saúde mental

Entenda as diferenças entre os Centro de Atenção Psicossocial, os Caps e os manicômios

Para Silvio Yasui, manicômios se tornaram 'depósitos de gente', enquanto o Caps trata do ser humano como pessoa

Crédito: Nádia Nicolau / Mídia Ninja
Luta antimanicomial foi um marco para que terapia invasivas como os eletrochoques fossem banidas dos protocolos de atendimento em saúde mental | Crédito: Nádia Nicolau / Mídia Ninja

Você já deve ter ouvido, e talvez até tenha falado, piadinhas do tipo “esse aí parece que fugiu do Caps”. Além de ser preconceituosa, a brincadeira traz uma ideia equivocada: a de que os Centros de Atenção Psicossocial funcionariam como os antigos manicômios, em que os pacientes viviam confinados.

O BdF Entrevista recebe Silvio Yasui, professor de Psicologia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Para para explicar a diferença entre os dois modelos. O especialista conhece ambos muito bem: trabalhou no primeiro Caps do Brasil, fundado no final da década de 1980. Mas, antes disso, ainda em 1983, chegou a atuar como único psicólogo para quase 4 mil pacientes no famoso Hospital Psiquiátrico de Juqueri, em Franco da Rocha (SP).

Yasui relata a primeira impressão que teve quando entrou no local. “A impressão que eu tive quando eu cheguei no pátio é de que eram pessoas absolutamente abandonadas. Não era um lugar de tratamento, mas era um lugar de depósito. Muito sofrimento! As pessoas com vestes muito precárias, muitas delas nuas, andando de um lado para o outro, sem o que fazer. E era um cenário que, mais tarde, o Franco Basaglia, quando visitou o Hospital Colônia de Barbacena, chamou de campo de concentração. E talvez tivesse muito essa semelhança”, afirma.

O psicólogo se recorda de uma situação vivida lá dentro que explicíta a deturpação de chamar aquela instituição de hospital — um lugar onde pessoas chegam, passam por um tratamento e, em algum momento, recebem alta. “Ali no Juqueri, não, o que reforçava muito aquela ideia de um lugar, de um depósito, de abandono. Tinha pessoas lá internadas há 20, 30, 40, 50, 60 anos. Eu conheci uma pessoa que estava internada lá há quase 70 anos. Ela tinha 80 e poucos anos de idade e tinha sido internada com 12 anos de idade”, conta.

“Ou seja, era de fato um lugar não mais de transição, de passagem, de tratamento, mas quase um asilo. Então eles não eram mais pacientes, tinham perdido seus vínculos familiares. A gente começou aquele projeto do lar abrigado, um pouco também para dar uma espécie de resposta a essa questão da violação dos direitos humanos, porque, ao fazer isso, a gente tentava buscar restituir aquelas pessoas em uma certa condição de cidadania”, segue. O projeto constituía uma modalidade terapêutica nova então, oferecendo a parte dos internos espaços de convivência descaracterizados em seus aspectos hospitalares, com estímulos a relações sociais.

Já no Caps, anos mais tarde, Yasui passou a experimentar outra forma de lidar com a saúde mental. “Era uma proposta de ter um lugar intensivo a pessoas que apresentavam um intenso sofrimento psíquico, pessoas em crise, e que prescindisse da internação”, explica. “E a grande diferença era esta, era olhar para as pessoas como pessoas, como pessoas que têm algum tipo de sofrimento e que precisam ser cuidadas, e cuidadas em espaço livre, cuidadas em liberdade, que hoje se tornou um grande princípio desse processo de mudança que é o melhor cuidado daquilo que se faz em liberdade”, pontua.

O psicólogo reforça que o conceito de acolhimento do Caps é o da “casa aberta”. A pessoa passa o dia e sai. Há situações em que precisa de um acolhimento noturno, e essas instituições também fornecem esse tipo de modalidade, mas não é uma internação. E por isso, destaca ele, é chamado de política de saúde mental. “Se a pessoa, por algum motivo, precisa de um acolhimento um pouco mais intensivo do que aquele ofertado ao longo do dia, a gente tem. Os Caps 3 possuem geralmente quatro a oito leitos, alguns doze leitos, dependendo da configuração, em que ela pode passar em um certo período de tempo. Isso não é uma internação, a gente chama de uma certa hospitalidade noturna, que é um acolhimento para a pessoa em momentos de maior dificuldade, seja por quais motivos forem, mas que faz parte do projeto terapêutico da pessoa”, exemplifica.

Para conferir a entrevista completa, acesse o link abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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