A extrema direita é atualmente tão atraente para a juventude quanto foi o punk rock. Com essa provocação, começa o episódio desta quinta-feira (18) do BdF Entrevista, que recebe uma figura central do punk paulistano, Clemente Tadeu Nascimento, das bandas Inocentes e Plebe Rude. Na conversa, ele lembra a trajetória de mais de 40 anos no punk rock, as “tretas” com outros roqueiros e a política na cena musical.
Para ele, a provocação inicial faz sentido porque as correntes extremistas “construíram um discurso atrativo para os jovens”. “É um discurso de quebrar as regras, de tudo que está aí, que nós vamos mudar e que você pode ser você mesmo. E o discurso libertário — porque o discurso punk é libertário, é anarquista, mas anarquista de verdade. [Os liberais] Inventaram até uma anomalia que é o anarcocapitalismo, que não existe. Não existe anarquismo e capitalismo juntos, porque um anula o outro. Não é só o fim do Estado que determina o que é anarquista.”
Clemente alerta que toda essa narrativa é uma distorção feita pela extrema direita. “E aí as pessoas não percebem e acham que a direita é legal. Na verdade, é só o discurso. Na verdade, eles não são contra todos ou contra tudo. Eles são a favor só dos ricos”, destaca.
A questão sobre se o punk seria de direita ou de esquerda, segundo Clemente, não permeava o debate quando o movimento surgiu. “Era um posicionamento de vida, de gente que era rejeitada na rua. Não tinha ainda aquele discurso político. No punk, são 50 anos de história. Tem contextos de época e de gerações. A primeira geração punk é uma, a segunda geração punk é outra. Aí que vem o anarquismo, o cabelo moicano, o lance das gravadoras independentes. Essa primeira é de 1976, 1977 com Ramones, The Clash, Sex Pistols”, cita.
Clemente lembra seu começo no movimento e destaca que a galera com quem começou a fazer som e com quem dividia esses gostos musicais eram “os garotos da rua, a molecada que trampava de office boy e que era a base da classe trabalhadora”. “Eles não gostavam do rock que fazia sucesso na época. Estava na moda. Era uma coisa mais progressiva. Era o Led Zeppelin, o Black Sabbath e tal. Não era genial, não era legal, porque era aquele playboy que você não gostava, ele ouvia rock. Você ia no bailinho lá da escola, todo mundo: ‘Nossa, vai sair a música nova do Changes do Black Sabbath para todo mundo dançar lenta no bailinho’. O rock era o pop. E a gente não queria ouvir isso. A gente ouvia umas bandas mais obscuras. A gente ouvia o pub rock, tipo Slade, ouvia Dr. Feelgood, New York Dolls, MC5, que tinha um posicionamento político muito forte, e Made in Brasil”, conta.
O artista se recorda de alguns estigmas, especialmente na imprensa de modo geral, que foram sendo construídos sobre o movimento punk. Um desses episódios foi uma reportagem veiculada pela TV Globo que animalizava o comportamento dos adeptos do movimento, como se fossem pessoas irracionais, perigosas e incontroláveis. E destaca que o punk não é um movimento homogêneo e, até por seu caráter questionador, não pode ser colocado em uma caixinha. “Cada um tem o seu capital cultural histórico. Eu lia, mas tinha cara que nunca leu um livro na vida. Era um cara de rua, gostava do som, de dar uma cachaça e ficar muito louco. ‘Sistema, sistema. O que é o sistema? Não sei.’ Você entende? Tinha esses caras, é claro que tinha, dentro do movimento punk. Não tem essa coisa de: ‘Ah, eu comecei a ouvir punk’ e aí tinha um download direto de consciência. A gente pegava os caras de rua, eram os caras rejeitados pela sociedade. Então tinha de tudo”, relata.
Confira a conversa completa no link abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
