Para o cantor, compositor e produtor Rômulo Fróes, o disco continua sendo um objeto central na música, quase um ritual. “O disco para mim é um lugar sagrado, é o documento”, resume o artista, em conversa com o podcast Sabe Som?, apresentado por Thiago França.
A declaração chega no momento em que Fróes lança Boneca Russa, novo trabalho de estúdio descrito por ele como um disco de amor. Esse é o primeiro trabalho de Fróes em carreira solo desde a sequência formada por Ó Nóis e Aquele Nenhum, ambos lançados em 2021. O trabalho marca também uma espécie de retorno às origens da própria trajetória: cerca de duas décadas depois de Calado, seu primeiro álbum de estúdio, o compositor segue apostando na forma do disco como espaço de experimentação e registro artístico.
Ao longo da conversa, Fróes reflete sobre o rigor que acompanha cada lançamento. Para ele, fazer um álbum novo nunca é automático e muito menos uma resposta às expectativas do mercado. “O Brasil não está ansioso por um disco novo do Rômulo Fróes”, diz, em tom bem-humorado. “Então, por que fazer um disco novo? O rigor entra nisso: o que eu ainda não fiz? O que me motiva a fazer?”
Essa lógica também explica por que cada projeto nasce de uma inquietação diferente. Boneca Russa, por exemplo, parte de um formato mínimo baixo acústico, voz e experimentações sonoras para colocar as canções em primeiro plano.
O estúdio como lugar de realização
Na conversa, Fróes também fala sobre sua relação particular com o processo de gravação. Diferentemente de Thiago França, que ele define como um artista do palco, o compositor se reconhece principalmente no ambiente do estúdio.
“Você é o cara do palco”, diz a França. “Eu aprendi a gostar de cantar, mas eu sou do estúdio, cara. Sou de fazer a canção e registrar a canção.”
Essa vocação explica também sua atuação intensa como produtor musical, função que passou a ocupar cada vez mais nos últimos anos. Produzir discos de outros artistas, conta, é uma forma de colocar seu olhar criativo a serviço de outras obras.
“Eu tenho um amor pela produção. Se eu pudesse, produzia disco o tempo inteiro”, afirma.
Segundo ele, esse trabalho também se conecta a um momento de reconstrução da cena musical independente no Brasil, após os impactos da pandemia e dos últimos anos de crise no setor cultural.
A primeira memória musical
Fróes também volta às próprias origens. Ao comentar os discos que marcaram sua formação, ele lembra de uma cena que se tornou um símbolo afetivo da relação do compositor com a música.
“A primeira memória musical que eu tenho é o meu pai lavando louça e cantando ‘Aos pés da cruz’”, conta, citando a canção eternizada na voz de Orlando Silva.
Neste contexto, Fróes volta sempre à mesma ideia: apesar das mudanças na indústria, a qual ele faz muitas críticas, e na forma de ouvir música, o disco continua sendo o espaço onde a obra se consolida.
“É quando eu me sinto mais poderoso”, resume. “Se eu quiser gravar um disco de orquestra, eu vou dar um jeito e faço. Depois eu vejo como tocar aquilo ao vivo. Mas o disco fica.”
O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
