Balanço do ano

Para Stedile, derrota da PEC da Blindagem mostrou força das ruas, mas não mudou cenário conservador de 2025

Líder do MST analisa descenso dos movimentos, informalidade, crise da moradia e reforma agrária 'paralisada'

Encontro do Movimento Sem Terra realizado no Parque de Exposições, em Salvador
Encontro do Movimento Sem Terra realizado no Parque de Exposições, em Salvador | Crédito: Comunicação MST

As manifestações contra a PEC da Blindagem foram mobilizações importantes por terem derrubado o projeto no Congresso. Elas demonstraram que as ruas são fundamentais para pressionar a direita e os conservadores, que ainda têm hegemonia no Legislativo, no Judiciário e na mídia burguesa. A avaliação é de João Pedro Stedile, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Essa manifestação foi imediata, praticamente na mesma semana em que estavam discutindo o projeto. Também tivemos contribuições fundamentais, que foram os artistas. A presença de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque deu um gás diferente no ato e foi extremamente importante”, acrescenta.

Apesar disso, o economista e ativista observa que essa vitória não alterou o cenário histórico atual, em que projetos como o da dosimetria e outros de caráter conservador seguem em jogo no Congresso. “Estamos ainda num período histórico de descenso do movimento de massas, e isso tira a força política da classe trabalhadora no jogo político institucional”, acrescenta.

Com o governo Lula, os movimentos populares sofreram uma mudança positiva. Stedile relembra: “Antes éramos reprimidos pelo governo fascistinha do Bolsonaro”. Agora há diálogo e outro clima institucional, “porém ainda não é o suficiente para representar uma solução aos problemas”, pondera.

“Ainda temos problemas gravíssimos que afetam a nossa base social, como o emprego: metade da população economicamente ativa está no trabalho informal, ou seja, não tem emprego nem renda fixa. O segundo problema é a moradia. No primeiro mandato do Lula, 13% da classe trabalhadora pagava aluguel. Agora, 43% pagam aluguel. É um problemão”, sinaliza.

Atualmente, a informalidade do trabalho se divide em: a uberização (trabalho por aplicativos, como entregadores e motoristas) e também está presente no comércio e serviços, com escalas como a de 6 por 1. A avaliação de Stedile sobre a forma como o governo está lidando com essa questão é que o problema do trabalho é tão sério que faz parte da estrutura capitalista.

“É necessário um projeto para o país que reorganize a economia e a faça sair do rentismo. Porém, não há capacidade política para isso, por ser um governo de frente ampla”, aponta. “É preciso rediscutir um novo projeto de economia para o país, que se baseie na reindustrialização, em empregos com qualidade e renda”, defende.

O economista ainda ressalta que o programa Minha Casa, Minha Vida tornou-se voltado para a classe média, e que os novos edifícios não são para a classe trabalhadora. “Agora o governo se virou para um programa de transferência de renda para a reforma dos imóveis, porque isso alcança mais a classe trabalhadora”.

Em março de 2025, o governo federal anunciou que estava destinando pouco mais de 300 mil hectares para a reforma agrária. Entretanto, desde então, não houve movimentação similar. O ano foi marcado por críticas do MST ao governo por sua postura em relação à reforma agrária. O Abril Vermelho, por exemplo, foi significativo, com ocupações inclusive de empresas públicas ligadas ao Governo Federal, como a Embrapa.

Mas, para a liderança do MST, o balanço deste ano da reforma agrária é negativo. “Continua paralisada. A única diferença é que agora nós temos amigos. E aí fica a dúvida: critica ou não critica o amigo?”, acrescenta.

O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda quinta-feira, às 11h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

Editado por: Rodrigo Gomes

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