Eleições 2026

Bolsonaristas querem dominar o Senado para atingir o STF, aponta cientista político

Paulo Roberto de Souza analisa prioridades da extrema direita nas eleições deste ano e que vitória de Flávio Bolsonaro pode significar fim da democracia

Plenário do Senado Federal
Plenário do Senado Federal | Crédito: Jonas Pereira/Agência Senado

Enquanto o país se prepara para as eleições de outubro, a extrema direita já definiu suas prioridades. Além da disputa pelo Palácio do Planalto, outro grande objetivo do bolsonarismo em 2026 é conquistar o Senado Federal — e com ele, a capacidade de abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A estratégia, articulada há meses, expõe o caráter autoritário de um campo político que já tentou um golpe de Estado e agora busca, pelas vias institucionais, moldar a democracia à sua imagem e semelhança.

O cientista político Paulo Roberto de Souza observa no BdF Entrevista que a extrema direita permeia entre dois grandes objetivos: eleger Flávio Bolsonaro presidente da República e colocar o maior número possível de representantes bolsonaristas no Senado. “Primeiro para efetivamente conseguir aumentar a pressão, depois aumentar a chantagem e, em última instância, quem sabe, poder cassar ministros do STF”, aponta.

Para Paulo Roberto, a aposta da extrema direita no Senado não é um movimento eleitoral como outro qualquer. Trata-se de uma estratégia de longo prazo para pressionar, chantagear e, em última instância, cassar ministros do Supremo.

“Já tem um tempo que eles estavam nessa articulação pensando em dominar o Senado primeiro para efetivamente conseguir, primeiro, aumentar a pressão, depois aumentar a chantagem e aí, em última instância, quem sabe, poder caçar ministros do STF”, explica. “Sendo o principal foco da extrema direita no Brasil hoje modulá-lo de forma cada vez mais conveniente, seja na oposição fazendo muita pressão ou numa possível situação ganhando a presidência da República.”

O cientista político lembra que a tentativa de controlar o Judiciário já tem um precedente no governo de Jair Bolsonaro, que indicou ao STF os ministros André Mendonça e Nunes Marques. “Como nós podemos ver desde o início dos mandatos de ambos, que eles têm alguns alinhamentos significativos com esse campo. O último desses eventos foi efetivamente a votação contrária à cassação do governador Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, somente por André de Mendonça e Nunes Marques.”

Paulo Roberto destaca que a estratégia bolsonarista para o Senado é inédita na história recente do país. A aposta, segundo ele, é reflexo de uma percepção interna da extrema direita sobre seus próprios limites. Embora o núcleo duro bolsonarista represente entre 15% e 20% do eleitorado — um piso que garante ao campo a presença no segundo turno —, há dificuldades para expandir essa base e para produzir novas lideranças com capilaridade.

“Começa a ter uma dificuldade para conseguir eleger para os outros cargos mais lideranças, inclusive produzir lideranças no nível de aceleração que essa extrema direita trabalha”, analisa. “Nós temos lideranças que ganharam muita relevância muito rápido, mas elas são muito restritas. Poucas outras lideranças conseguem acompanhar isso e criar um bloco mais amplo.”

Uma das características que explicam essa dificuldade, segundo Paulo Roberto, é o personalismo radical do bolsonarismo, que se articula de forma messiânica com o neopentecostalismo. Além disso, a lógica de competição entre as lideranças do campo frequentemente inviabiliza alianças mais duradouras.

Eles competem muito entre si. Têm uma lógica individualista radical na sua atuação política de competição que muitas vezes fere de morte política alguns dos seus aliados, quando eles não se alinham ou quando eles não conseguem acompanhar o ritmo”, afirma.

O cientista político compara essa dinâmica com a trajetória de outros campos políticos ao longo da redemocratização. “Os principais quadros de formação do PT, do MDB e também do PSDB democrático tinham uma coesão, uma lógica ainda mais coletiva de partido, uma outra forma de partido. Para esses que são ultra individualizados e radicalizados, não têm problema nenhum de passar por cima dos seus aliados.”

O cenário projetado por Paulo Roberto para uma eventual vitória da extrema direita em 2026 é sombrio. Se o campo bolsonarista conseguir eleger entre 41 e 45 senadores — número suficiente para abrir processos de impeachment contra ministros do STF —, a estabilidade institucional do país estaria seriamente ameaçada.

“Não se mantém. A gente abre flancos de indeterminação, de imprevisibilidade muito significativos”, responde ele, ao observar sobre como se controlaria o ambiente entre os poderes nesse cenário. “Já foi difícil entre 2019 e 2022, com o governo Bolsonaro, diante da maior pandemia dos nossos tempos. Mas nada disso é definitivo.”

