Arte preta

‘Sempre quis fazer o rap da Paraíba’, afirma Bixarte sobre suas composições musicais

Cantora destaca sua trajetória e a importância da diversidade étnica e de gênero no meio artístico

Bianca Manicongo, conhecida como Bixarte, fala sobre a importância das obras de músicos negros no cenário artístico
Bianca Manicongo, conhecida como Bixarte, fala sobre a importância das obras de músicos negros no cenário artístico | Crédito: João Arraes

“Tudo que foi feito por mãos negras dentro da música é de uma excelência absurda”, destaca Bianca Manicongo, rapper e compositora popularmente conhecida como Bixarte, ao falar sobre a importância das obras e da presença de músicos negros no cenário artístico brasileiro. Para ela, o reconhecimento não vem apenas pelas qualidades e talentos individuais, mas também como gesto de manifesto e posicionamento — social e político. É nesse contexto que reforça: “sempre quis fazer o rap da Paraíba!”.

Em bate-papo com Thiago França, no episódio 84 do SabeSom?, podcast musical do Brasil de Fato, Bixarte relembrou sua trajetória no meio artístico e as conquistas acumuladas em pouco mais de oito anos de carreira.

“Eu comecei nas batalhas de rap”, conta a artista sobre os primeiros passos no mundo da música, em um cenário que, apesar de ser formado majoritariamente por pessoas periféricas e de classes populares, ainda é marcado pela presença masculina. “Era um processo que só tinham homens batalhando e falando muita merda. Aí eu comecei a batalhar porque não via meninas como eu batalhando.”

A cantora paraibana afirma que, mesmo atuando em um gênero mais popular na região Sudeste, carrega consigo toda a herança, bagagem e inspiração das músicas e composições nordestinas. “Trago as referências do que eu ouvi na minha adolescência, nas noites da Paraíba, nas noites de João Pessoa, que é muito diferente das noites de São Paulo e Rio de Janeiro”, revela a compositora.

Pouco mais de um ano após o lançamento do disco Traviarcado, Bixarte comenta não apenas sobre o primeiro álbum de estúdio, mas também sobre trabalhos anteriores, singles, parcerias, projetos e pretensões futuras. Ela ressalta que sempre almejou iluminar “a arte da periferia, a arte urbana, a arte preta dos tambores. Eu acho que uma grande diferença nossa é fazer rap com Macumba”, salienta.

Além das questões sociais em torno de classe e regionalidade, Bixarte também destaca a importância da representatividade trans no meio musical — e como usa a arte como ferramenta de posicionamento. “O que eu fiz no Traviarcado foi trazer ainda essa arte política, mas de uma forma mais suave, porque o meu corpo já é político. Eu sendo uma travesti paraibana falando de amor, isso é muito político.”

‘As Erikas dentro da política são maravilhosas’

Se não bastasse a luta da população negra e nordestina para se destacar e progredir no Brasil, essa batalha se intensifica ainda mais para pessoas que integram o espectro LGBTQIA+. Segundo Bixarte, a representatividade em cargos públicos é fundamental. Ela enfatiza que “as Erikas dentro da política são maravilhosas!”, citando a deputada federal Erika Hilton como exemplo de como a presença de mulheres trans no parlamento fortalece toda uma comunidade.

Mesmo em um governo de orientação progressista, a realidade ainda está longe de ser ideal para quem levanta bandeiras anticonservadoras. Nesse cenário, a artista reforça o esforço diário para “ter acesso ao que a branquitude sempre teve” e afirma usar sua música para transmitir seus ideais. “Não vão ouvir o meu disco porque sou uma mulher trans, vão ouvir porque o disco é bom!”, destaca.

O disco Traviarcado já ultrapassa um milhão e meio de reproduções nas principais plataformas de streaming. Apesar de se posicionar contra “o mercado que está sempre querendo que a gente faça algo para hitar”, Bixarte vem ampliando sua base de fãs — e, com isso, fazendo com que seus ideais cheguem a um público cada vez maior.

Traviarcado vem quando eu começo a pesquisar sobre Xica Manicongo, que é a percussora do que hoje a Erika Hilton executa, que hoje a Liniker executa, que eu executo. Esse Traviarcado que as pessoas trans públicas estão executando nos espaços de poder, iniciado lá em Salvador.”

A cantora também relaciona seu trabalho à sua religiosidade. “Gosto de fazer a minha música atrelada à minha fé”, afirma. Na última sexta-feira (24), ela lançou seu novo single, Tentação, que, assim como suas outras obras, carrega muita energia e entrega um pouco do que vem por aí. Segundo Bixarte, o novo disco “pode não ser o disco com maior investimento possível, mas é o disco dos meus sonhos!”

Editado por: Luís Indriunas

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