contra a ditadura

Mulheres tiveram papel de destaque na luta armada contra a ditadura e romperam com estigmas sociais

Pesquisadora conversou com dezenas de ex-militantes da ALN que contaram suas motivações e desafios na resistência

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Mulheres tinha papel estratégico dentro da ALN, a Ação Libertadora Nacional | Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo

A história da resistência armada à ditadura militar brasileira (1964-1985) é frequentemente narrada do ponto de vista masculino, centrada em figuras como Carlos Marighella ou Joaquim Câmara Ferreira. No entanto, no cotidiano de organizações como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a presença de mulheres era constante e elas desempenhavam várias funções.

A pesquisadora Maria Cláudia Badan Ribeiro, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina pela Universidade Sorbonne e autora do livro Mulheres na Luta Armada, avalia que a militância armada feminina subverteu não apenas o regime, mas o machismo dos rígidos papéis de gênero da década de 1960, que, mesmo com mudanças significativas nas últimas décadas, ainda hoje não foi completamente superado.

“A história é contada no masculino. Mas a luta das mulheres começou muito antes da ditadura, no processo do êxodo rural, quando essas mulheres passaram a participar da população economicamente ativa, as que tinham a oportunidade fazendo universidade, fazendo cursos, trabalhando nas cidades e fazendo parte desse momento histórico do Brasil, que era um momento de muitas mudanças sociais, muitos desejos de mudanças. Nunca se falou tanto em desenvolvimento naquele momento”, explica.

Para ela, a horizontalidade com que a ALN de Marighella operava facilitou a inserção de mulheres, já que a função para cada missão era determinada pela capacidade técnica. “Teve mulher fazendo a área de inteligência, levantamento de banco, ações armadas em quartéis, logística para fugas”, cita Ribeiro, que destaca que as mulheres que compuseram a luta armada vinham de diferentes extratos sociais. “A ALN teve religiosas, donas de casa, profissionais liberais”, conta.

Segundo a pesquisadora, não se tratava apenas do caráter vanguardista de Marighella, mas do reconhecimento, por parte do militante, da centralidade feminina. “O Carlos Marighella tinha essa clara noção de que a mulher chefiava a família e que tinha um papel central ali para a militância, porque quando ela vinha, trazia a família inteira junto.”

Essa visão permitiu que 30 mulheres da organização fossem enviadas para treinamento de guerrilha em Cuba, um movimento que enfrentou resistência até dos instrutores cubanos, mas que foi garantido pela liderança brasileira.

Violência de gênero

Maria Cláudia Badan Ribeiro destaca o enfrentamento aos estigmas sociais que as mulheres que ingressaram na resistência armada também tiveram que suportar. Enquanto a propaganda oficial da ditadura exaltava a “mãe do ano” com a criação de um prêmio com esse nome, as presas políticas eram rotuladas pela imprensa como “terroristas sexy”, porque foram presas de babydoll. “Havia um ódio específico à mulher militante. E assim, um pensamento conservador e reacionário terrível. O passo final era tortura. Eles chamavam as mulheres de mulher de aparelho, entendeu? De vida airosa, que tinha milhões de amantes”, conta.

Em suas entrevistas com mulheres da militância, Ribeiro conta que muitas delas relatavam o machismo presente nas sessões de tortura. “O interrogador perguntava: ‘Você é amante desse ou daquele?’.” Ribeiro lembra que o desejo da ditadura era o apagamento e a destruição dessas mulheres, e cita o caso emblemático de Diva Burnier, que precisou ser submetida a um exame de virgindade para obter condicional, como forma de “provar” que não era amante de companheiros de célula. “A ditadura olhava para a mulher moderna, para a mulher libertária, como um problema moral”, explica.

Para as sobreviventes, a experiência da guerrilha não é um capítulo isolado, mas a própria identidade. Ao questionar Guiomar Silva Lopes, uma das lideranças do Grupo Tático Armado (GTA) da ALN, a pesquisadora ouviu uma resposta definitiva: “Essa experiência sou eu. Eu fiz aquilo que eu acreditei que era certo fazer. Você não vê a mulher arrependida”.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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