E agora, Trump?

‘EUA e Israel não têm estratégia do que fazer com o Irã’, afirma historiador

Anderson Barreto, do Instituto Tricontinental, aponta que o Irã se preparou para um possível ataque e que a estratégia iraniana é espalhar o conflito na região

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People mourn the death of Iran’s supreme leader Ayatollah Ali Khamenei, who was killed in joint US and Israeli strikes, at a square in Tehran on March 1, 2026. Ayatollah Ali Khamenei, Iran's supreme leader since 1989 and sworn enemy of the West, was killed in the opening salvo of a massive US and Israeli attack that extended into a second day on March 1, as the two powers seek to topple the Islamic republic. (Photo by ATTA KENARE / AFP)
Iranianos lamentam o assassinato do líder supremo aiatolá Ali Khamenei | Crédito: Atta Kenare / AFP

Desde o último sábado (28), quando Israel e Estados Unidos lançaram ataques coordenados contra o Irã, o Oriente Médio mergulhou em uma escalada de violência que abre novos fronts a cada dia. Enquanto o Irã ataca bases estadunidenses na região, Israel envia tropas para o sul do Líbano, e países como Bahrein e Arábia Saudita veem sua estabilidade ameaçada.

“O Irã se preparou no último ano. A estratégia iraniana agora é espalhar o conflito, atacando bases estadunidenses e de apoio no Oriente Médio. Isso pegou os Estados Unidos de surpresa. Todas as declarações que se ouve são de surpresa — não se imaginava que a capacidade iraniana fosse dessa dimensão”, explica Anderson Barreto, professor de história e pesquisador convidado do Instituto Tricontinental, ao BdF Entrevista da Rádio Brasil de Fato.

O analista aponta que Israel e Estados Unidos não têm uma “estratégia do que fazer com o Irã”. “A estratégia inicial era decapitar o regime e acreditar num possível colapso interno, numa rebelião que derrubasse o governo. Isso não existiu. Pelo contrário, milhões de iranianos foram às ruas. Agora o discurso mudou para o risco de armas nucleares, mas nunca se teve prova nenhuma. Não há armas nucleares no Irã, e a própria AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica] já disse isso.”

Um dos aspectos mais graves, segundo Barreto, é que os ataques ocorreram durante negociações. “Eles estavam negociando em Omã. Havia propostas, os iranianos estavam inclinados a um acordo que permitisse o enriquecimento de urânio em outras condições. Desde 2009 o Irã tenta negociar um acordo, e os Estados Unidos rompem esse acordo repetidamente.”

O historiador lembra que, em 2009, Brasil e Turquia conseguiram um acordo com o Irã, rejeitado pelos EUA. “Agora o que aconteceu foi um rompimento das negociações por parte dos Estados Unidos. Você está negociando, envia mensagens, coloca questões na mesa, e vai e bombardeia o país, assassina o líder com quem você está negociando. Isso é de uma gravidade histórica. O sistema internacional estabelecido pós-Segunda Guerra está se desfazendo.”

“O Irã é um ator central na região da Ásia. Há acordos, compromissos, corredores de gás, de petróleo, de transporte de mercadorias. Há um projeto muito grande via Rota da Seda, via Brics, via Organização de Cooperação de Xangai. O Irã é um ponto estratégico para a estrutura que Rússia e China vêm arquitetando para criar a multipolaridade”, explica.

Para os Estados Unidos e Israel, o controle da região é vital. “A forma como estão tentando, no entanto, não tem funcionado. Acreditaram que um ataque surpresa, como foi feito na Venezuela com o sequestro de Maduro, decapitaria o alto escalão e criaria um choque para substituir o regime. Mas o Irã não aceita isso. Nenhum momento o Irã disse que aceitaria.”

Barreto analisa sobre o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, frente às várias teses. “Uma delas é que ele sabia que o ataque viria, mas preferiu não se esconder, dando exemplo ao povo. Outra é que acreditavam que, por estarem em negociação, não haveria um ataque dessa magnitude. O que os Estados Unidos têm feito muito é chamar para negociação e bombardear em seguida.”

Barreto esclarece que os objetivos do Irã é pressionar os aliados estadunindenses na região, para que esses governos e suas populações se voltem contra a presença dos EUA.

“Você tem uma conflagração no Bahrein, país de maioria xiita onde a população está em levante. Há uma desestabilização na região. O Irã quer que esses aliados entendam que não é mais aceitável a presença estadunidense.”

China e Rússia: o limite da intervenção

Sobre o papel de China e Rússia, Barreto é cauteloso sobre a intervenção que possui um grau determinante diante da guerra. “São as duas grandes referências que teriam condições de pôr um freio na escalada. A entrada direta da China ou da Rússia desencadearia uma guerra mundial. Por isso, tanto Rússia quanto China fazem um esforço gigantesco para se colocar como mediadores.”

“Antes do ataque, houve um exercício naval conjunto entre Irã, China e Rússia. Pequim tem dado suporte de inteligência. Os drones iranianos, de fabricação própria, foram aprimorados por Moscou e usados na Ucrânia. Mas do ponto de vista militar direto, acredito que a China não irá intervir — neste momento, não há preparação para uma guerra total”, aponta.

Barreto conclui com o alerta que este conflito não terminará sem uma reconfiguração do Oriente Médio. “A situação chegou a outro patamar”. Para o historiador, se o Irã conseguir avançar na sua estratégia de expulsar a presença estadunidense da região, será uma “vitória gigantesca”. “Se Estados Unidos e Israel atingirem seus objetivos — que ninguém sabe mais quais são— , também será um novo cenário”, conclui.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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