O skate é um esporte, que desde 2016, se tornou uma modalidade olímpica. Mas ele vai além: influencia a moda, estilo de vida e tem uma relação quase umbilical com a música. Além do próprio esporte exigir técnica, mas muito gingado e uma dose de improviso, parecendo em alguns momentos uma dança, a atitude de rebeldia implícita no mundo do skate pode explicar essa proximidade com o som de muitas bandas por aí.
O Sabe Som?, podcast apresentado por Thiago França, recebe nesta semana Rodrigo Saldanha e Anderson Quevedo, integrantes da banda instrumental Bufo Borealis, para falar justamente das conexões entre o punk, o skate e a música que eles fazem.
O baterista Rodrigo Saldanha conta que havia uma ideia muito comum na década de 1980 de que o skatista era, além de um cara de atitude, uma pessoa de mente aberta. “A gente é de gerações diferentes na vida e no skate, porque eu sou mais velho. Mas eu comecei a andar em 1987, e imagina, no interior de Minas tinham seis skatistas. Eu vinha de uma cena, por causa do Rock in Rio, de metal, que era o que me encantava. Acho que pela minha idade, eu via entrega e o meu pequeno repertório só enxergava a entrega daquele jeito. ACDC, eu vi isso no Jornal Nacional, uma cena do Rock in Rio. Aí fiquei naquele rolê, tinha o Sepultura ali de perto de BH”, conta.
A cena foi abrinco portas no conhecimento musical. “E era encantador também o capeta. Minas é um estado que tem aquele esquema católico e aquilo era uma coisa que parecia me libertar. Eu falava: ‘Nossa, isso aqui é uma história diferente’. Aí começou a pintar o punk e, de repente, muita coisa de metal deixou de fazer sentido. E aí no punk, você via nos encartes de disco os agradecimentos, um monte de banda. Aí tinha banda, o Big Boys, tinha metais já. Aí você fala: ‘Cara, era uma banda punk com metais. Aí você vai vendo os caras falando, eles citam alguém do jazz. Aí você vai ficando curioso. Então você vai abrindo, nunca fechando. Que é diferente de qualquer outra coisa”, conta.
O músico lembra que, na época, existia uma certa rixa entre os estilos musicais e era comum que a turma do metal não passasse sons para os punks e vice-versa. Só tinha uma exceção: se a pessoa fosse skatista. E foi numa dessas que ele decidiu chamar Anderson Quevedo para começarem a tocar juntos.
“A gente tinha uma espécie de cartão verde, porque os caras falavam: ‘Pode passar, porque ele anda de skate’. Era uma coisa meio que assim, ele ouve de tudo. Então essa foi a premissa pra chamar o Anderson. Porque eu falava: ‘Cara, se ele anda de skate e ele é jazzista. Se ele anda de skate, ele é um cara aberto'”, lembra.
“Eu sinto que a cena do skate, assim, ela tem tudo a ver com artes em geral. E, desde sempre, ela já foi muito relacionada com isso. Tanto que grandes skatistas também são músicos, também são artistas plásticos. Não é só sobre skate. Acho que isso já, naturalmente, quando você se interessa por skate, você já se torna uma pessoa mais suscetível a receber essas informações. Por exemplo, tem uns caras que eu gosto muito, o Mark Gonzales em uma época dos anos 1990, lançou uma sequência de vídeos pela Blind, que a trilha era o Joe Coltrane, Miles Davis. É grooveira, dose insana”, afirma o saxofonista Anderson Quevedo.
Saldanha conta uma história curiosa sobre um nome que também é referência e ajudou, inclusive, a batizar a banda: Frank Zappa. “Eu estava em casa ouvindo o ‘One Size Fits All’ do Zappa e aí eu tô ali vendo a contracapa do disco e tem uma constelação feita pelo artista que fazia as capas do Zappa nessa época. E aí tinha constelação de Pixies, tinha constelação Úrsula Maior. essas coisas, e aí tinha Bufo Borealis, que é uma pira, isso nem existe, aí o cara colocou, e tinha o desenho de um sapo, assim. Mas aí, cara, o nome veio, soou bem, soou musical e universal, porque eu falei, pô, a gente faz uma música universal. Acho que foi o Zappa que apadrinhou”, brinca.
Os músicos apresentam a transição do autodidatismo para a música instrumental, destacando a importância da liberdade técnica e de referências que vão do jazz fusion ao afrobeat. E relembram encontros marcantes, como a colaboração com o lendário baterista Tony Allen. Também comentam sobre projetos paralelos e novos lançamentos. O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
