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Dez anos após o golpe contra Dilma, direita perde força, mas se mantém nas ruas com extrema direita golpista e radicalizada

Pesquisadora do Cebrap analisa trajetória da direita desde 2013 e os grupos que protagonizaram protestos pelo impeachment e viraram base do bolsonarismo

12-04-2015, 14h00: Manifestantes realizam ato contra a corrupção e contra o governo na Avenida Paulista. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Manifestantes realizam ato contra o governo Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em 2015 | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em março de 2015, poucos meses após Dilma Rousseff tomar posse de seu segundo mandato como presidenta democraticamente eleita do Brasil, as ruas começaram a ser tomadas por uma onda de protestos que pediam seu afastamento. O que se viu nos meses seguintes foi a consolidação de um movimento que culminaria no golpe parlamentar de 2016 — um processo que envolveu Congresso, grande mídia e setores da burguesia, mas que teve nas manifestações populares um de seus pilares fundamentais.

Dez anos depois, os ecos daquele período ainda ressoam na política brasileira, mas de uma outra maneira. As mesmas ruas, que viram milhões de pessoas vestidas de verde e amarelo pedindo intervenção militar em 2015 e 2016, voltaram a ser ocupadas por bolsonaristas radicais — agora pedindo anistia para os golpistas do 8 de janeiro e a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para compreender esse fenômeno, o BdF Entrevista conversou com Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e organizadora do livro As direitas nas redes e nas ruas.

“[A direita] já perdeu muito da força que tinha, isso a gente dá pra falar com base em várias pesquisas que a gente vem fazendo ao longo do tempo. Perdeu tanto no número de pessoas que vão para as ruas e também em termos de engajamento na sede.”

Para a pesquisadora, a tendência é que “as pessoas continuem com uma presença, continuem indo para a rua.” Rocha vê o número de pessoas diminuir mas, para ela, “a radicalidade aumentou”.

Em sua análise, ela traça a genealogia da direita brasileira desde junho de 2013, passando pelos grupos que protagonizaram os protestos pelo impeachment, até chegar ao bolsonarismo como movimento de massa.

Quando a direita descobriu que podia ir para as ruas

Antes de 2013, a direita brasileira não se sentia confortável em fazer protestos de rua. Tentativas anteriores haviam fracassado retumbantemente — como o movimento Em Direita Brasil, liderado por Ricardo Salles em 2006 para pedir o impeachment de Lula com base no escândalo do mensalão, ou o movimento Cansei, capitaneado por João Dória, que também não conseguiu mobilizar as pessoas.

“Existia essa percepção de que a direita nas ruas não conseguia mobilizar as pessoas, não era uma coisa muito popular”, explica Rocha. “Na época do movimento Em Direita Brasil, as próprias pessoas da direita falavam: ‘melhor mudar o nome do movimento, porque não pega muito bem isso, falar que é de direita’.”

Foi junho de 2013 que mudou essa realidade. As manifestações que começaram com pautas progressistas — tarifa zero no transporte público, contra o aumento das passagens — reuniram uma multidão nas ruas. E a direita, que até então estava isolada, viu ali uma oportunidade de se misturar à massa.

“Com base em dados coletados por pesquisadores, o que a gente pode dizer é que, do ponto de vista da maioria das pessoas que estavam na rua, as pautas eram progressistas”, esclarece a pesquisadora. “A direita era uma minoria em junho de 2013. Mas essas pessoas, que eram uma minoria, perceberam que podiam ir para as ruas e, nos próprios protestos, se conheceram umas às outras, fortaleceram laços, começaram a se organizar melhor.”

A eleição de 2014

O elemento decisivo para a emergência da direita como força de massa, no entanto, foi a eleição de Dilma Rousseff em 2014. A direita esperava que Aécio Neves vencesse, e a vitória da presidenta foi “um banho de água fria”, nas palavras de Rocha.

Quando Aécio contestou os resultados das eleições, abriu-se uma possibilidade de protesto que não existia antes. O primeiro ato pedindo o impeachment de Dilma ainda em 2014 foi puxado por uma página de Facebook ligada ao futuro MBL (Movimento Brasil Livre), que na época estava em formação.

“Já estavam lá reunidos na Avenida Paulista o Eduardo Bolsonaro, o Olavo de Carvalho tinha difundido o protesto nas redes dele”, recorda a pesquisadora. “Tava todo um grupinho do que veio depois a ser o bolsonarismo. Eram poucas pessoas, mas estavam todas lá.”

O sentimento antipolítico e antipartido, que já estava presente nas manifestações contra a corrupção de 2011 e 2012, foi habilmente canalizado pela direita contra o PT. A operação Lava Jato, amplamente coberta pela grande mídia, ajudou a consolidar na opinião pública a percepção de que a corrupção era o principal problema do país.

“Isso fez com que muita gente que nem era de direita, que nunca tinha ido a um protesto antes, fosse para as ruas com raiva”, analisa Rocha. “Uma coisa são pessoas comprometidas ideologicamente com pautas de direita. Outra coisa são as pessoas que saem às ruas porque estão com raiva.”

A pesquisadora também destaca um elemento crucial que diferenciava as manifestações de direita das de esquerda: a violência da repressão policial. “As manifestações de esquerda são brutalmente reprimidas pela polícia. Foi essa brutalidade em 2013 que ajudou as manifestações a ganharem volume — as pessoas ficaram revoltadas com as cenas de jornalistas tendo os olhos atingidos por balas de borracha.”

