Cantora, intérprete, atriz e escritora mineira, Titane completa 40 anos de carreira em 2025.
Grande referência da cultura de Minas Gerais, ela faz parte de uma geração de artistas que se consolidaram sem migrar do estado, propondo novos diálogos e contrastes estéticos.
Ao Visões Populares, ela conta sobre o seu recém lançado single Madeira, que tem participação de Paulo Santos e do bloco Pisa Ligeiro, que reúne artistas da Escola de Arte João das Neves, criada, em 2017, pelo Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Qualquer indivíduo que vai fundo em si mesmo, vai trombar com a sua cultura de origem, não tem como fugir. Então, inevitavelmente, fazemos uma música e uma cultura com muito lastro brasileiro, nas culturas brasileiras. Nascemos dentro das culturas populares e a nossa matriz e os fundamentos da nossa arte são os fundamentos da nossa cultura popular”, explica a artista.
Titane comenta ainda sobre a questão política que tem perpassado o debate cultural com a criminalização de manifestações artísticas e sobre a construção de uma sociedade mais solidária e humanizada.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Você lançou um novo single, cuja composição é de Sérgio Pererê. Como foi o processo criativo da canção?
Essa música faz parte da minha vida há muito tempo. Desde 2005 eu a canto, em diferentes situações, e nunca gravei, por diferentes motivos. Desta vez, eu quis gravar e foi inevitável que eu convidasse o bloco, já que o Pisa Ligeiro nasce dentro da Escola de Arte João das Neves, que eu colaborei com a criação.
Eu mesma joguei essa música dentro da escola por volta de 2017, com a cumplicidade do compositor Sérgio Pererê, que trabalhava conosco também. O bloco sempre cantou ela. As pessoas na escola sempre cantaram e, quando eu fui gravar agora, pensei: “não vai rolar de eu gravar sozinha.”
Não só a música Madeira, mas todo o álbum tem a marca dos meus encontros com coletivos artísticos com os quais me envolvi nos últimos anos. Eu sempre vivi em coletivos, mas, quando a gente sobe no palco, é um lugar, por incrível que pareça, muito íntimo. Às vezes as pessoas acham o contrário, mas ali é um lugar onde a nossa individualidade fala muito forte.
Eu, talvez por já viver muito em coletivos artísticos, quando faço o meu trabalho solo, demorei muito para receber convidados. Precisei fazer uns 20 anos de carreira para ter meu primeiro convidado no palco, ao contrário desses últimos anos, em que tenho atuado com muitos coletivos e eles têm vindo para dentro do meu trabalho.
Quando eu falei com as meninas do MST, disse a elas que eu atuo nos territórios do MST e sou feliz colaborando nos assentamentos e na escola de arte, mas que agora a gente iria inverter. Eu as chamei para atuarem no meu território, que é o território profissional da música.
Nós entendemos juntas que quem deveria participar era o bloco Pisa Ligeiro, que já nasceu dentro do MST com o desejo de ir para rua, de dialogar com o mundo, não só de viver internamente.
O MST é uma grande nação e, se as pessoas quiserem viver só nessa nação, já é muito exuberante, já te propicia descobrir muita coisa, promover muitos diálogos. Mas o bloco nasceu não apenas para viver ali dentro da nação sem terra, mas também para dialogar com o mundo.
Madeira faz parte da construção de um novo álbum que deve sair ainda este ano. O que podemos esperar dessa nova produção?
Eu sou minha própria produtora desde sempre, não só do ponto de vista executivo, mas também em um trabalho muito próximo com os músicos, os arranjadores e os colaboradores. O que a gente espera de um novo álbum é sempre que ele chegue ao máximo de pessoas, que ele vá mais longe.
Vou gravar compositores que já gravo há um certo tempo, como Juca Filho e Zé Renato. Além de autores que como eu se reconhecem muito influenciados pelos reinados do Rosário, como o próprio Sérgio Pererê, Yuri Popoff e Maurício Tizumba. O disco está sendo produzido ainda. A nova realidade das produções é essa. Vamos lançando aos poucos. Só vou poder dizer mais quando ele estiver pronto e eu não for mudar mais nada.
Qual é a importância do MST para o Brasil e para Minas Gerais?
É uma importância difícil até de mensurar, de tão grande. Em 2016, no auge do movimento contra o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) assume e propõe acabar com o Ministério da Cultura (MINC). Em quase todos os lugares do país, nós, artistas e produtores da área cultural, ocupamos espaços do MINC. Em Belo Horizonte, nós ocupamos a Funarte.
Foi uma ocupação longa, com muita gente, e João das Neves e eu participamos o tempo todo, ficamos acampados lá. Naquele momento, o setor de cultura do MST nos abordou e eu já percebi o quanto aquela situação era inesperada para nós e ela carregava muitas novidades importantes.