O cientista político alerta para o significado das declarações de Flávio Bolsonaro durante a campanha. “Quando a gente tem um candidato à presidência da República dizendo que vai anistiar um golpista, e se ele vai anistiar o golpista, ele vai anistiar os outros golpistas? Quando ele diz que vai trabalhar para eleger o máximo de senadores possíveis para poder tirar pessoas do STF e poder indicar aqueles de acordo com o que ele tem intenção, ele está dizendo que vai cada vez mais restringir o poder nas suas mãos.”

Paulo Roberto é categórico ao avaliar o que estaria em jogo. “Se o Flávio Bolsonaro for conduzido à presidência da República, dificilmente a gente vai ter democracia, pelo menos no que a gente conhece nos dias atuais, que já piorou em relação àquilo proposto na Constituição de 88 e que a gente experimentou com uma certa estabilidade até 2014.”

Em meio à polarização entre o campo democrático e a extrema direita, o Centrão — tradicionalmente o “poder moderador” da política brasileira — enfrenta uma crise de identidade. O cientista político observa que o bloco, historicamente ancorado em lideranças regionais e no controle de prefeituras do interior, pode estar vivendo seu momento mais delicado.

“Dentro dessa transformação da política brasileira, principalmente desde o impeachment da Dilma e a consequente eleição do Bolsonaro, que sugou o PSDB, essa extrema direita ocupou esse espaço”, analisa. “Você tem aí algo ainda muito vulnerável, porque essa extrema direita, sem violar a democracia, e quem sabe acabar com a democracia, certamente ela tem um prazo de validade.”

Para Paulo Roberto, a disputa que se desenha para 2026 e, especialmente, para 2030, abre um espaço para uma recomposição do Centrão. Quem sair derrotado da eleição presidencial deste ano — seja Lula, seja Flávio Bolsonaro — deixará um vácuo que o bloco fisiológico tentará ocupar, apresentando-se como a alternativa “moderada” diante do extremismo do outro lado.

“É possível que se abra um espaço dentro dessa polarização”, afirma. “O centrão vai tentar entrar e falar: é melhor você votar em mim do que ter a manutenção deste outro lado, que é trabalhado de forma muito equivocada na opinião pública como ambos radicalizados, o que não é o caso, porque um é notadamente democrático e o outro é notadamente antidemocrático, para não dizer golpista.”

O cenário nos estados: São Paulo como termômetro

Paulo Roberto analisa ainda as principais disputas estaduais para o Senado, destacando São Paulo como o grande termômetro da estratégia bolsonarista. No estado, o ex-ministro Guilherme Derrite surge como favorito para uma das vagas, capitalizando o voto coeso da extrema direita. A segunda vaga, no entanto, deve ser disputada entre Marina Silva e Simone Tebet — duas ministras do governo Lula — em uma corrida que pode ser decidida pela fragmentação do voto bolsonarista em múltiplas candidaturas.

“Eu considero que, de saída, neste momento, é muito difícil imaginar que o Guilherme Derrite não seja eleito senador de São Paulo”, afirma. “Por quê? Porque o voto da extrema direita é muito coeso. O outro, abaixo, quase que uma reprodução do voto de governador para senador. E aí você tem essa segunda candidatura que entra numa disputa que pode, por causa dessa fragmentação da extrema direita, levar à segunda vaga.”

O cientista político avalia que a aposta em Simone Tebet, que se filiou ao PSB para disputar o Senado, pode ser mais viável eleitoralmente do que a candidatura de Marina Silva, devido à rejeição da ex-ministra do Meio Ambiente no interior agroexportador paulista. “Marina Silva tem uma inserção significativa nos meios urbanos, mas tem uma dificuldade muito séria de adentrar o interior. O que não é o caso de Simone Tebet, que sim vai ser quase que o segundo voto da totalidade do voto progressista de esquerda da Marina Silva, mas que também vai ter uma viabilidade maior para um segundo voto no interior.”

Paulo Roberto deixa um alerta claro: o que está em jogo nas eleições de 2026 é a própria sobrevivência da democracia brasileira. A estratégia bolsonarista de dominar o Senado para abrir caminho ao impeachment de ministros do STF é um sinal de que o campo autoritário não abandonou seus objetivos golpistas — apenas mudou de tática.

“A extrema direita não é democrática. É por isso que eu a chamo de extrema direita. Ela já tentou um golpe em 8 de janeiro de 2023, não conseguiu, é por isso que o ex-presidente Jair Bolsonaro está preso. Ela continua tendo as suas intenções de pelo menos esgarçar a democracia ou moldá-la à sua imagem e semelhança, que significa uma democracia cada vez mais restrita e restritiva”, destaca.

O cientista político conclui com uma observação sobre a necessidade de o campo democrático estar atento não apenas à eleição presidencial, mas também à composição do Senado. “Quem sair derrotado nesta eleição presidencial sai muito derrotado. E sai deixando seu espaço num campo privilegiado da política brasileira vago. E aí que o centrão entra.”

O cenário, portanto, é de disputa acirrada em todas as frentes — e o resultado pode definir os rumos do país para as próximas décadas.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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