O poder da escuta

Vanessa Moreno: cantar é ‘viver a festa que é estar no corpo’

Cantora fala sobre trajetória, interpretação de Elis Regina e a importância da escuta na criação musical

A cantora e compositora Vanessa Moreno falou sobre a carreira no Sabe Som?
A cantora e compositora Vanessa Moreno falou sobre a carreira no Sabe Som? | Crédito: Divulgação

Reconhecida atualmente como uma das vozes mais inventivas da nova geração da música brasileira, a cantora e compositora Vanessa Moreno costuma refletir sobre a música também como experiência corporal. “Viver a festa que é estar no corpo”, diz a artista ao comentar sua relação com o palco e com o ato de cantar.

Em participação ao podcast Sabe Som?, apresentado por Thiago França, a artista falou sobre sua trajetória na música, as primeiras influências dentro de casa e o processo de construção artística.

Desses momentos que marcam sua trajetória, Vanessa destaca o significado de revisitar as músicas de Elis Regina. Em 2022, Moreno apresentou o show Vanessa Moreno canta Elis no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, celebrando os 50 anos do álbum Elis (1972). As apresentações ocorreram em novembro daquele ano e trouxeram uma leitura pessoal da cantora sobre o repertório histórico da artista conhecida como “Pimentinha”.

Para ela, o desafio de interpretar a cantora gaúcha vai muito além da técnica vocal. O impacto de Elis, afirma, estava ligado à capacidade de transmitir emoções intensas no palco. “A Elis, para mim, era uma grande sentidora de coisas na frente dos outros”, diz.

Ao preparar o espetáculo, Vanessa percebeu que não faria sentido tentar reproduzir o mesmo tipo de emoção que marcou as interpretações originais. Segundo ela, o caminho passou por buscar experiências próprias para dar sentido às canções. “Minha professora me perguntou qual era a dor mais dolorida que eu já tinha sentido. E como eu poderia revisitar essa dor sabendo que ela já tinha passado”, conta. 

Para a cantora, a reflexão foi fundamental para entender que interpretar uma música exige encontrar um ponto de verdade pessoal dentro da obra.

Aspecto, que segundo ela, conversa com outro elemento que orienta o seu trabalho musical: a escuta. Para ela, tocar e cantar envolve perceber o espaço sonoro e a presença de quem está ao lado no palco. “Tudo começa, para mim, nesse elemento que é a escuta. Se eu escutar o silêncio do outro, talvez eu não me sinta tão desconfortável”, afirma

Essa atenção, segundo a cantora, se torna ainda mais importante em formações menores, como apresentações em duo. Nesses casos, explica, o diálogo musical depende da capacidade de cada músico de perceber o tempo e o gesto do outro. “Para tocar em duo você precisa escutar. Não adianta eu só querer falar. Vai virar um monólogo.”

Trajetória

Vanessa Moreno vem se consolidando na cena da música brasileira com trabalhos autorais e parcerias com músicos da nova geração. Entre seus discos estão Sentido (2021), Cores Vivas (2016) e Em Movimento (2017), além do álbum Solar (2023), indicado ao Latin Grammy Awards. Ao longo da carreira, também desenvolveu projetos em parceria com músicos como Fi Maróstica e Salomão Soares.

Seus trabalhos costumam explorar formações enxutas, com foco na voz e no violão, além de misturar referências que vão do jazz, especialmente pela presença da improvisação, ao pop e ao rock.

Durante o episódio do Sabe Som?, a cantora também voltou à adolescência para contar como o interesse pela música começou. O primeiro contato com o instrumento aconteceu aos 15 anos, quando ganhou um violão da mãe. Na época, lembra, a motivação inicial era o rock, ainda distante do repertório que viria a marcar sua carreira.

Pouco tempo depois, a música já se transformaria em trabalho. Aos 16 anos, ela começou a dar aulas de violão, experiência que surgiu quase por acaso. “Ela disse: ‘Eu tenho um aluno de violão para você amanhã às oito da manhã. Você quer?’ Eu respondi que nunca tinha dado aula. E ela disse: ‘Eu não estou perguntando se você sabe, estou perguntando se você quer’”, relembra

A formação musical também passou por iniciativas públicas. Ela conta que a mãe a incentivou a procurar cursos gratuitos e que foi assim que chegou ao Projeto Guri, um dos principais programas de educação musical do país.

“Minha mãe viu uma faixa na rua dizendo ‘estude música de graça’ e falou: ‘Filha, não sei o que é isso, mas vamos ver’”, contou a cantora, destacando a importância do projeto em sua formação.

As memórias de infância também incluem as primeiras experiências de escuta dentro de casa. Segundo ela, a mãe costumava colocar discos para tocar enquanto a filha observava as capas dos vinis espalhadas pela sala. “Ela colocava as capas dos discos no chão para eu ficar olhando enquanto o vinil tocava”, narra.

Para Vanessa, esse convívio com a música desde cedo ajudou a moldar a forma como ela escuta e se relaciona com o som,  uma sensibilidade que, anos depois, se tornaria marca do seu trabalho artístico. 

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 15h, e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.

Editado por: Luís Indriunas

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