PODER DE CONSUMO

Pobre de iPhone? Livro fala como crédito e compra parcelada criaram ilusão de ascensão social

Kauê Lopes dos Santos conta que o livro é fruto de 15 anos de pesquisa de hábitos de consumo nas periferias de SP

A woman looks at her mobile phone at the Moinho favela during the state government's plan to evict the residents of the community in Sao Paulo, Brazil on April 22, 2025. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP)
Ter acesso a bens de consumo como celulares de última geração não significam mudança no estrato social | Crédito: Miguel Schincariol/AFP

Em uma sociedade mergulhada no consumo, o que você tem, muitas vezes, é um termômetro social para saber se você pode ser classificado como rico ou pobre.

Com a maior oferta de crédito e a opção de parcelar compras, a população periférica teve acesso a bens de consumo como geladeira, TV de tela plana e celular de última geração. Mas será que isso representou a erradicação da pobreza no Brasil?

No livro “Parcelado — dinâmicas de consumo na periferia”, o professor Kauê Lopes dos Santos aborda esse tema a partir de uma pesquisa realizada durante o mestrado que ele realizou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Ao BdF Entrevista, Santos conta que o interesse surgiu a partir de uma observação de financeiras voltadas a linhas de crédito para população de baixa renda, bem como redes varejistas que criaram a modalidade de crediário para facilitar parcelamentos, como por exemplo as Casas Bahia. “Elas vão se localizando em áreas estratégicas da cidade e talvez elas sejam as empresas que mais conhecem o território brasileiro, que mais conhecem a população de baixa renda. Esse modelo do crediário foi sendo estabelecido aos poucos e com o tempo ele foi ganhando maior institucionalidade na medida em que o sistema financeiro passou a compor junto com essas redes de varejo”, relata.

O pesquisador conta que essa forma de consumo ganhou força no final da década de 1990 e início dos anos 2000. O período coincide com o primeiro governo Lula e a ampliação do poder de compra das classe C, D e E, como observa Santos.

“Quando no livro eu indico uma espécie de uma política econômica ligada a essa lógica de consumo, está muito atrelada ao entendimento de que o consumo de bens elétricos e eletrônicos é uma das variáveis que melhoraria as condições de vida da população. E eu estou plenamente de acordo com isso. Na medida em que se tem acesso a determinados objetos, a determinadas mercadorias, isso pode melhorar a qualidade de vida. Especialmente os chamados produtos da linha branca, como fogão, geladeira, e até outros como TV e aparelho de DVD, que hoje está menos em voga mas foi importante”, menciona. “O que a gente vê é um aumento de consumo viabilizado pelo crédito”, segue.

Santos também conta que, embora o livro verse especificamente sobre os padrões e hábitos de consumo das periferias, esse elemento do consumo a partir do crédito e parcelamento é de fácil identificação com outros estratos sociais. “Muitos segmentos das classes C, ou até mesmo da classe B, podem se identificar com essa lógica do parcelamento que é o que garante que a gente continue consumindo. Muitas vezes ainda estou pagando a parcela e essa mercadoria ou já está estragada e aí a gente já tem que comprar de novo, ou não está estragada, mas eu quero comprar algo novo porque a publicidade veio com força e me convenceu de que está na hora de comprar um novo celular, uma nova geladeira, um novo fogão, uma nova televisão. Então a gente tem uma miríade de possibilidades que estão ligadas a esse universo do consumo cada vez mais frequente. A lógica do parcelamento está altamente capilarizada e organizando o orçamento familiar do brasileiro”, analisa.

Mas se o acesso a bens de consumo acabou sendo facilitado através de uma série de dispositivos financeiros e até mesmo de um aumento de renda da população, ter objetivos de valor não significa mudança social representativa. É o que Santos conta ter constatado após anos de pesquisa e observação. “Ao longo desses últimos 15 anos de investigação, é que mesmo com acesso a esses bens que a gente considera como modernos, ainda existe na periferia, e sobretudo na periferia, muita escassez no que diz respeito às infraestruturas e serviços de qualidade”, explica.

Para Kauê Lopes dos Santos, essa lógica é a “cara da modernização brasileira” com todas as suas contradições. “Por mais que você tenha uma geladeira moderna, um fogão de última geração, uma televisão que conecta a internet, um smartphone, pode ser que na tua casa a rede de energia não consiga nem segurar o uso de todos esses equipamentos ao mesmo tempo. Ou que na rua você tenha esgoto correndo a céu aberto. Então, as condições de infraestrutura na periferia reafirmam essa lógica de um acesso precário às infraestruturas e serviços”, aponta.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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