O assessor da presidência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para assuntos internacionais, João Miguel Estevão, destacou que a cooperação em saúde global se tornou a prioridade número um do Brics durante a 1ª Conferência dos Institutos Nacionais de Saúde Pública (INSP), realizada neste mês, no Rio de Janeiro. O evento reuniu representantes dos 11 países do bloco e resultou em um consenso considerado histórico.
“Chegamos ao ótimo”, afirmou Estevão, que atuou como relator geral da conferência, ao Repórter SUS, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, o encontro buscou “traduzir decisões políticas num ambiente desafiador, num contexto internacional mais desafiador ainda, de modo a conseguir fazer com que as nossas populações realmente vejam efetividade de todo esse esforço político, diplomático e técnico”.
A conferência marcou a primeira participação do Brics em sua composição ampliada, que agora reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O desafio, segundo Estevão, foi transformar a diversidade cultural, política e econômica em cooperação prática. “Fazer não só o movimento político de unir esses países, mas sair daqui da conferência com coisas concretas”, explicou.
Entre os pontos acordados, estiveram a prevenção, preparação e resposta a emergências sanitárias, o fortalecimento dos sistemas de saúde, a luta contra a fome e a pobreza e a relação entre mudanças climáticas e saúde no Sul Global. “Trazer para a agenda combate à fome e à pobreza em parceria com o Ministério da Saúde e o Ministério das Relações Exteriores foi realmente muito bacana. Muito mais legal ainda foi ver a recepção dos países para essa temática”, disse.
Resultados práticos
Segundo o relator, um dos principais frutos do encontro foi a criação da rede permanente dos INSP do Brics, que passará a se reunir periodicamente para definir planos de ação conjuntos. “A conferência foi um grande e muito bem-sucedido primeiro passo”, avaliou. Para Estevão, o peso dado ao tema foi inédito. “Foi a primeira vez a cooperação em saúde global foi a primeira linha de prioridade do Brasil no Brics”, apontou.
Ele ressaltou ainda a integração da agenda com o G20 e com a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que terá um dia dedicado à saúde. “Isso já é um baita resultado prático porque desfragmentamos esses esforços e conseguimos trabalhar de maneira muito mais integrada e unida”, celebrou.
Para o assessor da Fiocruz, a solidariedade coletiva foi o grande diferencial da reunião. “Eu tive a sensação e até retorno de delegados dos países falando que valeu a pena vir aqui. Vamos continuar em contato, fazer isso acontecer, não vamos deixar isso morrer. Foi realmente muito feliz esse sentimento”, relatou.
SUS como inspiração
Questionado sobre a possibilidade de universalizar a experiência brasileira em outros países, Estevão reconheceu que replicar o modelo do Sistema Único de Saúde (SUS) seria inviável, mas defendeu a adaptação dos seus princípios fundamentais.
“Eu não acho que seja utopia. Levar, copiar e colar um sistema único de saúde é muito pouco provável, mas pautar os princípios norteadores, as motivações e fazer uma espécie de adaptação às especificidades locais, olhando por essa lógica de saúde coletiva, participação social e democracia sanitária, eu acho que é possível, sim”, observou.
Este episódio encerra a série especial do Repórter SUS sobre a saúde pública no Brics. O podcast é uma parceria entre o Brasil de Fato e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz. Novos programas são lançados toda semana. Ouça aqui os episódios anteriores.
