Em uma sociedade mergulhada no consumo, o que você tem, muitas vezes, é um termômetro social para saber se você pode ser classificado como rico ou pobre.
Com a maior oferta de crédito e a opção de parcelar compras, a população periférica teve acesso a bens de consumo como geladeira, TV de tela plana e celular de última geração. Mas será que isso representou a erradicação da pobreza no Brasil?
No livro “Parcelado — dinâmicas de consumo na periferia”, o professor Kauê Lopes dos Santos aborda esse tema a partir de uma pesquisa realizada durante o mestrado que ele realizou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Ao BdF Entrevista, Santos conta que o interesse surgiu a partir de uma observação de financeiras voltadas a linhas de crédito para população de baixa renda, bem como redes varejistas que criaram a modalidade de crediário para facilitar parcelamentos, como por exemplo as Casas Bahia. “Elas vão se localizando em áreas estratégicas da cidade e talvez elas sejam as empresas que mais conhecem o território brasileiro, que mais conhecem a população de baixa renda. Esse modelo do crediário foi sendo estabelecido aos poucos e com o tempo ele foi ganhando maior institucionalidade na medida em que o sistema financeiro passou a compor junto com essas redes de varejo”, relata.
O pesquisador conta que essa forma de consumo ganhou força no final da década de 1990 e início dos anos 2000. O período coincide com o primeiro governo Lula e a ampliação do poder de compra das classe C, D e E, como observa Santos.
“Quando no livro eu indico uma espécie de uma política econômica ligada a essa lógica de consumo, está muito atrelada ao entendimento de que o consumo de bens elétricos e eletrônicos é uma das variáveis que melhoraria as condições de vida da população. E eu estou plenamente de acordo com isso. Na medida em que se tem acesso a determinados objetos, a determinadas mercadorias, isso pode melhorar a qualidade de vida. Especialmente os chamados produtos da linha branca, como fogão, geladeira, e até outros como TV e aparelho de DVD, que hoje está menos em voga mas foi importante”, menciona. “O que a gente vê é um aumento de consumo viabilizado pelo crédito”, segue.
Santos também conta que, embora o livro verse especificamente sobre os padrões e hábitos de consumo das periferias, esse elemento do consumo a partir do crédito e parcelamento é de fácil identificação com outros estratos sociais. “Muitos segmentos das classes C, ou até mesmo da classe B, podem se identificar com essa lógica do parcelamento que é o que garante que a gente continue consumindo. Muitas vezes ainda estou pagando a parcela e essa mercadoria ou já está estragada e aí a gente já tem que comprar de novo, ou não está estragada, mas eu quero comprar algo novo porque a publicidade veio com força e me convenceu de que está na hora de comprar um novo celular, uma nova geladeira, um novo fogão, uma nova televisão. Então a gente tem uma miríade de possibilidades que estão ligadas a esse universo do consumo cada vez mais frequente. A lógica do parcelamento está altamente capilarizada e organizando o orçamento familiar do brasileiro”, analisa.
Mas se o acesso a bens de consumo acabou sendo facilitado através de uma série de dispositivos financeiros e até mesmo de um aumento de renda da população, ter objetivos de valor não significa mudança social representativa. É o que Santos conta ter constatado após anos de pesquisa e observação. “Ao longo desses últimos 15 anos de investigação, é que mesmo com acesso a esses bens que a gente considera como modernos, ainda existe na periferia, e sobretudo na periferia, muita escassez no que diz respeito às infraestruturas e serviços de qualidade”, explica.
Para Kauê Lopes dos Santos, essa lógica é a “cara da modernização brasileira” com todas as suas contradições. “Por mais que você tenha uma geladeira moderna, um fogão de última geração, uma televisão que conecta a internet, um smartphone, pode ser que na tua casa a rede de energia não consiga nem segurar o uso de todos esses equipamentos ao mesmo tempo. Ou que na rua você tenha esgoto correndo a céu aberto. Então, as condições de infraestrutura na periferia reafirmam essa lógica de um acesso precário às infraestruturas e serviços”, aponta.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
