Meio século se passou desde o último e mais sangrento golpe militar da história argentina, mas as feridas permanecem abertas. Nesta semana em que se completam 50 anos do início da ditadura civil-militar de 1976, o clima nas ruas da capital não era apenas de lembrança, mas de alerta. Em um contexto de ofensiva negacionista promovida pelo governo do ultraliberal Javier Milei, centenas de milhares de argentinos voltaram a ocupar a Plaza de Mayo e os arredores do Congresso para dizer: “Nunca mais”.
O episódio histórico, que durou oito anos e deixou 30 mil desaparecidos segundo os organismos de direitos humanos, tem sido alvo de uma sistemática tentativa de revisionismo por parte do atual governo. Em meio a uma política de ajuste brutal e ao desmonte das políticas de memória, a mobilização massiva que tomou as ruas no último dia 24 de março representou um duro revés ao projeto de silenciamento promovido pelo mandatário de extrema direita.
Ao podcast O Estrangeiro, da Rádio Brasil de Fato, a jornalista correspondente Amanda Cotrim, que cobre a Argentina há anos, descreveu o dia como “emocionante e revigorante”. Mais do que um ato de recordação, a marcha foi uma resposta contundente às investidas do governo Milei contra a verdade histórica.
“Desde o começo, você via as estações de metrô lotadas, os trens demorando além do normal. Era um termômetro da quantidade de pessoas que vieram não só da capital, mas também da província”, relatou Cotrim. “Foi uma marcha diversa, com muitas crianças, jovens e idosos. Vi a Brenda, de 25 anos, levando sua avó Francesca, de 94 anos, em uma cadeira de rodas. Ela arrumava o lencinho da avó, o mesmo que faz referência ao das Abuelas de la Plaza de Mayo. A alegria de dona Francesca era contagiante; ela fazia questão de estar ali.”
Essa presença de múltiplas gerações, segundo analistas, é um símbolo poderoso contra a tentativa do governo de desidratar a luta pelos direitos humanos. O correspondente Gabriel Vera Lopes, que também esteve na marcha, enfatizou que a memória na Argentina não é um tema restrito à esquerda, mas uma “bandeira da sociedade”.
“O projeto de reconstrução de um tipo de normalidade capitalista na Argentina precisa derrubar essa memória histórica”, analisa Lopes. “Desde o primeiro ano, o governo de Milei fala em construir uma ‘memória completa’, tentando equiparar a ação criminosa do Estado com a luta dos movimentos populares. A massividade de ontem foi uma resposta a isso. Havia cartazes irônicos perguntando: ‘Vamos falar de memória completa? Onde estão todos os bebês que vocês roubaram?’”.
O Revisionismo como Política de Estado
A ofensiva do governo não se limita a declarações polêmicas. No dia 24 de março, data em que tradicionalmente se condena o golpe, Milei lançou um filme intitulado “Argentina Paralela”, que tenta reescrever o período. A peça, descrita por críticos como uma “apologia ao negacionismo”, utiliza uma estética de blockbuster para questionar as cifras de desaparecidos e sugerir que a “memória” do país foi “politizada” pelos governos kirchneristas.
Mais grave, segundo Amanda Cotrim, é o ataque institucional. O governo retirou verbas de espaços de memória fundamentais, como a Esma (Escola Superior de Mecânica da Armada), que funcionou como o maior centro clandestino de detenção, tortura e extermínio do país. “No final do ano passado, as Abuelas de la Plaza de Mayo divulgaram um dossiê enumerando as políticas sitiadas: falta de orçamento, pessoal demitido, paralisação de investigações”, detalha Cotrim.
“A vice-presidente, Victoria Villarruel, que é de uma família de militares, tem um discurso institucional que não nega a ditadura, mas questiona ‘a história que é contada’”, continua a jornalista. “Eles falam em ouvir ‘os dois lados’, equiparando um regime estatal com todo o aparato de inteligência à resistência popular. Eles questionam as cifras, falam em 8.961 desaparecidos, contra os 30 mil reivindicados pelas organizações.”
A luta por números, no entanto, vai além de uma disputa estatística. O correspondente Gabriel Vera Lopes destaca que o Estado argentino ainda tem a responsabilidade de esclarecer o destino dos corpos. “60% dos desaparecidos eram trabalhadores de fábricas, muitos sem relação com organizações armadas. O plano da ditadura foi destruir a capacidade de luta da classe trabalhadora. Quem tem que dar resposta sobre quantos foram e onde estão os corpos é o Estado argentino, que mantém os arquivos nas mãos dos militares até hoje.”
O Fio Condutor Econômico: Da Ditadura a Milei
Um dos pontos centrais da análise progressista sobre o período é a natureza econômica da repressão. Assim como na ditadura de 1976, o governo Milei aplica um programa de ajuste severo que, segundo dados históricos, guarda semelhanças chocantes com o primeiro ano do regime militar.
Em 1976, no primeiro ano do golpe, o salário real caiu 40%, o número de horas necessárias para comprar uma cesta básica saltou de 6 para 18, e o consumo de alimentos despencou 40%. Esses dados, documentados pelo jornalista Rodolfo Walsh em sua célebre “Carta da Junta Militar” (publicada em 1977, um dia antes de ser assassinado), ecoam no presente.
Sob Milei, a inflação anual caiu de 250% para 31%, mas o custo foi a recessão. Amanda Cotrim explica a contradição: “Os preços continuam subindo (cerca de 3% ao mês), mas os salários estão estagnados. As aposentadorias perderam valor porque não há ajuste. O governo retirou subsídios de transporte, gás e energia. As consultorias apontam uma perda de poder aquisitivo de pelo menos 13%, e os sindicatos falam em 40% para o funcionalismo público.”
Gabriel Vera Lopes conecta essa agenda ao legado da ditadura. “O jeito em que o neoliberalismo foi aplicado na América Latina foi com as ditaduras militares. Martínez de Hoz, ministro da Economia da ditadura, dizia que ‘achicar o Estado é engrandecer a nação’. É a mesma lógica de Milei. A diferença é que hoje o governo faz isso reivindicando abertamente esse passado, algo que nem Macri fez com tanta força. A ditadura deixou como legado a dívida externa e a destruição da capacidade organizativa da classe trabalhadora.”
A Operação Condor e a Solidariedade Regional
A data também resgata a memória da Operação Condor, o plano de coordenação repressiva entre as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia) com o apoio dos Estados Unidos. A jornalista Amanda Cotrim lembrou que os 50 anos do golpe argentino coincidem com o mesmo marco temporal da aliança repressiva.
“A Operação Condor serviu para sequestrar, torturar e assassinar opositores em toda a região. Recentemente, foi comprovado que o pianista Tenório Jr., que trabalhava com Vinícius de Moraes e Toquinho, foi assassinado pela ditadura argentina. Ele desapareceu em 1976 e só teve sua identidade reconhecida no ano passado. Ele não tinha militância; tinha barba e era artista. Era suficiente para ser considerado suspeito”, relatou Cotrim.
A cooperação entre os regimes militares, que incluía o treinamento conjunto de agentes na Escola das Américas (Panamá) e a aplicação de métodos de tortura aprendidos com os franceses na Guerra da Argélia, serviu para sufocar qualquer movimento de resistência no continente.
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.
