No dia 5 de fevereiro de 2026, expirou silenciosamente o último fio que mantinha de pé o frágil arcabouço de controle de armas nucleares construído ao longo de mais de seis décadas. O New Start, tratado firmado em 2010 entre Estados Unidos e Rússia — as duas maiores potências atômicas do planeta, que juntas concentram mais de 80% das ogivas existentes —, deixou de vigorar sem que qualquer substituto tenha sido desenhado.
O impasse expõe o mundo a um novo patamar de incertezas estratégicas, em meio à ascensão chinesa, à beligerância do governo Trump e à total ausência de mecanismos de transparência sobre os arsenais em desenvolvimento.
Para a analista internacional Rose Martins, convidada do BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o fim do acordo tem um peso mais simbólico do que prático, mas nem por isso menos perigoso. “O New Start já não funcionava como deveria. Era um acordo mais permissivo do que os tratados do pós-Guerra Fria, que previam redução efetiva. Ele apenas congelava os estoques, não os destruía”, explica. “O que se perde agora é o nível de transparência, as inspeções in loco. Vai ficar ainda mais obscuro o que Estados Unidos e Rússia estão desenvolvendo.”
A principal exigência de Donald Trump para qualquer novo acordo é a inclusão de Pequim, que hoje possui cerca de 600 ogivas — número que, segundo analistas, deve se aproximar do arsenal russo e estadunidense até 2030.
Para Rose, a pressão de Washington combina um fator estrutural e outro objetivo. “Os Estados Unidos elegeram a China como seu adversário principal em todas as esferas — econômica, tecnológica e de projeção de poder. Querem enquadrá-la num acordo para limitar seu desenvolvimento nuclear e, sobretudo, ter acesso a informações”, afirma.
A analista aponta que o salto tecnológico chinês nas últimas décadas não ficou restrito ao uso civil. “Não há registros históricos de que um progresso tecnológico dessa magnitude tenha ficado limitado ao setor civil. Os chineses aprenderam com o erro soviético: é preciso que a tecnologia militar e a civil caminhem juntas”. O temor dos EUA, avalia, justifica a retórica belicista que emerge de generais do Pentágono, alguns chegando a fixar 2027 como “janela de oportunidade” para uma vitória estadunidense antes que a China se equipare.
A ofensiva nuclear de Washington, no entanto, não se restringe à Ásia. Rose conecta os pontos entre a pressão sobre Pequim e o reavivamento da Doutrina Monroe para a América Latina. “Quando Trump fala em barrar a ascensão de potências não hemisféricas na região, está falando da China e da Rússia. É uma estratégia de expulsão”, analisa.
Ela cita o Porto de Chancay, no Peru, e os investimentos chineses na Venezuela como alvos dessa ofensiva. “Ao invés de oferecer melhores condições de cooperação, os EUA oferecem o uso da violência. Querem domínio, não parceria”.
Irã, Israel e o peso do lobby sionista
Sobre o programa nuclear iraniano, Rose é categórica ao denunciar a narrativa de que Teerã estaria prestes a construir uma bomba. “Nem a diretora de inteligência nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, disse isso. O Irã fez enormes concessões em 2015, cumpriu o acordo, e mesmo assim os EUA se retiraram”, lembra. A disposição iraniana de diluir urânio enriquecido a 60% e negociar novas concessões, avalia, decorre da asfixia econômica imposta por sucessivas sanções — e não de qualquer avanço real rumo à militarização.
O contraste com Israel é escancarado. “Israel desenvolveu seu programa nuclear de forma clandestina, com ajuda francesa e urânio contrabandeado da África do Sul, não permite inspeções da AIEA e não assinou o TNP”, enumera a analista.
“Mas ninguém o enquadra. Por quê? Primeiro, porque não admite abertamente que tem armas nucleares. Segundo, pela força do lobby sionista, que penetra as sociedades do mundo inteiro com pressão política, econômica e midiática. É uma blindagem que desafia qualquer noção de multilateralismo”.
‘Brasil precisa mudar a rota’: soberania nuclear em debate
Diante desse cenário de escalada belicista, Rose Martins defende uma inflexão estratégica do Brasil. “A realidade é muito bruta. O que tem se mostrado capaz de impor respeito aos países é a capacidade de dissuasão nuclear. O caso da Coreia do Norte é o mais evidente: ninguém mexe com eles”.
Para a analista, o momento exige que o país abra um debate sério sobre seu programa nuclear — para além dos fins pacíficos. “O Brasil aderiu voluntariamente ao TNP no final dos anos 90, mas as coisas ficaram muito perigosas. Tempos brutos exigem respostas à altura”, afirma.
“Não é uma discussão fácil, nem popular. Precisa ser feita com a sociedade. Mas o Brasil não pode mais assistir passivamente a um império em declínio, violento e agressivo, imaginando que só a diplomacia vai resolver”, alerta. “Isso envolve pensar em um programa nuclear defensivo, modernizar as Forças Armadas, definir quem controla nossas terras raras — que alimentam até o complexo industrial militar dos EUA — e onde estão armazenados os dados sensíveis dos brasileiros. Soberania não é boné. É capacidade concreta de dizer não.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
