A confirmação da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência em 2026 tem menos relação com um projeto eleitoral e mais com a disputa por impunidade para o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado.
A avaliação é da cientista política Lilian Sendretti, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que vê o movimento como uma estratégica barganha. Para ela, “essa candidatura significa uma negociação com o Centrão, em relação à ideia da anistia, e também tem a ver com aumentar o custo crítico de deixar a família Bolsonaro fora do jogo”.
O ex-presidente do PT José Genoino reforçou a leitura de que a movimentação serviu como uma pressão sobre instituições e travou entendimentos que viabilizaram o avanço do Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que reduz penas para os condenados por atos golpistas.
Segundo ele, o texto só prosperou porque setores do Congresso conversaram previamente com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Genoino relatou, inclusive, que, em reunião de líderes, o relator, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), teria dito: “Você acha que eu vou apresentar um relatório desse sem o aval do Supremo?”.
Para Sendretti, o PL funciona como “um aceno e uma normalização da extrema direita”, já que “ele alivia penas de crimes com violência grave, não só para os golpistas”, podendo alterar a execução de diversos crimes. Além disso, Genoino chamou o processo de “aula do farisaísmo e da hipocrisia”, afirmando que “quando é para o andar de cima, dá-se um jeitinho da dosimetria. Para os de baixo, é sangue, bala”.
Os dois também enxergam a candidatura de Flávio dentro de uma reorganização conservadora para 2026. A cientista política avaliou que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), continua sendo o nome mais sólido. “Até o início de abril, Tarcísio vai continuar sendo o pet do bolsonarismo”, indicou.
Já Genoino prevê múltiplas candidaturas à direita, com uma unificação no segundo turno. “Eles vão tentar, quem for para o segundo turno, fazer uma aliança ampla”, apontou.
Diante do “acordão” do Congresso e da ofensiva institucional da extrema direita, ambos defenderam que a reação precisa combinar governo e mobilização popular. Sendretti ressaltou “o poder de colocar o bloco na rua” e Genoino, que “a relação com o Congresso é diálogo e enfrentamento, Congresso e ruas. Tem que ser uma relação dupla”.
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