Já nas manifestações de direita, o cenário era outro. “Era seguro participar, levar a família, as crianças. Tinham até fotos de pessoas abraçadas com policiais. A mídia passava o dia inteiro cobrindo, mostrando que as pessoas eram ordeiras, que não tinha vidraça quebrada.”

MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online: três pilares do impeachment

Três grupos principais protagonizaram as manifestações pelo impeachment: o MBL, o Vem Pra Rua e os Revoltados Online. Cada um com seu perfil específico.

O MBL, que começou a se formar em junho de 2013, era composto basicamente por jovens de classe média — mas também com presença de periferias, como Fernando Holiday. “Eles tinham uma produtora de vídeo que trabalhava com memes e publicações nas redes sociais, o que ajudou muito a alavancar o movimento”, explica Rocha. O MBL sobreviveu, fundou um partido e até lançou pré-candidato à presidência.

O Vem Pra Rua era formado por profissionais liberais de renda alta, empresários, mais moderados tanto nas demandas quanto no repertório de ação. “Eram mais comportados”, resume a pesquisadora.

Já os Revoltados Online eram o grupo mais radical — intervencionistas que já participavam dos movimentos contra a corrupção em 2011 e 2012, que levavam cartazes pedindo intervenção militar e que protagonizaram episódios de violência em junho de 2013. Liderados por Marcelo Reis, tinham ligações com figuras como Carla Zambelli.

“Durante o acampamento em Brasília, havia divergências grandes entre os grupos, principalmente em relação aos intervencionistas”, conta Rocha. “Os Revoltados Online acabaram expulsos do acampamento. Não era uma coisa coesa, todo mundo junto pensando igual.”

Foi nesse caldo cultural que se consolidou no Brasil o que a academia chama de “libertarianismo” — ou, em termos mais populares, o ultraliberalismo. Grupos que defendem de forma radical a liberdade de mercado, sendo contra agências reguladoras, contra políticas públicas de saúde e educação, e a favor da competição de moedas.

“Os neoliberais entendiam que o Estado tem que existir para fazer com que o mercado funcione melhor”, diferencia Rocha. “Os ultraliberais acham que o mercado é perfeito e que você não tem que ter Estado nenhum.”

Essas ideias ganharam força durante o governo Bolsonaro, com Paulo Guedes no Ministério da Economia, e resultaram em tentativas de implementar pautas como o homeschooling no Brasil.

Bolsonaro no poder e manifestações de direita

Com Bolsonaro na presidência, seria de se esperar que a esquerda voltasse às ruas em massa. E de fato houve movimentos importantes — como os protestos contra o governo durante a pandemia de Covid-19, pedindo impeachment. Mas a extrema direita continuou mobilizada, com motociatas e eventos de 7 de setembro transformados em palanques golpistas.

“Essa é uma marca registrada do bolsonarismo”, afirma Rocha. “É um fenômeno político que tem como base grandes protestos de rua e grande alcance nas redes sociais.”

A pesquisadora aponta dois fatores para explicar por que a esquerda não protagonizou grandes manifestações durante o governo Bolsonaro. O primeiro foi a pandemia: pessoas progressistas, favoráveis ao isolamento social, viam com complicação a realização de aglomerações. O segundo foi o medo da repressão.

“Se em contextos em que a própria esquerda está no poder as manifestações de esquerda são brutalmente reprimidas, imagine com um governante de extrema direita”, questiona. “É compreensível que as pessoas tivessem medo de ir para as ruas.”

As manifestações bolsonaristas, por outro lado, cumpriam uma função social importante para seus participantes. Em um contexto de polarização, em que muitas pessoas se sentiam isoladas em seus ambientes familiares ou de trabalho por suas opiniões políticas, os protestos funcionavam como espaços de acolhimento.

“As pessoas vão para encontrar quem pensa parecido, para sentir parte de um movimento maior”, explica Rocha, baseada em entrevistas com eleitores de Bolsonaro. “Elas falavam: ‘ali eu vou me sentir acolhido, vou encontrar pessoas que não vão me criticar, não vão me xingar, não vão falar que eu sou fascista’.”

Havia também um sentimento de orgulho e pertencimento. Os eleitores viam nos protestos a confirmação de que Bolsonaro era popular e que as eleições de 2022 — vencidas por Lula — haviam sido uma “fraude”. “Eles falavam: ‘olha o tamanho dos protestos, olha como ele é popular. Lula não consegue fazer protestos tão grandes’.”

O futuro da direita nas ruas

Passado o 8 de janeiro de 2023, com suas consequências e a responsabilização dos envolvidos, a força da direita nas ruas diminuiu — tanto em número de participantes quanto em engajamento nas redes. Mas isso não significa que tenha desaparecido.

“O número de pessoas diminuiu, mas a qualidade aumentou”, alerta a pesquisadora, citando como exemplo a caminhada de Nikolas Ferreira até Brasília, que reuniu centenas de pessoas dispostas a enfrentar chuva torrencial e riscos de toda ordem.

“É impressionante pensar que tem pessoas no Brasil dispostas a morrer por uma causa, por algo que acreditam. Isso demonstra a força, a penetração desse movimento político”, conclui Rocha.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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