'Hipocrisia dos EUA'

‘Narcoterrorismo’: a nova arma geopolítica e os riscos para a soberania na América Latina

Pressão dos EUA e da direita para classificar facções como PCC e CV como 'narcoterroristas' serve a interesses geopolíticos e intervenções

Megaoperação no Rio de Janeiro promoveu chacina e não resolveu questões de segurança pública
Megaoperação no Rio de Janeiro promoveu chacina e não resolveu questões de segurança pública | Crédito: © Tomaz Silva/Agência Brasil

A pressão dos Estados Unidos e de setores da direita brasileira para que grandes facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), sejam classificadas como organizações “narcoterroristas” vai muito além de uma discussão semântica sobre segurança pública. Trata-se de uma disputa geopolítica com profundas implicações para a soberania nacional e para as políticas de combate ao crime organizado no Brasil.

Para Juliane Furno, economista, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, o termo “narcoterrorismo” carece de fundamento técnico e serve a uma agenda política. “Essa classificação não tem nenhum componente técnico. É uma denominação eminentemente política”, afirmou ao podcast Três por Quatro da Rádio Brasil de Fato.

Ela também avalia que a designação representa um “outro patamar, um acirramento da guerra às drogas” capitaneada pelos EUA, com adesão da extrema direita brasileira. Furno alerta que classificar um grupo como terrorista abre portas para estratégias de guerra, citando como exemplo os bombardeios estadunidenses a embarcações suspeitas no Pacífico. “Isso no nosso sistema jurídico é inconcebível”, destacou.

Por sua vez, o ex-ministro-chefe interino do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Ricardo Capelli, destacou que é necessário ter cautela com a classificação de narcoterrorismo. “É preciso ter cuidado com essas classificações, porque elas servem de pretexto para desrespeito e invasão à soberania dos países”, ponderou.

Capelli destaca a infiltração no Estado, não apenas pela corrupção, mas por um “planejamento que ameaça o Estado brasileiro”, incluindo a participação em eleições e a preparação de membros para ingressar no serviço público via concursos.

Furno ainda defende que, no atual estágio, o combate eficaz passa necessariamente por desmontar a engrenagem financeira dessas organizações. “A operação Carbono Oculto evidenciou que o crime organizado hoje é um arranjo econômico. Ele se conecta com mercados legais, ilegais e há um movimento de captura das instituições”, explicou.

A economista argumenta que focar apenas no policiamento é atacar um fluxo visível, mas ignorar o mecanismo de reprodução. “Sem atacar a lavagem, os canais financeiros, o combate ao tráfico fica bastante parcelar. A resposta é mais Estado no processo de investigação financeira, inteligência e cooperação internacional”, concluiu.

Como caminho, Capelli também citou a operação da Polícia Federal como exemplo da inteligência necessária. “Quando a gente fala de organizações que movimentam bilhões, elas não circulam mais por dentro de malas”, disse, defendendo que não há contradição entre o uso planejado da inteligência financeira e o emprego da força quando necessário para retomar territórios.

O risco geopolítico e a ‘hipocrisia’ dos EUA

Juliane Furno ampliou o debate para o cenário continental, analisando a recente ameaça do presidente equatoriano Daniel Noboa de taxar produtos colombianos sob alegação de não cooperação no combate ao narcotráfico.

Para ela, essa é uma faceta de uma estratégia imperialista mais ampla. “É uma forma imperialista de os Estados Unidos seguirem condicionando acesso ao mercado, acesso à finança, a benefícios de alinhamento com a sua agenda”, afirmou.

A economista lembrou a “hipocrisia” histórica dos EUA, citando governos associados ao narcotráfico que receberam seu beneplácito. Ela argumenta que sanções ou coações baseadas em “não cooperação” — um conceito elástico — são, na verdade, ferramentas de guerra política e econômica.

“Ao invés de construir mecanismos conjuntos de inteligência, você cria incentivos para os países mostrarem serviço de forma imediatista, com ações espetaculares que não atacam as engrenagens financeiras”, criticou. Furno também alertou para o efeito contraproducente: sanções podem aumentar a vulnerabilidade social e, assim, o recrutamento pelo crime, além de simplesmente deslocar os fluxos ilícitos para outras jurisdições.

Para a professora da Uerj, o movimento atual de sancionar países que “não cooperam” não apenas reforça a supremacia imperialista, como também fragiliza qualquer possibilidade de coordenação multilateral genuína.

“Endurecer as sanções contra um país muitas vezes desloca o fluxo de drogas, de armas, da lavagem para outras jurisdições, ou seja, sem uma coordenação multilateral, falando em um conceito que está em desuso: você ganha manchete, mas acha que perde em seletividade”, conclui Furno.

Para ouvir e assistir

O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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