O sucesso de produções como “The Last of Us”, “The Walking Dead” e “O conto de Aia” não é apenas uma coincidência estética, mas o reflexo de uma era marcada por crises sobrepostas, na visão da pesquisadora Bruna Della Torre, do Centro de Estudos Apocalípticos e Pós-Apocalípticos da Universidade de Heidelberg.
Se as distopias retratadas em “1984” ou “Admirável Mundo Novo” serviam como alertas contra o autoritarismo, o debate do apocalipse atual, trabalhado à exaustão pela indústria cultural, traz um dimensionamento mais palatável à ideia de fim do mundo.
Para Bruna Della Torre, houve uma mudança na construção do imaginário do que seria essa distopia. “As produções mais recentes são produções em que a gente já vê o apocalipse no mundo neoliberal, do cada um por si. Então, não se trata mais de um Estado que vai tomar conta de tudo”, aponta.
Segundo a pesquisadora, vivemos uma espécie de “preparacionismo psíquico”. “O efeito disso tudo na subjetividade é muito complicado, porque a gente tem toda uma imaginação que acaba sendo moldada por isso. Será que esse conjunto de filmes e de videogames não está produzindo uma espécie de preparacionismo psíquico em massa para a catástrofe que a gente já está enfrentando? Será que a gente não está consumindo essas imagens como uma forma de se acostumar e dessensibilizar diante daquilo que a gente está vivendo e do que a gente está vendo?”, questiona. “Como se a gente estivesse fazendo um bunker mental.”
A reflexão sobre o fim do mundo ganha força porque, segundo a pesquisadora, no cenário atual, a catástrofe não é um evento futuro, mas um modo de funcionamento do sistema. A pandemia da Covid-19, por exemplo, não foi um freio, mas um acelerador de tendências como a digitalização forçada e a precarização do trabalho. Logo após esse período, o avanço das big techs e a chegada da Inteligência Artificial têm provocado profundas mudanças na forma de lidar com o mundo.
O resultado só será mensurável daqui a um tempo. “Já aconteceu a inteligência artificial. As consequências vão ser muito grandes disso para o mundo do trabalho, para o mundo político. E a gente está nesse intervalo entre o que já aconteceu e as consequências disso”, analisa.
Para Della Torre, o capitalismo contemporâneo encontrou uma forma de se sustentar por meio do caos. “A catástrofe no capitalismo, se a gente pensar numa perspectiva da teoria crítica, foi um modo de reprodução do capitalismo no século 20 e um laboratório”, afirma.
Essa “normalização da catástrofe” cria o que a pesquisadora chama de “consciência estacionária”, onde o público consome a destruição fictícia para se sentir aliviado por ainda não estar vivendo o pior cenário possível. “Basta pensar como toda essa imaginação apocalíptica está presente nos discursos de extrema-direita, de conspiracionistas. Muita coisa desses conspiracionistas sai da indústria cultural. O próprio ‘Matrix’ foi completamente reinterpretado pela extrema-direita”, aponta Bruna Della Torre.
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O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
