ENTREVISTA

Transformamos problemas sociais em diagnósticos psiquiátricos? 

O Setembro Amarelo acabou, mas a saúde mental continua na ordem do dia; confira entrevista com Felipe José Santaella

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Felipe José Santaella se propõe a promover reflexões diárias sobre saúde mental.
Felipe José Santaella se propõe a promover reflexões diárias sobre saúde mental. | Crédito: Foto: Arquivo Pessoal

Nas redes sociais, o residente em psiquiatria pela Universidade Estadual de Campinas Felipe José Santaella se propõe a promover reflexões diárias sobre  saúde mental. Em pílulas audiovisuais curtas, o médico faz mais questionamentos do que entrega respostas prontas e fechadas.

“Antes de falar de Setembro Amarelo, precisamos falar sobre direito à vida, direito à amizade, direito ao lazer”,  convocou Santaella, no início do mês que tem como proposta fazer campanhas sobre prevenção do suicídio. 

Afinal, para ele, a crise que o país enfrenta em relação a esse aspecto da saúde também passa por questões históricas, sociais, culturais, e não somente individuais. 

“O aumento [de transtornos mentais] diz respeito a uma população cujos direitos estão sendo cada vez mais corroídos. Sejam direitos trabalhistas, sejam direitos à moradia, sejam inclusive direitos do ponto de vista dos diagnósticos psiquiátricos”, pondera. 

Em entrevista ao Visões Populares, podcast do Brasil de Fato MG, Felipe José Santaella compartilhou as teorias da sala de aula, a prática no consultório e a produção de vídeos para internet em torno do tema saúde mental. 

:: Ouça o podcast completo aqui. ::

Na conversa, o médico abordou questões como os desafios da escala 6×1, a despatologização da vida, o aumento de diagnósticos de burnout e até o excesso dessas informações na internet, que por vezes viram também desinformação. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Um vídeo seu deixa uma mensagem categórica: antes de falar de Setembro Amarelo, precisamos falar sobre direitos. Por que é tão importante conversarmos sobre isso?

Felipe José Santaella – De maneira geral, o suicídio é uma temática muito sensíve socialmente, historicamente, e até filosoficamente. Eu gosto muito de um autor francês, o Albert Camus, e ele abre o livro O Mito de Sísifo justamente com essa questão, dizendo que só existe um problema filosófico verdadeiro, que é o suicídio. E não só é verdadeiro, mas verdadeiramente sério. Ele vai explorar sobre as relações do indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, não aborda as questões sociais pensadas no aspecto do suicídio. 

Toda vez que a gente olha para o suicídio, tendemos a olhar justamente para a questão individual: a pessoa tem um transtorno mental e, a partir desse transtorno mental, tem algum problema que pode ser corrigido. E esse problema, sendo corrigido, vai garantir que ela tenha direito à vida, e a vida é o valor pelo qual a gente está lutando.

Sem considerar as diferenças históricas, culturais e pessoais em relação ao suicídio, é importante pensar que, numa realidade como a nossa, brasileira, vários assuntos se tornaram assuntos de saúde mental, sem necessariamente serem assuntos de saúde mental. Por que eu estou falando isso? Porque, hoje em dia, tem se falado muito sobre fazer esporte, atividade física, se alimentar direito, dormir direito, etc. “Não pode tomar tanto café” e por aí vai. 

Só que, ao mesmo tempo, na realidade de quem? Quando a gente pensa a realidade brasileira, há dados mostrando projeções que nos levam a pensar: “ah, o aumento dos transtornos mentais no Brasil”. Só que esse aumento diz respeito a uma população cujos direitos estão sendo cada vez mais corroídos. Sejam direitos trabalhistas, direitos à moradia, e inclusive direitos do ponto de vista dos diagnósticos psiquiátricos.

A gente vê os cortes do Benefício de Prestação Continuada (BPC) que o governo fez, que estão afetando muitos pacientes. Inclusive, quando eu trabalhava na residência da Unicamp, atendemos vários pacientes que tinham um diagnóstico de esquizofrenia há mais de 15 ou 20 anos, sem inserção social, por vários fatores obviamente, e cuja única fonte de renda era o BPC, que é um salário mínimo. Esse benefício foi cortado da noite para o dia. 

