Carnaval consciente

‘Que a gente consiga falar sobre drogas e sexualidade com mais naturalidade’, aponta médico influenciador

Uno Vulpo alerta sobre o perigo da falta de informação e conversa sem tabu sobre substâncias e sexualidade

Com o Carnaval batendo à porta, é precisa tratar dos riscos, sem falso moralismo
Com o Carnaval batendo à porta, é precisa tratar dos riscos, sem falso moralismo | Crédito: Agência Brasil

Com o Carnaval batendo à porta e o país mergulhado em festa, a conversa foi sobre prazer, risco e a importância de estar bem informado. “Não existe isso de malhar para suar o álcool. Dia de ressaca é dia de repouso e líquido”, dispara Uno Vulpo no BdF Entrevista da Rádio Brasil de Fato.

“E aquela camisinha guardada há meses? Antes de abrir, olha a validade. Abre com os dedos, nunca com a boca pra não rasgar. É o básico que ninguém ensina”, acrescenta influenciador criador página Sento Mesmo, um projeto que fala sobre drogas e sexualidade sem tabu.

Vulpo é taxativo ao diferenciar redução de danos de apologia. “Apologia é mentir: falar que cocaína vai melhorar sua vida, te dar energia, te deixar mais ágil no trabalho. Eu falo o contrário: usar drogas tem efeitos colaterais. Overdose não é só morte, é passar mal, vomitar, ter um PT. Como prevenir isso? Isso é cuidado.”

Ele critica a formação médica, ainda refém do moralismo. “A gente aprende a lidar com overdose quase fatal, mas não com uma dependência química. Não ensinam se uma lactante poderá amamentar depois de usar cocaína, por exemplo. É dado recente, estudo recente. E o médico trata o usuário como se ele fosse uma pessoa má, não alguém que encontrou na droga um jeito de lidar com ansiedade, depressão, TDAH não diagnosticados.”

O especialista lembra que em Berlim, jovens usam speed (anfetamenia) — da mesma família do Venvanse — para tratar TDAH porque não têm dinheiro para o medicamento. “A droga é usada como remédio. A pessoa não é má. Ela está se medicando da forma que pode.”

Para ele, a redução de danos é, antes de tudo, um ato de responsabilidade coletiva. “Tirar o peso das costas das pessoas. Recaída é palavra que odeio — parece pecado. A gente precisa desmontar essa culpa, porque quando a pessoa tem menos medo de ser julgada, ela tem menos medo de buscar informação.”

O médico relaciona o aumento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) entre jovens à ascensão de pautas conservadoras. “Quando a escola se cala sobre sexo, gênero, substâncias, a criança aprende onde? No pornô. E aí acha que sexo é aquilo, que camisinha se coloca daquele jeito, que ereção é daquele tamanho. Não tem contraponto. Não tem ninguém pra dizer ‘olha, não é assim’.”

O impacto é brutal em populações vulneráveis. “Meninas trans expulsas de casa aos 13 anos aprendem na rua com outras travestis. Aprendem sobre silicone industrial, hormônios na seringa errada. Descobrem na própria carne o que é efeito colateral. Podem morrer disso. Tudo isso porque ninguém sentou pra conversar.”

Perguntado sobre suas esperanças, Vulpo não hesita. “Que a gente consiga falar sobre drogas e sexualidade com mais naturalidade, com mais idades, em mais esferas. Pré-PEP aos 15 anos? Não pode, jovem não transa. Mas a gente é recordista em gravidez na adolescência. Fingir que o problema não existe não tem funcionado.”

“A informação de qualidade é a única ferramenta que a gente tem pra devolver às pessoas o poder de decisão. Seja pelo uso recreativo, terapêutico ou pelo não uso. Mas que seja uma escolha informada. E não um tiro no escuro”, conclui.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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