“A ideia é fazer disco, lançar vinil e fazer turnê”. É dessa forma que Júlio Cavalcante, vocalista e guitarrista da banda de rock psicodélico Bike, da sua rotina como músico, e sobre o posicionamento, não só dele, mas também de seus colegas de banda, frente a escolha de lançar álbuns não apenas através das plataformas e portais digitais, mas também por meio do consagrado vinil.
Em bate papo descontraído com Thiago França, no episódio 86 do podcast Sabe Som?, Júlio fez questão de problematizar a dependência que os artistas têm com relação às plataformas, visto que hoje em dia o maior e principal modo de se consumir música e viver dessa arte é através do meio digital com os sites, portais online e aplicativos de streaming de música.
Pouco mais de um mês após o lançamento do disco Noise Meditations, sexto disco da banda, o vocalista revela que as produções são sempre muito livres e que “a única regra que a gente segue é que tem que caber no vinil, tem que ter no máximo 40 minutos”, visto a limitação do formato.
Mesmo com a limitação em questão, Júlio salienta o modo como “o disco fica mais fiel”, referindo-se a sonoridade musical, e como “o vinil é mais vivo e tem uma presença maior”, enquanto ouvir a música pelos aplicativos de streaming “dá uma engasgada”, principalmente pelo fato de que apesar do disco ter dois lados, as faixas percorrem de maneira fluída e contínua, enquanto no meio digital existem pontos de cortes fortemente marcados e delimitados, comprometendo a experiência de se ouvir o disco num todo.
Há cerca de dez anos compondo, produzindo, e viajando com os discos Brasil à fora, o músico revela que existem grandes mudanças dos primeiros trabalhos do Bike para os mais recentes, e como parte desse amadurecimento também tem relação com as apresentações ao vivo do quarteto psicodélico.
“Geralmente a gente toca o que acabamos de lançar. A sensação da gente ouvindo o nosso primeiro disco hoje em dia, é de que estamos ouvindo o som de outra banda!”, diverte-se.
Pé na estrada: amplificadores e motores ligados
Ainda que viver da arte no Brasil seja uma tarefa extremamente complicada, principalmente após uma pandemia que, infelizmente, favoreceu muito para que a “cena alternativa de rock rodasse muito menos pelo Brasil”, o Bike resistiu ao caótico período pandêmico e ultraconservador, e segue com agenda cheia e com projetos para o futuro da banda.
Apesar dos seis discos de estúdio e mais 20 trabalhos isolados dentre singles e EPs ao longo dos dez anos de existência, a pandemia do Covid-19 representou o maior intervalo da banda sem lançar um disco completo. Segundo Júlio, esse período “atrapalhou muito o circuito musical mais independente.”
De acordo com o guitarrista, os reflexos deixados por este triste período que assolou, não só o Brasil, mas o mundo inteiro, ainda deixa marcas no cenário musical underground, principalmente pelo fato de que determinados festivais e eventos que serviam para catapultar e ajudar artistas menores a terem oportunidade de dar seus primeiros passos, foram deixando de existir.
“O Bananada, que levava bastante banda alternativa, já não rola há muito tempo, o Psicodália mesmo, acho que teve uma edição no ano passado, mas esse ano já não teve, e somente o Morrostock está voltando. Então creio que a pandemia atrapalhou um pouco esse circuito mais autônomo.”
Contudo, mesmo com os revezes, Júlio salienta que o grupo segue com projetos para o próximo ano, que inclui o lançamento de um novo disco e, por consequência, a extensão da rota de estrada da banda, que segue agitada.
“Fizemos alguns shows aqui em São Paulo testando disco e agora que a gente tem mais shows na agenda. Tocamos em Brasília neste último fim de semana, amanhã vamos para Campina Grande, e depois para Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, e em novembro temos alguns shows em Santa Catarina e no Paraná. A gente acaba sempre circulando por todas essas cidades sempre que lançamos um disco!”
Júlio encerra o bate papo reforçando sobre sua projeção musical futura, sua rotina junto a de seus demais colegas de banda. “Todos temos outros trampos, mas o Bike acaba sempre sendo o projeto musical principal de cada um de nós.”
