de olho na reeleição

Lula conteve bolsonarismo em 2022, mas novo mandato é fundamental para manter enfrentamento, avalia Genoino

Logo após primeiro turno, Lula completará 81 anos e essa deve ser sua última disputa eleitoral

Presidente Lula em cerimônia de encerramento do encontro nacional do MST, em Salvador (BA).
Presidente Lula em cerimônia de encerramento do encontro nacional do MST, em Salvador (BA). | Crédito: Wellington Lenon/MST

Em 27 de outubro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai completar 81 anos. Semanas antes, o Brasil volta às urnas para mais uma disputa presidencial. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e o segundo, se necessário, acontecerá dois dias após o aniversário do petista. Em busca da reeleição, ele deve viver, neste ano, sua última disputa eleitoral. E, mais uma vez, é o principal nome das forças democráticas do país.

Para o ex-deputado federal e constitucionalista José Genoino, assim como em 2022, Lula tem um papel fundamental. Depois de derrotar o então incumbente Jair Bolsonaro (PL) por uma margem estreita, ele agora entra na disputa pela reeleição com a ameaça da extrema direita ainda viva.

“Essa época histórica está exigindo do Lula um novo mandato presidencial. Ele conteve [o bolsonarismo] em 2022, agora tem que transformar. Qual será o legado? Nós vamos fazer enfrentamento ou vamos governar por dentro da ordem? Eu defendo que a gente faça enfrentamento. Enfrentar a extrema direita e a direita, mas enfrentar também questões centrais”, disse Genoino durante sua participação na edição desta semana do Três Por Quatro.

Entre as questões centrais que devem ser encaradas em um eventual quarto mandato lulista, Genoino citou a crise do sistema financeiro, o sistema tributário, a reforma agrária, a abordagem democrática em relação à segurança pública, o papel das Forças Armadas e a luta em torno da defesa da soberania nacional.

“As políticas sociais dos governos Lula 1 e 2 e Dilma 1 não foram integralmente resgatadas, e por uma razão. Eu acho que nós cedemos à questão da austeridade fiscal com o arcabouço fiscal, com a questão da meta inflacionária e com a elevação dos juros”, opinou.

Convidado do programa, o doutor em Ciência Política Leonardo Barbosa, pesquisador do Núcleo de Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), afirma que Lula conquistou seu lugar histórico na política brasileira respondendo a um chamado. Isso se deu em 2022, e se renova agora. “Ele sempre soube reconhecer esses momentos, não é todo político que sabe”, apontou.

O cenário para a disputa que se anuncia, porém, não é fácil. Lula lida com níveis consideráveis de reprovação. Segundo algumas pesquisas, há uma situação de empate ou até mesmo cenários em que a reprovação supera a aprovação. Além disso, o bolsonarismo, que provavelmente será representado na disputa pelo senador Flávio Bolsonaro, mostra força.

“É a primeira vez que há uma direita organizada de massas. No meu grupo de pesquisa no Cebrap, a gente discute essa hipótese: o bolsonarismo se comporta quase como um partido político, como um partido digital muito próximo ao que os partidos de massa foram, no começo do século. E é um tipo de adversário que o Lula nunca teve”, apontou.

“Se nós não formos protagonistas do futuro, essa eleição não vai ser ganha com estatística, com prestação de contas. Ela vai ser ganha se nós formos capazes de mobilizar corações e mentes. Ganhar mentes e corações para a utopia, para a esperança. Só com prestação de contas a gente não ganha”, afirmou Genoino.

Neste terceiro mandato, o petista teve de enfrentar um cenário muito distinto na relação com o Congresso Nacional, que, a partir do governo de Michel Temer (MDB), passou a assumir as rédeas do orçamento.

“O Lula enfrentou bem, melhor do que eu esperava, esse cenário de desafio institucional”, avaliou Barbosa. “Ele fez um certo jogo com o Supremo Tribunal Federal, conseguiu conduzir a Câmara e o Senado entre brigas, delimitando uma linha de onde não poderia passar”, apontou Leonardo Barbosa.

Um dos exemplos citados pelo pesquisador foi a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Lula não cedeu às pressões vindas do Senado, especialmente do atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pela indicação do também senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

“É mais uma dentre tantas outras decisões do mandato que ele delimitou qual seria o limite a partir do qual as prerrogativas presidenciais não poderiam ser usurpadas. E acho que ele fez isso nos nos três anos inteiros. E porque ele foi bem-sucedido nisso, acho que ele entra em 2026 um pouco mais tranquilo e vai poder se dedicar à campanha eleitoral”, apontou

Para José Genoino, porém, o presidente falhou ao não criar um polo de apoio no Congresso, mesmo em minoria, para “peitar” e “enfrentar” os desmandos do Centrão e da extrema direita.

“A primeira fase do Lula 3, ele botou tudo na institucionalidade. Tinha que mediar enfrentamento e negociação; negociação e enfrentamento, por causa da crise da maioria congressual. Você tem que esticar a corda, não para ela quebrar, mas para esticar. Até para que a direita possa aceitar fazer certas concessões”, avaliou.

Para ouvir e assistir

O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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