Então, como vamos falar de uma garantia à vida se não pensamos em que vida é essa que as pessoas estão vivendo no nosso país? Toda discussão de saúde mental, eu acredito que tem que olhar primeiro para o fenômeno social antes de olhar para o resultado individual.

Quando você aborda, por exemplo, a questão do vício em dopamina, você convoca um olhar muito mais estrutural do que individual. Você diz: “não podemos transformar problemas sociais em problemas de moléculas”. Muitas vezes, quando as pessoas buscam um médico psiquiatra, parecem querer resolver problemas pontuais. Isso pode corroborar com esse reducionismo?

Você levanta várias questões em uma só. A primeira delas é: como a gente pensa o acesso a um psiquiatra no Brasil? Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro pensar de que maneira chegamos a esse acesso. Bom, primeiro, você pode pagar um psiquiatra particular, e normalmente o preço é caro.

Eu estou neste momento em São Paulo, e, aqui, você vê que pode chegar a R$ 1 mil ou R$ 2 mil uma consulta. A outra forma seria por meio do convênio. E a gente sabe que, para quem tem convênio de saúde e procura psiquiatra, às vezes, a fila de espera é de meses, até anos, e, em alguns casos, você não consegue. 

Por exemplo: em Campinas, para conseguir um psiquiatra da infância e adolescência nos principais convênios — e estou falando de uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, perto de São Paulo —  você não consegue consulta com esses profissionais.

A terceira possibilidade é por meio das consultas populares. É uma forma de saúde muito comum no nosso país, onde existem convênios mais acessíveis ou clínicas populares, em que as pessoas pagam uma consulta mais barata e muitas vezes não têm acesso ao profissional que acham que estão consultando. Vou dar um exemplo: para a pessoa se dizer psiquiatra, precisa ter o Registro de Qualificação de Especialidade (RQE), que é o que garante que se está diante de um especialista.

E isso você pode, inclusive, conferir, acessando o site do Cremesp ou do CRM. A questão é que muitos desses espaços não exigem que a pessoa tenha o RQE e nem que esteja na formação. E isso é curioso. Eu digo curioso porque as pessoas não têm essa ideia. Por exemplo: eu sou residente em psiquiatria. Posso atender como alguém da psiquiatria, da saúde mental? A resposta é sim. O que eu não posso é me definir como psiquiatra.

O ponto é que muitos desses lugares não só aceitam pessoas sem o título, como também aceitam pessoas que nem estão tão interessadas na área. Isso faz com que muitas vezes as consultas sejam rápidas, focadas no diagnóstico e voltadas para uma demanda imediata. A pessoa procura uma demanda e quer resposta rápida.

Na forma gratuita, o acesso se dá por meio dos postos de saúde, com médicos de família e comunidade, que são sim especializados e podem dar conta da maioria dos transtornos mentais, além de clínicos gerais dentro desse caminho. Por último, há os CAPS e os ambulatórios especializados. Só que muitos CAPS não oferecem acesso direto. Embora, teoricamente, sejam porta aberta, muitas vezes exigem encaminhamento.

E, para o ambulatório, antes é preciso passar pelo médico de família e comunidade. Então, a pessoa que surge com uma demanda imediata, querendo uma resposta rápida sem gastar muito numa consulta particular, acaba recorrendo às clínicas populares. E, dentro disso, surge a questão: uma demanda imediata faz com que a gente não pense e não tenha espaço para discutir quais são os reais problemas.

O que acontece é que, quando a pessoa procura uma consulta, ela está questionando alguma coisa e quer resolver. Agora, se essa coisa é necessariamente um transtorno mental ou não, ‘são outros 500’. Porque muito do que a gente tem se queixado como sociedade hoje em dia não diz respeito necessariamente a transtornos mentais, mas a um sofrimento e a uma adequação ao nosso modelo produtivo.

