Como virou tradição nas últimas décadas, a TV Globo exibe, no começo de cada ano, mais uma edição do reality show Big Brother Brasil, o BBB. E, como em diversas oportunidades, o programa ‘fura a bolha’, especialmente em tempos de redes sociais.
A edição deste ano, que começou há duas semanas, já suscitou diferentes debates que atingiram até mesmo pessoas que não acompanham a atração. Em um dos casos, um grupo de participantes foi trancafiado em um ambiente que emula uma técnica de tortura sensorial: um quarto todo branco, sem móveis, janelas ou qualquer acesso a estímulos externos. Outro participante deixou a casa após ter tentado beijar a força uma colega.
Nesta segunda-feira, o BdF Entrevista, podcast do Brasil de Fato, recebeu o historiador, influenciador e poeta Jeovane Adodi, que afirma que o programa é o maior produto da televisão brasileira entre os reality shows.
O programa gera debates também a partir das decisões da própria Globo. Na dinâmica do tal ‘quarto branco’, por exemplo, alguns participantes passaram mais de 120 horas isolados, com alimentação precária, restrita a biscoitos e água, em busca de garantirem participação na briga pelo prêmio milionário da edição. Quem aguentasse mais tempo seria vencedor da dinâmica.
“Eu ia falar ‘irresponsável’, mas ‘irresponsável’ é uma palavra muito fraca para descrever o que às vezes a emissora realiza com os participantes. Eu vi algumas pessoas comentando nas redes sociais que talvez a dinâmica de quarto branco não volte mais [em edições futuras do programa]. Foi torturante de assistir e a emissora com certeza não esperava a resistência das pessoas que estavam ali”, avaliou.
“É um programa feito para mexer com os nossos sentimentos, para deixar a gente nervoso, deixar a gente com raiva, se sentindo próximo a um participante que está ali. Ele gera esse debates por ser um programa emotivo, feito para gerenciar essas emoções que a gente tem. E com a politização da sociedade, a dita ‘polarização’, todas as questões que estão postas e que dividem a gente no sentido político estão lá dentro também”, afirmou.
O especialista afirma que o programa passou por reformulações, especialmente depois da edição de 2019, quando uma das participantes, Paula, teve comportamentos racistas e ainda assim terminou como campeã.
“Aparentemente, a emissora não curtiu a vitória da Paula e até se envergonhou um pouco dessa vitória. E de 2020 para cá o programa passa por certas transformações”, disse, citando maior presença de pessoas não brancas e sexualmente diversas nos elencos que compõem o programa.
Ainda assim, porém, ainda há obstáculos para que essa diversidade se manifeste de maneira plena. O influenciador lembra que, na primeira festa da presente edição, dois participantes homens se beijaram. Houve, também, um beijo entre um homem e uma mulher – que ganhou um espaço muito maior na edição que foi ao ar na tela da Globo.
“A emissora faz as escolhas dela. A produção do programa e hierarquiza o que eles querem mostrar. E ficou muito claro aqui que o beijo gay não era de tanto interesse. Acho que é uma coisa que se retroalimenta: é uma questão que alimenta a expectativa da emissora com o seu próprio público, principalmente uma emissora no contexto que está se aproximando de um público evangélico. E por mais que esse seja um programa que boa parte dos evangélicos não vão querer assistir, ainda está dentro da dinâmica da emissora que está tentando se aproximar desse público”, avaliou.
Na conversa, Adodi citou alguns incômodos que ele sente quando vê a repercussão do programa, especialmente em relação às pessoas negras selecionadas para participar. Quando fica nítido que alguns participantes têm posicionamento político de direita, por exemplo, há muitas cobranças.
“Isso impacta a reação das pessoas quando elas percebem que aquela pessoa negra que entrou ali não é da nossa ‘bolha’ progressista, e isso gera toda uma frustração que me incomoda um pouco. Eu entendo, mas me incomoda porque não se respeita a individualidade das pessoas negras e o histórico de vida delas”, resumiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.
