Abrindo portas

Cantor Gabeu desafia o sertanejo tradicional e cria novos caminhos para artistas LGBT+

Filho de Solimões, da dupla Rio Negro & Solimões, Gabeu tornou-se referência no pocnejo

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Filho de Solimões, da dupla Rio Negro & Solimões, Gabeu se tornou um dos nomes mais expressivos do pocnejo | Crédito: Divulgação

Quando Gabeu lançou “Amor Rural”, sua primeira composição, não imaginava que estava abrindo uma nova porta na música brasileira. “É a primeira e é a maior também, né? Tipo, eu já comecei assim, chutando a porteira”, lembra. O cantor e compositor, filho de Solimões — da dupla Rio Negro & Solimões —, tornou-se um dos nomes mais expressivos do pocnejo, movimento que mistura a tradição sertaneja com temáticas LGBT+. 

No episódio 81 do Sabe Som?, apresentado por Thiago França, Gabeu falou sobre a trajetória, a criação de um sertanejo queer e os desafios de romper com padrões do gênero, marcado por machismo e conservadorismo. No papo, ele também costura memórias da infância no interior, influências da cultura pop e apagamento cultural e política no sertanejo contemporâneo.

Gabeu acredita que a presença dele e de artistas do sertanejo queer, como Gali Galó e Reddy Allo, desafiam fronteiras estéticas e sociais, propondo novas possibilidades de identificação para quem sempre amou o gênero, mas não se via representado. “Eu acho que o nosso trabalho tem uma missão assim de tentar puxar pessoas que musicalmente conseguem se conectar com o sertanejo de alguma forma, mas enfrentam isso que eu falei, de não se identificar com as figuras. Para que essas pessoas possam olhar para os artistas e falarem: “Ó, se parece comigo”. 

Da roça ao pop

Crescido entre Franca (SP) e Claraval (MG), Gabeu carrega memórias vivas do interior. “Fim de semana eu estava na roça, na chácara da minha vó, com os meus primos, com as minhas primas, escorregando no barranco em cima de um papelão, andando de charrete na cidadezinha”, conta.

A música sertaneja fazia parte do cotidiano familiar, mas a adolescência trouxe um sentimento de deslocamento. “Rolava essa dificuldade minha de olhar e pensar que eu poderia fazer a mesma coisa que eles estavam fazendo. Por uma falta de referência mesmo, não tinha uma pessoa como eu fazendo.”

Como muitos adolescentes LGBT+ do interior, ele conta que encontrou acolhimento em outra paisagem sonora. “Eu acho que a gente busca um refúgio na cultura pop, na música pop, porque parece mais convidativo, abraça mais”, explica. 

Foi em São Paulo, em meio à efervescência artística da cena independente, que ele se perguntou se não poderia “fazer uma coisa parecida buscando as minhas raízes”. O insight foi direto. “E se eu fizesse um sertanejo que fosse abertamente, escancaradamente queer, sabe? Que fosse assim, falando sobre dois caras no meio do mato. E aí surgiu o amor rural”, conta.

Disrupção e resistência

O caminho aberto por Gabeu não foi simples. Os espaços sertanejos tradicionais, como festas de peão e casas de show, ainda oferecem barreiras. “Hoje eu faço sertanejo fora do sertanejo. Eu faço sertanejo para um público que é consumidor de cultura pop, assim como eu, que é fã de diva pop, que é uma galera que tá indo nas baladas pop de São Paulo”, afirma. 

Isso, no entanto, não impede que sua música ocupe territórios inesperados. “Cabe num rolê de funk no Capão Redondo, cabe num rolê independente no centro de São Paulo. E eu acho que isso é muito bom”, ressalta o artista.

Entretanto, ele narra que o machismo estrutural presente na cultura caipira foi uma das razões que o afastaram do gênero na juventude. “Eu acho que na cultura caipira, assim, tem muitas coisas que reforçam um estereótipo de masculinidade… Eu acho que isso já é, de uma maneira muito sutil, talvez, uma forma de ir trabalhando a masculinidade nesses meninos.”

Além dos estigmas de gênero e sexualidade, Thiago França ressalta como o gênero está fortemente ligado ao agronegócio e a setores políticos conservadores, como a direita e a extrema direita. Para Gabeu, essa associação tem consequências diretas: “Essas coisas ideológicas também afastam, afastaram muitas pessoas LGBT+, e afastaram muitas pessoas pretas”.

Processo criativo fora da curva

Apesar de não tocar violão, Gabeu acredita que isso também virou parte da estética. “Eu já sou todo errado mesmo, já sou todo fora da curva, eu já tô fazendo tudo que não esperam que eu faça, então vou fazer diferente mesmo, vou por outro caminho.” 

Suas composições nascem de processos pouco lineares, muitas vezes eletrônicos. “Algumas músicas surgem em melodia primeiro, é, outras, eu tenho uma frase que fica martelando na minha cabeça um tempo, aí eu falo: ‘Eu vou ter que anotar isso, porque essa frase não sai da minha cabeça’”, conta. 

Ao mesclar música pop, viola, drag, estética emo e histórias queer, ele amplia as fronteiras do gênero. “Às vezes eu uso um type beat, vou lá na internet digito um beat country com pop, um beat country com trap… construo a minha demo, levo para um produtor e falo: ‘Agora você faz isso com qualidade de estúdio, porque eu fiz com a qualidade do meu quarto’”, explica.

No primeiro disco, por exemplo, AgroPOC, lançado em 2021, Gabeu criou uma rádio fictícia para conduzir a experiência sonora. O álbum rendeu uma indicação ao Grammy no ano seguinte, um feito raro para um artista independente LGBT+ no sertanejo. “Foi uma loucura, uma indicação ao Grammy assim com o primeiro álbum, né? E foi uma coisa que a gente não estava esperando nem um pouco”, relembra o artista, que acredita que sua trajetória mostra que abrir caminhos também significa criar comunidade.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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