Com 28 anos de estrada, a banda instrumental Hurtmold relança seu primeiro disco etc., agora em formato vinil. No episódio 108 do podcast Sabe Som?, Thiago França recebe Guilherme Granado e Mário Cappi para falar sobre a história da banda, as escolhas ao longo do tempo, a transição definitiva para o instrumental, do processo de composição coletivo e do engajamento em causas.
Granado e Cappi lembram da cena musical dos anos 2000, em que as referências instrumentais que estavam mais em evidência tinham muita influência do jazz e do blues, e até uma ascensão de casas de chorinho, com estruturas musicais que previam os momentos individuais de cada músico, com solos e improvisações. Guilherme Granado observa que a Hurtmold ia na contramão dessa lógica.
“A gente era alheio a tudo isso, sabe? A gente veio da coisa do punk, da coisa do hardcore e tal, então até hoje a gente faz, a gente compõe junto. Ninguém chega com uma… ó, vamos tocar isso. É todo mundo na sala e todo mundo compõe junto. Claro que as pessoas trazem ideias, né? Mas, assim, é todo mundo junto. Então, sempre foi essa coisa. É o coletivo. A gente faz isso. Um pega um instrumento do outro. Um escreve quando tinha letra. Pode voltar a ter, nunca se sabe. Todo mundo escreve, sabe? Todo mundo cantar. A preocupação sempre foi com a canção, não com o indivíduo”, explica. “É dolorosamente coletiva”, brinca.
Os músicos também analisam como a pandemia gerou marcas profundas na forma de produzir a música. “A gente se encontrava muito pouco. Cada um foi pra um lado e parou tudo porque realmente ninguém saía de casa”, diz.
Para ambos, o retorno criativo e da banda enquanto coletivo voltou com força total agora. “Acho que a gente estava lançando coisa, mas eu digo no sentido da vida mesmo. Eu acho que tem uma coisa ali do trauma, dessa coisa ainda no pós-pandemia. Eu acho que agora eu senti que a poeira baixou e a gente tá andando para frente”.
Os impactos do distanciamento também foram sentidos em como a banda acabou por criar, em quase três décadas de convivência, um senso de comunidade para além da música. Por conta disso, o grupo mantém uma tradição na época do Natal que já dura 15 anos: realizar uma campanha de arrecadação de brinquedos para crianças em situação de vulnerabilidade. Cappi conta que o momento é de confraternização como se fosse uma “festa da firma”. “É uma maneira de reunir todo mundo ainda por cima está fazendo uma coisa legal”, conta.
O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