Isso faz com que a gente pense parcialmente numa situação que eu costumo brincar: a maioria dos meus amigos médicos sonha em ser carteira assinada, sonha em ser CLT. As pessoas não querem mais ser profissionais liberais. E muito disso é resultado também de quê? Da lógica de produção. Se você está nela o tempo inteiro, não separa o que é trabalho e o que não é. O trabalho continua.

A questão é: transformamos a produtividade num valor e num ideal que todos podem alcançar. Sentar 5 horas no computador lendo, além de não ser natural, não é algo que todo mundo consegue fazer. Mas é visto e vendido como se fosse, só querer.

Então: basta você querer ou basta ter um diagnóstico para performar mais. Eu sinto que essa busca por moléculas é uma forma de simplificar o discurso, simplificar a narrativa e encontrar um meio-termo que possa garantir algo sem necessariamente ser garantia. Inclusive, psiquiatras bons hoje em dia têm trabalhado com a desprescrição.

Você vê que a maioria dos profissionais têm olhado agora com esse olhar: “Opa, será que precisa de tanto remédio?”. Porque, de fato, às vezes as pessoas chegam com três, quatro, cinco medicações e a gente vê que, com um especialista, talvez o caminho seja outro. Até porque a maior parte da prescrição de psicotrópicos no Brasil atualmente não é feita por psiquiatras, mas por médicos de outras especialidades.

Donald Trump afirmou que a agência reguladora de medicamentos dos EUA vai notificar médicos sobre um suposto risco aumentado de autismo em crianças associado ao uso de paracetamol durante a gravidez. Ao mesmo tempo, é possível ver uma crescente de vídeos na internet que trazem sintomas sobre transtornos. Como lidar com essa constante na informação e na desinformação?

Eu acho que tem um ponto principal, que é a pauta da saúde mental. Como tudo hoje virou saúde mental, ela é uma pauta que pode ser sequestrada politicamente para interesses. E estou falando tanto na questão da informação quanto na da desinformação. 

O diagnóstico psiquiátrico não é uma verdade por si só. Ele é uma interpretação da realidade

Historicamente, os profissionais de saúde sempre controlaram a informação a respeito de medicamentos, diagnósticos e condutas. Isso mudou muito nos últimos anos, principalmente com o advento das redes sociais e com o surgimento de influenciadores que falam sobre experiências de saúde mental em primeira pessoa.

A pessoa fala da experiência dela com o diagnóstico psiquiátrico e pode falar coisas que são cientificamente corretas, mas não necessariamente socialmente adequadas. E, ao mesmo tempo, pode falar coisas tecnicamente incorretas, mas socialmente bem vistas.

É aí que a gente cria um paradoxo da informação: de que maneira vamos promover informação, principalmente num país como o Brasil, que tem um analfabetismo funcional muito grande, mas ao mesmo tempo uma democratização do acesso às redes sociais e uma forte influência da desinformação, potencializada pela ausência de regulamentação das mídias? Isso faz com que a desinformação circule muito mais facilmente e você tenha muito mais dificuldade de explicar corretamente o que está acontecendo.

E veja, nessa questão específica do autismo, precisamos observar que o tema virou uma pauta política que, inclusive, não está sendo tensionada. Ela está sendo abraçada por todo o espectro político. Até a década de 1990, tínhamos a esquerda revolucionária, não só no Brasil como no mundo, questionando a psiquiatria como saber hegemônico, questionando os diagnósticos psiquiátricos.

Hoje em dia, o que vemos é justamente o contrário: tanto a extrema direita quanto a esquerda revolucionária abraçam os diagnósticos psiquiátricos e os transformam em verdades universais e ontológicas. O diagnóstico psiquiátrico não é uma verdade por si só. Ele é uma interpretação da realidade. E é uma interpretação à qual damos um nome, e esse nome tem um efeito social. Um efeito social nas pessoas, um efeito também social nas leis. 