Nosso relacionamento de artistas com a esquerda organizada existe desde sempre, mas quase sempre ele é guiado pela seguinte ideia: a arte e a cultura devem ser acessadas para nos ajudar a mobilizar pessoas e divulgar certas bandeiras políticas. Então, você faz um espetáculo ou uma música sobre tal assunto e vai assim instrumentalizando a linguagem artística para fazer quase que só agitação e propaganda. Estou falando aqui de uma maneira muito redutora, mas é isso.
Quando o MST nos procura, já a primeira conversa foi longuíssima. Ficamos umas três horas conversando sobre o que seria essa dimensão da arte e da cultura. Eu e João não fomos exatamente pegos de surpresa, porque tínhamos um contato com o movimento, ainda que distante, e já enxergávamos o quanto era genuíno e tinha uma visão mais ampla do ser humano, das culturas, da luta política e da transformação social.
Então, não foi de todo uma surpresa, mas foi de uma alegria enorme para nós. Ficamos entusiasmados de poder conversar horas com aquelas pessoas sobre essa dimensão mais profunda da cultura e da arte. Ali nasceu a ideia de fazer um curso, que aconteceu em 2017 no centro de formação do MST, em Belo Horizonte. Foram mais de 40 participantes, de várias partes do estado, alguns dirigentes políticos inclusive, e a ideia era a seguinte: façam como vocês costumam fazer e vamos ver o que acontece.
Quando o MST pensa a arte, é primeiro uma auto-descoberta de cada um, uma descoberta coletiva, uma descoberta de comunidades. É uma redescoberta, uma re-investigação sobre suas origens, sua evolução e seu desenvolvimento, mas dentro de um contexto de uma cultura de luta.
Isso modifica muito as coisas e dá em lugares muito bonitos, porque a arte é, antes de tudo, um lugar de protagonismo. Como eu disse, você tem que gostar de si mesmo, sentir que você tem o que dizer e agir. Você tem literalmente que ocupar a cena, dar o seu recado e fazer suas provocações, promover um diálogo, ouvir o que vem de lá, responder. A arte é um lugar de muita ação, por mais que ela seja contemplativa.
E o povo sem terra é assim. Todo sem terra é chamado cotidianamente a protagonizar a sua própria vida, a assumir a sua própria história, a desenvolver sua própria cultura e seus próprios conhecimentos. Tudo é um terreno fértil para arte e para cultura, porque as pessoas são protagonistas. Então, é muito bom viver dentro da escola, porque a gente vive todas essas dimensões da criação.
A ideia é criar música para recriar o mundo dentro de uma cultura diferente, porque se propõe a ser solidária, que traz saúde para as pessoas, que não planta transgênico para ganhar dinheiro. Ela planta e colhe sementes crioulas para ter saúde, para poder ter lucidez de espírito, de pensamento e de ação. E é uma cultura onde também não cabe uma simples reprodução consumista de produtos culturais e de ideias. Então, a escola é um espaço de criação em todo o sentido.
O que é a Escola Itinerante de Artes João das Neves?
A escola nasceu como um espaço de experimentação, onde a arte impera e, por isso, é um lugar onde a liberdade do indivíduo precisa ser muito respeitada e considerada. A única coisa que se precisa para ser artista é gostar de investigar a si próprio, a sua origem, a sua cultura e querer falar sobre isso e ter o que dizer para o mundo.
Tendo essa carga intelectual, emocional e física interior, você, tendo posse de si mesmo, desenvolve uma linguagem na qual se identifica mais, com o som, a representação na música, a contação de história, o cinema, o audiovisual, as artes visuais, enfim. Você vai lidar com aquelas linguagens, ter domínio delas, para poder dialogar com o mundo e colocar suas opiniões, fazer sua discussão e criar sua narrativa.
A escola já nasceu com o entendimento da importância do indivíduo e também com a ideia de que qualquer indivíduo que vai fundo em si mesmo tromba com a sua cultura de origem. Não tem como fugir. Inevitavelmente, nós aqui fazemos uma música, uma cultura, com muito lastro nas culturas brasileiras.
Eu, João, Sérgio Pererê, Pereira da Viola, uma figura importantíssima nesse processo, e a Guê Oliveira, que eu conheci como percussionista e depois como dirigente do MST, nascemos dentro das culturas populares. Nossa matriz e os fundamentos da nossa arte são, antes de tudo, os fundamentos da nossa cultura popular. Nem sempre é assim na música, no teatro ou no cinema.
A escola também, ao dialogar conosco, absorveu esse entendimento. O que eu acho muito natural, porque o MST é um grande movimento das culturas populares brasileiras. Só que eu considero que é um passo além, evolutivo, porque eu vejo o MST como uma grande cultura em construção, uma cultura de luta.
Qual é a importância da arte na disputa das ideias no momento em que vivemos, no qual tem crescido ideologias conservadoras?
Eu considero um momento em que não podemos utilizar nenhum tipo de filtro. Falo dos filtros que esconderam o comportamento e o sentimento daquelas pessoas, da direita, que é um sentimento muito cruel e que não conseguimos enxergar.
É muito difícil sentir, entre nós, dentro das nossas famílias, das nossas cidades, das nossas escolas, entre os nossos, que existe esse tipo de sentimento. É o momento em que temos que encarar e tentar pensar sobre o porquê disso existir.
