Neoliberais acuados

O espectro do ‘perigoso socialismo’ ronda a geração Z? Historiador e psicanalista comenta

Heribaldo Maia analisa reportagem da revista The Economist e destaca insatisfação dos jovens com a democracia burguesa

Manifestação na Cidade Universitária da USP, em São Paulo, em abril.
Manifestação na Cidade Universitária da USP, em São Paulo, em abril. | Crédito: Adusp

No começo de junho, a revista britânica The Economist dedicou sua capa para falar do “socialismo da geração Z”, acompanhada de um editorial sobre a urgência de se combater as ideias socialistas entre os jovens. A publicação cita o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e suas propostas para congelar aluguéis, abrir armazéns públicos com alimentos baratos e garantir creche para crianças de até cinco anos, como referência de uma “ideologia perigosa” e que deveria ser combatida.

O BdF Entrevista recebe o professor de história e psicanalista Heribaldo Maia para analisar se a atual fase do neoliberalismo está fazendo os jovens se inclinarem para ideias de equidade e distribuição de renda, e por que isso assusta quem está no topo da pirâmide.

Para Maia, uma das explicações possíveis para esse traço característico identificado nos mais jovens é a falta de referencial do passado, ao mesmo tempo em que sofrem os impactos mais severos do neoliberalismo. “A geração Z nasceu numa época em que ninguém tem lembrança de políticas de bem-estar social. Ninguém tem lembranças de políticas progressistas. Mesmo as políticas de inclusão do governo Lula, para essa geração, não são necessariamente algo do presente. Eles até colheram frutos, mas não lembram como foi antes, como era antes. Isso faz com que não se tenha para essa geração necessariamente um parâmetro. Por exemplo, as lutas progressistas na América Latina, a onda rosa na América Latina, as experiências e os impactos das experiências no socialismo real: tudo isso é coisa de um passado muito distante”, avalia.

“Por outro lado, essa geração convive com o capitalismo brutal, feroz, neoliberal, com a ascensão da extrema direita e com as consequências políticas de tudo isso. Ou seja, de mais precarização, do custo de vida das cidades muito alto, de empregos precários e de, às vezes, jovens que têm grandes formações intelectuais, culturais, artísticas, profissionais, mas não conseguem um emprego necessariamente bom na sua área, não conseguem as realizações que no passado, nas gerações anteriores, eram mais possíveis e palatáveis”, explica.

Heribaldo Maia aponta que millennials vivenciaram uma crise na democracia burguesa, das alianças e consensos, que acabou, ao longo do tempo, empurrando os jovens da geração Z para o radicalismo, seja para a esquerda ou para a direita. O historiador avalia que, no Brasil, essa radicalidade jovem tende a ocupar mais os espaços da direita.

“Existe um mito, uma ficção de uma direita moderada, democrática e assim por diante. E também você tem, representando, talvez no petismo, uma esquerda mais centro-esquerda, progressista, que se preocupa com políticas públicas, que faz importantes políticas públicas, mas não é uma esquerda radical. O próprio Lula faz falas dizendo que não é radical. É verdade, ele é um democrata, centro-esquerda. O problema é que esse campo tenta construir a política a partir de mediações de consenso. Mas esse campo entrou em colapso, porque ele já não dá as respostas políticas suficientes para os problemas das pessoas. Então, o fato é que, diante dessa crise da democracia burguesa e dos seus espaços de consenso e de mediação, o jovem se radicaliza. Ele procura respostas radicais”, pondera.

Confira entrevista completa abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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