O lixo é um problema comum a qualquer lugar e, nas grandes cidades, devido ao volume de resíduos, fica ainda mais complexo. Opções incluem aterros sanitários, passando por sistemas de incineração e os processos de reciclagem, que tão bem fariam à sociedade caso superassem a baixa adesão.
São Paulo está avançando na implementação de usinas de incineração de resíduos para geração de energia, processo chamado “Waste-to-Energy“, com a usina URE Barueri prevista para operar em 2027 e outros projetos planejados para bairros periféricos como Perus e São Mateus.
No entanto, o que pode parecer uma solução, em um primeiro momento, interessante — usar aquilo que não serve mais para gerar energia — exige mais aprofundamento devido aos impactos socioambientais. Segundo Vitor Hugo Argentino, coordenador de projetos de resíduos sólidos do Instituto Pólis, a própria nomenclatura do processo é problemática: recuperação energética. “É uma tentativa de greenwashing para incineração, para falar que não é só queimar”, pontua ao BdF Entrevista.
Para o especialista, o modelo simplesmente quebra a lógica da reciclagem ao destruir recursos que deveriam retornar ao ciclo produtivo. Argentino resume dizendo que, no fim, é “queimar tudo” e “pular etapas de uma hierarquia” do ciclo natural das coisas. “É uma tecnologia, basicamente, que vai pegar todos aqueles materiais de valor, o papel, o plástico, o têxtil, às vezes o orgânico ali no meio e outros materiais que pegam fogo, e vai queimar aquilo para converter em calor e, aí, produzir normalmente eletricidade. Toda a nossa lógica que se aprende lá na escola, de reciclagem, de devolver a coisa ao ciclo, papel pode virar papel, o material orgânico pode virar adubo, eles quebram e transformam isso em energia, queimando toda a energia”, explica.
Além do impacto climático, a queima direta de lixo compete com as cooperativas e os catadores, que hoje realizam o trabalho mais expressivo de reciclagem nas cidades. Os fornos de incineração dependem de materiais de alto poder calorífico, como plásticos e papéis, que constituem a base da renda desses trabalhadores. “Claramente, ele é uma competição”, alerta Argentino. Ele destaca a assimetria do modelo, no qual concessionárias privadas garantem contratos públicos lucrativos de 20 a 30 anos com cotas mínimas de envio de resíduos, enquanto os catadores sobrevivem com acordos anuais precarizados, mesmo sendo responsáveis por coletar, de forma autônoma, até dez vezes mais materiais do que a coleta seletiva oficial da prefeitura.
A escolha geográfica de onde instalar as usinas revela também uma marca de racismo ambiental, expondo populações periféricas a poluentes orgânicos persistentes e cancerígenos, como dioxinas e furanos, que se acumulam no meio ambiente e na cadeia alimentar. “Se fosse bom, faziam no Ibirapuera. Mas estão fazendo sempre em Perus, São Mateus”, aponta o coordenador, traçando um paralelo com os Estados Unidos, onde 80% dos incineradores também estão em bairros de baixa renda ou de populações minoritárias. Ele reforça que, mesmo em países europeus desenvolvidos, com sistemas de monitoramento modernos, o controle ambiental falha em conter a contaminação crônica no entorno dessas estruturas.
Por fim, Victor Hugo Argentino aponta que nem mesmo financeiramente o processo compensa: a incineração custa de três a dez vezes mais do que soluções de reciclagem e compostagem, pesando no orçamento público e encarecendo as taxas de lixo e as contas de energia dos cidadãos. “A incineradora é uma termoelétrica, então tem um impacto de subida de custo da energia”, aponta.
Em vez de precarizar a gestão pública para justificar a queima emergencial, Argentino defende que São Paulo deveria se espelhar em modelos nacionais bem-sucedidos de gestão integrada e valorização dos catadores, como os de Florianópolis e Brasília. Para ele, o debate sobre a incineração no país só fará sentido “se a gente avançar com as prioridades, a reciclagem e compostagem, e que a gente construa essas salvaguardas socioeconômicas para que isso não aconteça”.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
