O dia 2 de julho é celebrado na Bahia. Nesta data, em 1823, o estado deu seu grito de liberdade, estabelecendo a saída definitiva dos portugueses do Brasil meses após a declaração de independência, em 7 de setembro de 1822. O processo não ocorreu por meio de diálogos e acordos com a monarquia portuguesa, e sim com luta armada.
Professor de História da Universidade de São Paulo (USP), João Paulo Pimenta destaca que, naquela época, não havia a formação de uma identidade de país, já que a independência de 1822 tinha acontecido há poucos meses. Tentar vislumbrar uma nacionalidade sob a ótica de hoje em dia redundaria em um anacronismo.
“O estudo do passado é sempre um entendimento dessa diferença e uma aceitação da diversidade humana. Essa é uma das grandes forças do estudo da história. O Brasil, então, não era nada disso que é hoje. O Brasil de hoje estava em construção”, explica.
O professor lembra que não existiam, no sentido estrito da palavra, brasileiros disputando o território, mas, sim, portugueses e portugueses brasileiros. Os embates e divergências de ideias aconteciam por dois partidos: um Partido Brasileiro, que defendia a desvinculação total da Coroa Portuguesa e a liberdade de decidir sobre os rumos da recém-nascida nação, e o Partido Português, que defendia a manutenção dos tradicionais vínculos entre a colônia e a metrópole.
O processo de independência da Bahia, primeira sede do governo português em 1500, foi marcado por embates sangrentos e muita violência, atravessados pela escravidão, e não por um acordo nacional. Pimenta lembra que uma guerra só acontece quando existe “gente favorável a uma coisa, e gente contrária a essa mesma coisa”.
As guerras de independência foram enfrentamentos militares iniciados quase um ano antes e que chegaram ao seu ápice no dia 2 de julho. “É quando Salvador finalmente é tomada pelo exército brasileiro, que não é um exército nacional brasileiro. É um exército que serve aos interesses dos partidários da causa do Brasil. Então, nesse momento, já há uma polarização. Mas essa polarização foi sendo construída anos antes. Tanto é que as guerras de independência aconteceram não só na Bahia, mas no Maranhão, no Piauí, no Pará… É interessante a gente trazer essa ideia de guerra e revelar um pouco essas concepções, porque desmonta um mito de uma certa historiografia oficial de que a independência do Brasil foi um grande acordo, foi um processo pacífico, foi pelo alto. Quando, na verdade, a gente olha para os interesses locais sendo jogados nos territórios, ela foi muito conflitiva”, explica.
O conceito de pacifismo, segundo o historiador, atendia a interesses da elite econômica, interessada em manter a propriedade privada, do grande comércio e da escravidão. “Isso pode ser um elogio, de que o brasileiro não gosta de encrenca, mas pode ser uma acusação. Que o brasileiro faz parte de um povo pacífico, que não se revolta. Essa é uma distorção”, pondera.
João Paulo Pimenta também fala sobre a participação popular, ao esclarecer que, embora tenha havido presença do povo nas lutas, o processo foi “conduzido de cima para baixo”. “Muita gente participou da independência do Brasil porque viu ali possibilidade de resolução de conflitos locais, de seus próprios interesses, de obtenção de liberdade, de melhoria de vida. Mas, no geral, esse foi um processo conduzido de cima para baixo por meio dos interesses convergentes no tocante ao tráfico negreiro e à escravidão. Imagina, essa palavra liberdade, então, para os diferentes grupos sociais que formavam o território, significava milhares de coisas”, afirma.
Confira a entrevista completa no link abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
