Da roda à rua

Pagoterapia revisita suas origens e reforça a centralidade do samba no país

No Sabe Som?, grupo paulista reflete sobre o papel cultural que o gênero exerce na identidade brasileira

grupo pagoterapia
Pagoterapia defende renovação do samba e destaca papel da rua na criação | Crédito: Divulgação

Na semana em que o país celebra o Dia Nacional do Samba, o Pagoterapia retorna às próprias origens para lembrar como a roda, a rua e os encontros informais moldaram a trajetória do grupo, que hoje movimenta centenas de pessoas todas as quartas-feiras em São Paulo. Fundador do trio, o cantor, compositor e violonista Matheus Crippa resume a caminhada com humor preciso: estão há “quinze anos batendo cabeça”, mas sem nunca deixar de colocar “a música em primeiro plano”.

O episódio 90 do Sabe Som?, podcast do Brasil de Fato apresentado por Thiago França, reuniu Crippa, o percussionista e compositor Gabriel Muca e a cantora e instrumentista Dessa Brandão para revisitar memórias e discutir o papel do samba na cultura popular brasileira. O encontro celebrou o Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro, data criada em homenagem à primeira visita do compositor mineiro Ary Barroso a Salvador (Bahia), em 1964. A celebração acabou incorporada ao calendário nacional, acompanhando as histórias, muitas vezes improváveis, que atravessam o gênero.

O trio resgatou as primeiras rodas que frequentaram, o repertório que formou cada um e o quanto a prática coletiva ainda é uma escola viva. O samba, lembram, nasceu de forma “completamente improvisada”, no século 19, na Bahia, fruto direto das matrizes africanas que foram violentamente trazidas ao país no processo colonial. Mistura, improviso e comunidade continuam sendo as forças que mantêm o gênero vivo, daí sua permanência.

Dessa Brandão, que se tornou referência das rodas do centro paulistano, reforça essa dimensão comunitária. Para ela, tocar semanalmente é enxergar, na prática, “o poder da cultura, e ver como é possível fomentar arte nos diferentes locais em que você for”. O Pagoterapia ocupa todas as quartas o Movimento Cultural Recreativo Dois-Dois, na Santa Cecília, região central da capital paulista, onde mistura sucessos do pagode dos anos 1990, clássicos do samba de raiz e composições próprias, que segundo eles, “o público já canta de memória”.

A sintonia entre os três, porém, não veio pronta. Cada um chegou ao samba por caminhos distintos, e a construção do projeto exigiu conciliar escolas e repertórios diferentes. “Foi um desafio para a gente. Planejar como é que conseguiríamos fazer um samba onde eu gosto de Exaltasamba e Soweto, enquanto o Muca vem com uma pegada mais Partido Alto, que não é a minha onda. A gente pensava ‘Pô, a gente vai ter que se adaptar ao ritmo e gostos um do outro!’”, relembra Dessa. A solução, contam, foi menos sobre se igualar e mais sobre aceitar e explorar as diferenças. Como define Muca, hoje eles tocam juntos “sem perder a essência de cada um”.

Mesmo com a roda lotada semanalmente, os músicos fazem questão de lembrar que nada se constrói sem insistência. Crippa destaca que o Pagoterapia é só a parte visível de uma trajetória longa, feita de acertos e erros. “Vivemos conectados com a música, e sempre colocamos isso em primeiro plano, sempre tentamos entregar nossa música com excelência”. O grupo também aproveita a visibilidade para defender um ponto central: o público precisa olhar com mais atenção para quem está criando agora.

Muca reforça isso de forma direta ao comentar o espaço das composições autorais: “toda música que é um sucesso hoje, já foi uma música inédita no passado!”. E completa, em outro momento da conversa, um desejo que resume o sentimento de muitos músicos do samba: que viver de arte deixe de ser sinônimo de precariedade.

E o grupo segue apostando nisso: na roda cheia, no encontro semanal, no improviso que dá liga e na potência de uma música que, apesar de tantas disputas, segue curando “onde dói”, como eles mesmos definem.

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 10h da manhã, e está disponível nas principais plataformas de podcast como Spotify e YouTube Music.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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