Historicamente, os diagnósticos sofrem mudanças. Um exemplo importante é a transição do DSM-4 para o DSM-5 no caso do chamado “transtorno de múltiplas personalidades”. O DSM — manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria — serve de referência internacional para classificar transtornos. Mas um diagnóstico psiquiátrico não é apenas o preenchimento mecânico de critérios: envolve interpretação, contexto e a leitura de um profissional qualificado.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há um problema grave de medicalização, em que questionários aplicados em escolas já resultam em prescrições automáticas. Isso ignora a complexidade da prática clínica, que exige muito mais do que escalas.

Diagnósticos não são neutros

No DSM-4 falava-se em “transtorno de múltiplas personalidades”. No DSM-5, a nomenclatura mudou para “transtorno dissociativo de identidade”. Essa mudança não é apenas semântica: o nome carrega implicações distintas sobre como a condição é compreendida, socialmente e individualmente. Pessoas diagnosticadas anteriormente reagiram contra essa redefinição, demonstrando como os diagnósticos não são neutros — eles moldam identidades e, ao mesmo tempo, são moldados pela cultura.

Ao nomear um transtorno, o efeito não se restringe ao paciente e ao médico, mas se expande para a sociedade

O filósofo Ian Hacking trabalhou justamente essa ideia: ao nomear um transtorno, o efeito não se restringe ao paciente e ao médico, mas se expande para a sociedade, as leis e a cultura. O diagnóstico passa a ser também um fenômeno social, que escapa ao controle dos profissionais. Isso se torna ainda mais sensível quando falamos de autismo, por exemplo — tema que, em muitos espaços, deixou de poder ser questionado, como se fosse uma verdade absoluta.

Isso não significa negar atipicidades ou realidades clínicas, mas refletir sobre como nomeamos e para quê. Muitas vezes, as nomeações servem mais para justificar e enquadrar do que para explorar potencialidades. O professor Cláudio Banzato sintetiza bem: “a psiquiatria é parte de um problema que ela mesmo tenta solucionar”. Criamos fenômenos culturais a partir de categorias diagnósticas, mas depois não sabemos como lidar com seus efeitos.

A psicóloga Rafaela Zorzanelli traz outra provocação: repetimos que “não se fala em saúde mental”, mas, na prática, talvez estejamos falando demais — e, quanto mais se fala, mais informação circula, tanto boa quanto ruim. O excesso de discurso gera uma saturação que, em vez de ampliar o debate, o engessa.

Quando Donald Trump fala sobre autismo, por exemplo, não está simplesmente negando ou confirmando sua existência. Ele simplifica e instrumentaliza o debate

É nesse ponto que a política entra. Quando Donald Trump fala sobre autismo, por exemplo, não está simplesmente negando ou confirmando sua existência. Ele simplifica e instrumentaliza o debate, reduzindo-o a uma suposta causa única — algo incompatível com a complexidade dos transtornos mentais. Diferente de doenças infecciosas, que podem ser explicadas por um germe e tratadas com antibiótico, os transtornos mentais não têm causas únicas.

A extrema direita tem usado isso de forma estratégica: cria espantalhos conceituais para dominar narrativas. No Brasil, o autismo, em especial, tem sido objeto de discursos em cultos religiosos, palestras e projetos financiados por deputados. Existe, sim, uma necessidade de sensibilização e suporte, mas a pergunta central é: suporte para quem? Só para os diagnosticados, ou também para quem não tem diagnóstico mas enfrenta dificuldades reais?

Se tivéssemos uma garantia universal de direitos, haveria tanta busca pelo diagnóstico como chave de acesso a recursos?

E mais: se tivéssemos uma garantia universal de direitos, haveria tanta busca pelo diagnóstico como chave de acesso a recursos? São questões em aberto, sem respostas fáceis, mas fundamentais para compreender o entrelaçamento entre ciência, sociedade e política na saúde mental.

Você fala sobre como chamar determinados transtornos de espectro acabou ampliando suas significações. Pode trazer mais sobre isso?

Eu posso falar bastante sobre a questão do TDAH, que eu acho que tenho mais propriedade. A questão da doença como espectro, o transtorno mental como espectro, é a ideia de que você tenha gradações e possa flutuar entre elas.