É um momento em que nenhum tipo de filtro cola mais. Não cola mais o filtro da misoginia, do machismo, do racismo, da sociedade patriarcal. Eu penso que todos os nossos desejos, teorias e práticas revolucionárias hoje, se não considerarem esses aspectos, não vão avançar. Nós estamos no momento de misturar isso tudo em um caldeirão, com muita inteligência, para tentar entender o que que está acontecendo. É um momento histórico onde a gente é chamado a tomar posições e atitudes.
Não dá para você ficar vacilando. Se vacilou, por favor, vai tentar resolver o vacilo na prática. Temos que arregaçar as mangas, e dar as mãos, porque isso é o que realmente nos diferencia do que a gente chama de direita. Nós andamos de mãos dadas e, para nós, ninguém se salva sozinho. É preciso olhar no olho dos fascistas, dos racistas, dos misóginos e dos homofóbicos, porque eles também estão entre nós.
Estamos falando aqui do Madeira e uma coisa que eu considero muito importante, que existe entre nós, é uma frase muito antiga: lutar sem perder a ternura jamais. O MST é muito a cara disso. O MST é um lugar que tem tensão e tem ternura, tem festa e tem conflito. Você vive o tempo todo diante do imprevisto, do improviso e diante da festa.
Para fazer o clipe de Madeira, tínhamos muitos caminhos possíveis. Pensamos em fazer um documentário sobre o Acampamento Pátria Livre, que é um território muito importante que sofreu com as enchentes criminosas da mineração. Outro caminho seria uma série de histórias do movimento que temos para contar.
Mas decidimos falar sobre a vitalidade do movimento e dos acampamentos, sobre o dia-a-dia, sobre o quanto viver ali é também ter uma vida plena. Só que uma vida sem filtros, onde você olha a realidade como ela é. Ou seja, você é feliz para além da dor, não porque fingiu que não está doendo, mas porque enfrenta a dor e a ultrapassa construindo alguma coisa diferente.
Acho que o momento é esse. Na prática, estou pronta para fazer campanha política. Acho que nós todos já começamos.
Com o crescimento do conservadorismo, vemos, cada vez mais, uma busca por criminalizar a arte. Como você enxerga esse tipo de ação?
É muito cruel e muito triste. Quando eu comecei a cantar, a gente tinha que fazer apresentações para a censura antes do show estrear. Você tinha que alugar um teatro, pagar um equipamento de som, montar tudo e vinham dois censores que sentavam na plateia, você apresentava e eles faziam cortes. O samba foi criminalizado na nossa história, o violão foi criminalizado na nossa história. Os tambores do Rosário foram criminalizados e houve períodos em que eles não podiam bater.
Então, isso não é de todo uma novidade. A grande novidade, que é muito dolorosa, é a criminalização esparramada pela sociedade. Quando a gente sofria na ditadura, eram grupos paramilitares que te perseguiam, um censor ou alguns policiais infiltrados. Hoje não, hoje está na rua, são as pessoas. Não foi preciso um golpe para fechar o Congresso, os próprios parlamentares estão atuando para dar um golpe. Você posta algo no Instagram e aparece um público para te jogar na lama ou coisa pior.
Isso é o mais difícil, é um vizinho, são companheiros de trabalho, são os pais dos coleguinhas dos seus filhos. Essa realidade é muito dura e a gente também não pode camuflar, não podemos parar, nem recuar. Cada passo para trás que você dá, o avanço contra você vai ser maior. Nesse ponto, quase não temos alternativa, temos que seguir com as nossas convicções e com coragem. Eles empurram de lá, a gente empurra de cá.
Este ano você celebra 40 anos de lançamento do seu primeiro disco. O que simboliza para você esse marco?
Eu vou relançar a minha obra toda e subir ela completa para as plataformas digitais ainda este ano. E está sendo muito bom poder e ter que mexer nesse material, ouvir áudios, ver imagens. É muito bom ver que eu já fiz muita coisa e sinto que estou no lucro já. Mas eu olho e todo dia parece que estou começando de novo.
Eu acho que isso é uma condição do artista. Não vivemos do que a gente já fez. Temos que mobilizar a vida dentro da gente diariamente. Eu tenho que mobilizar a minha voz diariamente. Se eu não tratar a minha voz como eu tratava aos 20 anos ela para de soar. Eu sinto um mundo muito grande pela frente. Sou uma pessoa otimista por uma necessidade de sobrevivência. Se não, o meu coração não sobrevive.
Mas eu vejo um planeta muito sofrido e a possibilidade do fim todos os dias. Mas também é da natureza humana nos rebelar contra tudo. Então, eu vejo muito trabalho pela frente e um trabalho ao qual me entrego a ele com prazer, porque faz muito sentido para mim.
Acho que o que eu sempre peço na minha vida é que ela continue fazendo sentido, que eu continue vendo sentido nas coisas, continue desejando viver e continue desejando compreender isso que é inexplicável, a nossa vida juntos aqui no planeta.