Quando Fabian Kassabian contou para a mãe, aos 16 anos, que era lésbica, ouviu a pergunta: “Mas você não vai virar um homem, né?”. Ao BdF Entrevista, Kassabian, que é coordenador da plataforma de educação contra-hegemônica Brava, fala da trajetória para construir sua identidade a partir do momento em que percebeu que aquela forma definida pelos padrões sociais impostos ao nascer não refletia sua existência e experiência no mundo.
Hoje pessoa transmasculina não-binária, Kassabian procura tentar sintetizar como se vê e percebe no mundo, apontando para o fato de que a transmasculinidade não é tão presente no imaginário social quando se fala em transgeneridade. “As pessoas transmasculinas são pessoas que, quando nasceram, atribuíram: ‘Ah, é menina’. E aí você vai vivendo, mas em algum momento fala assim: ‘Eu não me identifico com essa categoria’. E aí você pode ser um homem trans, uma pessoa não- binária, pode ter várias identidades que compõem a transmasculinidade”, explica. “Saí do armário algumas vezes e de formas diferentes. Talvez saia em outras, de outros jeitos.”
Para ele, sexualidade e gênero estão muito relacionados e, embora existam definições para cada um dos conceitos, os contornos são muito fluídos. Sobre se a composição da sigla LGBT+ consegue dar conta de todas as transversalidades possíveis de se ver e se relacionar com e no mundo, Kassabian procura usar a própria vivência como exemplo.
“Eu uso mais sapatão para me referir a mim mesmo, lésbica enquanto essa identidade que me reconheço desde os 16 anos, que diz das minhas referências, meus afetos, os modos de me relacionar. Gay é como estão me lendo na rua e isso faz parte, de algum modo, de como as pessoas estão se relacionando comigo. Bissexual é como eu estou me relacionando nesse momento. E eu sou uma pessoa transmasculina. Essas categorias não são fixas, porque a gente vai vivendo e se abrindo a composições que fazem parte desse corpo. Não preciso deixar de ser nada para ser quem eu sou. Não preciso matar a mulher que fui, a lésbica que fui. Tudo compõe meu corpo”, avalia.
Fabian Kassabian também fala sobre a importância da informação qualificada e acessível para toda e qualquer pessoa interessada no tema e de como isso se alinha com os valores da Brava, em um território em constante disputa narrativa, como é a internet.
“A internet é difícil, não é um campo fácil de habitar. E aí a gente tem algumas disputas que vão acontecendo”, diz. Uma delas diz respeito às tensões em torno da lesbianidade e sua relação com identidades trans e não- binárias. Segundo Kassabian, parte dessas disputas gira em torno de quem pode ou não se identificar como lésbica. No entanto, ele destaca que há outras dimensões menos visíveis, como a experiência de pessoas transmasculinas e não-binárias que continuam se reconhecendo dentro da lesbianidade. “Muitas dessas pessoas construíram espaços lésbicos e feministas, e continuam reivindicando pertencimento. Não é simplesmente um lugar que deixa de existir”, aponta.
É também no território das redes sociais que debates sobre masculinidades e feminilidades — ou mulheridades — têm se estabelecido, e frequentemente são apoiados por conceitos fechados, discriminatórios e, por vezes, violentos. “Não existe uma única forma de ser homem ou mulher. Essas identidades são atravessadas por raça, classe, sexualidade, deficiência, entre outros fatores”, explica.
Por fim, e dentro dessa pluralidade, Kassabian conclui citando Audre Lorde. “Vai ter sempre alguém querendo dizer sobre você mais do que você mesmo. E ela [Audre Lorde] diz para a gente tomar cuidado com isso, porque é uma forma de aniquilação muito violenta. Então, se identificar, se desidentificar, se perguntar, se questionar faz parte do movimento da vida e do processo.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