Isso faz com que surjam vários problemas. Veja, a gente não está discutindo a ecoansiedade. Estamos vivendo em um planeta à beira do colapso ambiental. Como isso está impactando as pessoas? Temos aumento da temperatura, mudanças climáticas mais abruptas. Veja: a mudança de temperatura vai afetar a população idosa com quadro demencial, porque mudanças de temperatura alteram o comportamento dos idosos com demência.

Saiu recentemente um estudo mostrando que poderíamos prevenir 10% dos casos de demência no nosso país se melhorássemos a taxa de educação da população. Ou seja, estamos falando disso, mas ao mesmo tempo não estamos falando disso; falamos de outras coisas. 

E por que estou trazendo essa questão para discutir o espectro? Porque esses assuntos sociais não são discutidos, mas eles impactam diretamente o indivíduo que se percebe como alguém que tem “alguma coisa errada”. Aí ele vai a uma consulta rápida, e o profissional diz: “Você tem esse diagnóstico”. 

Em seguida, ele toma a medicação e se sente melhor. Mas responder a um medicamento não necessariamente prova que existe um transtorno, porque a relação entre medicamento e transtorno não é, necessariamente, uma relação de falta de substância.

Por exemplo, havia a teoria da falta de serotonina, de que a depressão seria causada por sua deficiência, que já se mostrou falsa. Ainda assim, virou um discurso narrativo ensinado inclusive para profissionais da saúde mental. Por quê? Porque é mais fácil. É mais fácil explicar para uma pessoa que ela tem “falta de serotonina” do que explicar a complexidade do que está acontecendo.

E aí você pensa: como explicar para alguém que seu problema é muito mais complexo, em uma consulta rápida, sob pressão de produção, dentro de um setor privado regido pela lógica de clientela? Profissionais de saúde mental hoje trabalham sob essa lógica. Vemos propagandas do tipo: “Como aumentar seu ticket médio? Como manter a rentabilidade?”.

E quando você diz a alguém que ela não tem um diagnóstico biológico, muitas vezes a reação é de raiva. Isso vai depender da construção de vínculo. Mas como construir esse vínculo, se o profissional também está precarizado, terceirizado, e no dia seguinte o paciente já consulta com outro? Como lidar com isso? Assim, pensar nas questões como espectro trouxe alguns ganhos, mas também muitos prejuízos.

O principal prejuízo é a perspectiva de como coletivamente somos afetados individualmente. Um exemplo: o trauma coletivo da covid-19. Não falamos sobre isso. Agora atendemos crianças com dificuldades de leitura, aprendizado e atenção, crianças alfabetizadas em plena pandemia. E hoje culpamos as telas, o celular, etc. Mas a criança ficou dois anos só usando tela.

Como pensar esse debate? Como pensar nas pessoas enlutadas, que perderam familiares, e cujo luto não foi legitimado socialmente? São vários problemas. E é muito mais fácil olhar pela ótica individual, como se a pessoa tivesse um “defeito” que a impede de performar, um limite a ser tensionado. Isso também é um sequestro da linguagem.

Eu gosto de dar exemplos pessoais que são simbólicos. Atendi vários pacientes em pronto-socorro que relataram sintomas psiquiátricos, mas na verdade tinham doenças clínicas. A pessoa relatava ansiedade porque a palavra está na boca de todos, mas estava com problema cardíaco. Ou um problema endócrino, por exemplo. Esse é o ponto: temos transformado tudo em diagnóstico, mas não falamos de outras coisas.

Falar das complexidades coletivas não significa desconsiderar o sofrimento individual

Ao mesmo tempo, lidamos com pessoas em sofrimento intenso. É importante marcar: falar das complexidades coletivas não significa desconsiderar o sofrimento individual. Se uma pessoa está vivendo algo muito difícil, eu não posso dizer: “olha, querida, você não está deprimida, o que você tem é excesso de capitalismo”. Isso seria cruel.

Eu posso pontuar o que está acontecendo individualmente, mas também posso reposicioná-la no coletivo. Uma coisa não necessariamente exclui a outra.

