Sabe Som?

‘Eu vivo de ser fã profissional’, define Marcus Preto sobre o ofício de produtor musical

De jornalismo à música, produtor revisita sua trajetória e relembra como foi trabalhar com ícones do MPB

Marcus preto, produtor e jornalista
Marcus preto, produtor e jornalista | Crédito: Divulgação

“Música é um negócio muito sedutor”, destaca Marcus Preto, produtor musical e jornalista de formação, enquanto relata como fez do encantamento pelo que ouvia um projeto de vida. Do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, ele levou sua escuta atenta para os estúdios, tornando-se produtor e diretor artístico de nomes como Gal Costa, Erasmo Carlos, Tom Zé e Marisa Monte, podendo assim afirmar que “eu vivo de ser fã profissional.”

No episódio 85 do podcast Sabe Som?, Preto conversa com Thiago França sobre as transições entre o jornalismo e a música, o fim do espaço para crítica cultural e a ética de quem vive o ofício com devoção. “Meu trabalho é achar o melhor do artista, não o caminho mais fácil”, afirma.

Mesmo já tendo trabalhado com nomes gigantes da música popular brasileira, o compositor revela que a produção de cada disco é tido como um desafio novo, principalmente pelo fato de não existir um roteiro ou script com o passo a passo do que deve ser feito, e que todo o projeto depende muito das características de cada artista.

“Tem uns discos que eu absolutamente amo, mas tem uns que eu falo “cara, não rolou” […] Você sabe como um disco começa, mas não sabe como termina. Não é um caminho reto nunca.”

A trajetória do produtor se confunde com a história recente da música brasileira. Ele relembra o período em que trabalhava como repórter e editor cultural, tentando abrir espaço para novos nomes. “Meu trabalho era procurar brecha para colocar quem eu acreditava”, conta. “O jornalismo cultural foi uma das primeiras peças a cair da roda.”

Especificamente sobre sua formação acadêmica, Preto enfatiza sobre um fenômeno nada agradável a qual a profissão vem passando, onde a música já esteve e também foi vítima.

“Eu dou muito valor a quem ainda faz (jornalismo) e quem ainda consegue puxar esse bonde […] Aconteceu com o jornalismo o mesmo que aconteceu com a música, começaram a piratear jornalistas, e logo em seguida começaram a surgir os influenciadores!”

Foi no estúdio, no entanto, que ele encontrou uma nova forma de contar histórias. O produtor se tornou parceiro de artistas consagrados, sempre com uma escuta que, segundo ele, precisa ser generosa. “Música é uma sereia: linda, mas pode te matar. Quem tá ali vai ficando deslumbrado com tanta beleza. […] Então é tentar ficar esperto e não deixar as pessoas serem seduzidas pela própria musicalidade.”

Da arte de escrever à arte de ouvir

Além dos riscos dessa “musicalidade assassina”, como Preto ilustra, o meio musical carrega consigo outras ameaças, principalmente quando a arte, além de compreendida como manifestação cultural, também é profissão e fonte de renda, vez ou outra mal interpretada por fãs e adeptos mais tradicionalistas.

A virada de chave aconteceu quando assumiu a produção de Tom Zé após o episódio do comercial da Coca-Cola, que havia rendido uma onda de críticas ao cantor. “Pegamos as ofensas e devolvemos em forma de arte”, relembra. E cita Caetano Veloso: “Se a Coca-Cola não pode dar dinheiro pro Tom Zé, pra que serve a Coca-Cola?”

Entre as lembranças, Preto também fala de sua relação com Gal Costa. “O Caetano fez o Recanto e recolocou a Gal como farol. E ela seguiu sendo farol até o último dia.” O respeito ao legado da cantora é parte do que ele chama de missão. “A gente tem que fabricar mais pessoas mitológicas.”

Com a leveza de quem fala de amigos e ídolos ao mesmo tempo, Marcus Preto reflete sobre o tempo, o mercado e o sentido de continuar. “Se o que você tem pra dizer cabe em dez minutos, é um álbum”, provoca. “Melhor fazer música ruim do que não fazer música.”

Embora outros gêneros eventualmente ganhem mais destaque no cenário nacional, o compositor sublinha sobre a importância da música popular brasileira na história do país e que “esses legados não podem nunca ser abandonados.”

Ainda que o MPB não figure mais como o estilo musical mais escutado no Brasil atualmente, segundo indicadores o gênero “cresceu 64% entre ouvintes de até trinta anos” como evidencia o produtor, enquanto comemora reforçando que “eu sou apaixonada por essas pessoas!”

Editado por: Nathallia Fonseca

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