramas nos serviços de streaming e os artistas de K-pop que arrastam multidões, parecem ameaçar o império cultural dos Estados Unidos. Há, ainda, produções audiovisuais de países como Turquia, Nigéria e Índia, que cada vez mais conquistam público por diversas partes do mundo, em locais que antes pareciam inacessíveis para qualquer coisa que não viesse de Hollywood.

No momento em que o imperialismo político mostra suas garras de maneira cada vez menos envergonhada, como no caso do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump, os Estados Unidos parecem travar outro tipo de batalha no campo da cultura. Esse domínio pode ter chegado ao fim? Para discutir o tema, o BdF Entrevista desta segunda-feira (12) recebeu o mestre em História da Arte Leonardo Rodrigues, que também é trabalhador do BdF.

Para o especialista, há um esgotamento de fórmulas que fizeram sucesso por décadas durante o século 20. O avanço da internet e a força das redes sociais permitiu o acesso a diferentes culturas e novos polos de produção de conteúdo que encontraram públicos por todo o planeta.

“Acho que tem um cansaço, um esgotamento da indústria de Hollywood, desse sonho americano, dessa estética do colégio com armários, líderes de torcida, coisas que não fazem um sentido com a realidade brasileira, por exemplo. E outros polos têm surgido e ganhado mais força”, apontou. “Hoje, com a internet, essa descentralização dos acessos, não tem mais um canal único. Claro, a gente tem os algoritmos que controlam o que a gente consegue é acessar ou não”, ponderou.

Os Estados Unidos, claro, não ficam sem reagir. Quando os animes japoneses ganharam força, houve versões feitas por Hollywood, muitas vezes em live action (ou seja, gravados com atores e atrizes em cenários) para tentar ganhar o mundo. E isso nem sempre dá certo.

“Eles [os Estados Unidos] vêem aquilo só como um produto e querem copiar a casca para fazer outra coisa, mas tem toda uma questão cultural, uma questão de religião, enfim, da cultura japonesa mesmo que está imbuída naquilo, assim como as nossas tradições afro-indígenas do Brasil, assim como questões coreanas também”, apontou.





O caso coreano é emblemático. O governo da Coreia do Sul investe em artistas e produções locais como forma de exercer o chamado soft power (quando um país influencia em outros por meio de recursos culturais e projeção de imagem positiva). O país asiático entendeu que isso permite um retorno financeiro e turístico, gerando interesse.

O K-pop conseguiu se construir enquanto gênero musical também bebendo de fontes da cultura ocidental, dos Estados Unidos e da Europa, mas investindo em tecnologia, em estética, em criar uma conexão com os fãs também”, explica Rodrigues.

O processo, porém, não é simples, e há muitos questionamentos sobre a indústria cultural sul-coreana. Os artistas de K-pop, conhecidos como idols, são obrigados a manter determinados padrões de corpo. Não são incomuns casos de assédio, especialmente contra mulheres.

“É uma outra visão de mundo que não é a branca estadunidense, mas segue ainda muito nessa ideia de uma pele clara, de um filtro, de ser fofa, de ser meiga, de ser jovem, de ter o cabelo liso. Infelizmente, muitas dessas questões ainda estão presentes, mesmo que a gente desloque o eixo? Mesmo que não seja exatamente a mesma questão, mas algo com uma roupagem similar”, destacou.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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