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Trump assinou seu atestado de óbito político ao escalar guerra contra o Irã, diz analista

Cientistas políticos analisam primeiros dias do conflito, resistência iraniana e a fragilidade da posição de Washington em meio a divisões internas

Donald Trump ao telefone
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala ao telefone em seu gabinete | Crédito: Divulgação/The White House

O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã ganhou um novo capítulo nos últimos dias com os ataques coordenados que resultaram na morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e de dezenas de outras lideranças. A retaliação iraniana surpreendeu Donald Trump e embaralhou ainda mais o cenário internacional.

“O Trump assinou seu atestado de óbito político ao iniciar essa guerra”, afirma Marco Fernandes, analista internacional e editor da revista Wenhua. “Ele se elegeu com a plataforma ‘no more wars’ – não mais guerras – e agora mergulha o país num conflito de proporções gigantescas, justamente no ano em que enfrentará eleições de meio de mandato”, acrescentou ao videocast O Estrangeiro, da Rádio Brasil de Fato.

Por sua vez, Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, trouxe destaque ao equívoco fundamental da estratégia dos EUA. “Os Estados Unidos apostaram que, com a morte de Khamenei e de outras lideranças, as ruas iranianas – que haviam protestado contra a economia e o sistema político – conseguiriam botar o país em chamas e derrubar o governo. Não foi o que vimos.”

Pelo contrário, milhares de iranianos foram às ruas lamentar o assassinato do líder e clamar por resistência. “A população iraniana, mesmo aqueles que têm críticas ao regime, é ainda mais anti-imperialista. Existe um ethos revolucionário que se concretizou em 1979 e vai além da estrutura religiosa”, explica.

Fernandes aponta que os Estados Unidos subestimaram a capacidade de resistência iraniana e o papel do martírio na cultura xiita. “Uma autoridade iraniana contou que tentaram esconder Khamenei num bunker, mas ele disse: ‘Se tiver lugar para 90 milhões de iranianos, eu vou. Se não tiver, eu fico. Me recuso a ter esse tipo de privilégio’. Ele morreu no seu escritório, esperando que isso pudesse acontecer.”

E complementa: “Quando houve a Guerra dos 12 dias, muitos jovens universitários com críticas à República Islâmica vieram a público dizer: ‘Eu estava errado. Não dá para confiar nos sionistas, não dá para fazer acordo com os imperialistas. Temos que nos unir para defender a soberania do nosso país’.”

Na mesma linha, Rodrigo Amaral reitera que a guerra é extremamente impopular nos Estados Unidos. “Uma pesquisa da Reuters mostra que apenas um a cada quatro estadunidenses apoia os bombardeios. Ou seja, 75% são contra. Num contexto em que Trump já é mal visto por boa parte da sociedade, isso é um custo político altíssimo.”

os analistas reforçam ainda que os Estados Unidos não têm mais capacidade industrial para sustentar uma guerra prolongada. “O think tank sionista DIMZA publicou que, na Guerra dos 12 dias, os EUA gastaram 25% do seu arsenal do sistema THAAD. Vai levar dois ou três anos para repor. E agora, com esse conflito, a situação é ainda pior”, pontua Marco Fernandes.

A estratégia iraniana: desgaste econômico e político

Segundo os analistas, o Irã está numa primeira fase de gastar milhares de drones e mísseis mais antigos para forçar Israel e os Estados Unidos a usarem seus caros sistemas de defesa. O Catar já disse que tem apenas mais três ou quatro dias de capacidade de defesa. O mesmo vale para o Kuwait e a Arábia Saudita.

Já a segunda fase será com mísseis mais sofisticados, inclusive hipersônicos, para os quais nem os Estados Unidos têm defesa. “Quando isso começar a acontecer, o prejuízo para os EUA vai ser muito maior, e a conta do Trump vai ficar muito mais cara em Washington”, afirma Fernandes.

Além dos ataques diretos, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial, e atingiu refinarias na Arábia Saudita e a maior planta de gás do Catar. “Isso já está causando um efeito inflacionário. O gás na Inglaterra já subiu 100%. E os Estados Unidos já estão sofrendo com inflação por conta das tarifas do Trump”, alerta Fernandes.

China e Rússia: o apoio silencioso que pode mudar o jogo

Fernandes afirma que Pequim já está atuando em apoio a Teerã. “A China estacionou o navio ‘Oceano I’, seu mais avançado navio sonar, na costa do Irã, fazendo todo o mapeamento marítimo e submarino da região. Também enviou radares de última geração capazes de detectar aeronaves furtivas como o F-35.”

Além disso, o analista lembra que a Rússia tem mais de 600 engenheiros nucleares trabalhando no programa nuclear iraniano e está finalizando duas usinas no país. “Rússia e China não podem perder o Irã. O que está em jogo não é só a sobrevivência da República Islâmica, mas o futuro dos BRICS, da multipolaridade e do Sul Global. Se a gente perder o Irã, vai ser uma derrota gigantesca para todas as forças anti-imperialistas.”

De forma resumida, para os analistas s Estados Unidos apostaram todas as fichas numa guerra que se mostrou muito mais custosa do que imaginavam. O Irã tem uma estratégia clara de desgaste, enquanto os EUA não sabem nem justificar seus objetivos direito. O secretário de defesa fala uma coisa, Trump desmente.

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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