Durante o governo de Jair Bolsonaro, a destruição da Amazônia bateu recorde. Mesmo com a queda do índice de desmatamento na gestão Lula 3, o bioma ainda sofre com os efeitos da devastação e afeta o clima de todo o país. É o alerta feito por Luciana Gatti, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em conversa com Raquel Setz no BdF Entrevista desta quarta-feira (3).
A especialista evidencia como o próprio desmatamento dentro da Amazônia provoca mais mudanças. “É muito simples quando a gente entende o papel de cada árvore no equilíbrio climático. A árvore atira do solo a água, que está no estado líquido, e joga na atmosfera na forma de vapor”, explica. “Quando a árvore está fazendo esse processo, precisa receber energia na faixa do calor. Então, está roubando calor naquela região onde ela está, resfriando a temperatura.” Gatti compara a derrubada de árvores com desligar “climatizadores, ou ar-condicionado, numa velocidade imensa.”
A cientista destaca que, enquanto eventos climáticos extremos aconteciam mundo afora, o Brasil estava, dentro do possível, bem. Mas o cenário começa a se alterar a partir de 2019, com a chegada da extrema direita ao poder. “A gente teve um governo tremendamente negacionista, um ministro que merecia mais o nome de ser um ministro do desmatamento do que um ministro do meio ambiente. Teve uma aceleração do desmatamento, não só na Amazônia, mas no Brasil inteiro. O Instituto Plana Mata calculou que no ano de 2019, 24 árvores foram cortadas por segundo”, critica.
“A gente viu uma aceleração dos eventos extremos em 2019. O número de mortes por evento extremo de chuva, que antes era em torno de 60, 70, pulou para 300. Até o final do governo Bolsonaro já estava em 500”, enumera. “A gente teve uma enorme aceleração dos eventos extremos do Brasil e uma grande mudança na Amazônia, porque a maior parte das árvores perdidas foi na Amazônia.”
O Inpe desenvolveu um sistema para medir as condições atmosféricas da Amazônia em uma área de 4 milhões de quilômetros quadrados. “Nós temos a medida em 4 pontos, formando um grande quadrante. Quanto mais alto você coleta, maior é a representatividade daquela amostra. Por isso a gente faz com o avião. Ele começa em 4,4 quilômetros de altura. Essas amostras vão para o laboratório do Inpe em São José dos Campos. A gente tem um laboratório de superprecisão de medidas de gás de efeito estufa, o CO2, o metano, o N2O e o CO, o monóxido de carbono”, conta.
A pesquisadora explica que uma floresta saudável absorve mais CO2 do que emite. O gás é usado na fotossíntese. “No lado oeste da Amazônia, que até o governo passado era mais preservado, a gente teve muita liberação para mineração e outras atividades no governo anterior. A partir daí o desmatamento intensificou.”
Com o avanço da destruição, a ala “não está conseguindo neutralizar completamente o que as ações humanas estão emitindo, mas fica perto de neutro”. “Agora, o lado leste, que está mais do que 30% desmatado, está em torno de 35% desmatado, aí as emissões superam em muito a capacidade de absorção da floresta, que inclusive é cada vez menor. O sudeste está tão impactado por desmatamento e degradação que a própria floresta está emitindo mais do que absorvendo. Está mais morrendo a árvore, está mais tendo decomposição do que crescimento”, alerta.
Confira a entrevista completa no link abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