Uma coisa que é central nesse momento no Brasil é esse debate do fim da escala 6×1. Os regimes de trabalho cada vez mais longos são um fator preponderante para grande parte do público que busca um diagnóstico?

É uma falácia que as pessoas querem apenas atestado de saúde mental. Na minha experiência, e na de outros colegas psiquiatras, fica evidente que a maioria não quer atestado, pois teme o que isso representa. A lei diz que não é obrigatório incluir CID em atestados, mas, na prática, muitas empresas exigem. 

E aí? Você coloca que a pessoa tem um transtorno mental, qual é o impacto disso em relação ao emprego dela? Qual é o impacto na confiabilidade diante dos colegas ou superiores? Esse é o grande paradoxo, inclusive, da campanha do Setembro Amarelo: grandes empresas falam sobre a importância da saúde mental, mas quando seus próprios trabalhadores trazem demandas concretas, isso não aparece.

E aí surge a contradição: como dizer a uma pessoa que ela precisa fazer psicoterapia, praticar atividade física, comparecer a consultas, se ela trabalha em uma escala que não lhe permite nem tempo para descansar?

Portanto, quando falamos de prevenção do suicídio, os principais autores brasileiros — como Bertolote, ex-professor da Unesp, e o professor Neuri, da psiquiatria da Unicamp — já afirmaram que precisamos discutir o problema em nível coletivo, não apenas individual. Se quisermos de fato adotar uma medida preventiva, deveríamos pensar no fim da escala 6×1, que por si só representa a impossibilidade de garantir uma existência para além do trabalho.

Quem trabalha com saúde mental sabe: o trabalho é, sim, um grande responsável pelo adoecimento psíquico, um intensificador do sofrimento. Às vezes, há uma relação direta — o excesso de trabalho impacta a relação com os filhos, o casamento, e assim por diante. Mas também pode haver relação indireta. E, claro, em alguns cenários o trabalho pode ser um fator protetor. Não podemos cair em simplismos. A questão é: de que maneira o trabalho está sendo realizado de uma forma que produza sentido?

Além da escala 6×1, falamos também de pessoas que não têm trabalho registrado, que não possuem o mínimo de garantia de direitos. O neoliberalismo se enraizou a tal ponto que muitos trabalhadores por aplicativos, por exemplo, se veem como empresários de si mesmos, mas estão presos a uma dinâmica que os explora e que não permite outras possibilidades de vida.

O sofrimento mental não é apenas causado pelo neoliberalismo, mas também serve para sua manutenção

Esse discurso é absorvido pelo indivíduo em sofrimento, que passa a pensar suas dificuldades como problemas individuais. É nesse sentido que um livro muito interessante do Christian Dunker, Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico  — fruto de um grupo de pesquisa que inclui Nelson da Silva Jr., Vladimir Safatle e outros autores importantes — mostra como o sofrimento mental não é apenas causado pelo neoliberalismo, mas também serve para sua manutenção. O sofrimento é capturado e transformado em engrenagem de um sistema que, mesmo adoecido, continua funcionando.

As pessoas estão sendo cooptadas pelo discurso da produtividade?

A gente vê muito isso, por exemplo, na questão de que tudo agora você precisa performar. Você não pode mais ser ruim nas coisas. Você não pode correr só porque gosta de correr.

Você tem que correr porque precisa completar a meia maratona, porque tem que cumprir o pace, porque tem que seguir dieta. Não é mais “eu vou ter um hobby”; agora eu tenho que fazer algum curso profissionalizante. A gente não se permite mais gostar das coisas pelo prazer de fazê-las. Tudo precisa ser visto através de uma lógica de produção.

Então, ‘ah, eu vou fazer um curso, não porque quero estudar um tema, mas porque ele vai me dar diferenciais para o meu currículo’. Ou seja, transformamos tudo que vivemos em demandas de produção. E isso tem recortes socioculturais muito importantes no nosso país. Porque, para falar também em prevenção, precisamos considerar as populações que temos no país.

Quando falamos, por exemplo, dos povos originários, do aumento do transtorno de uso de substâncias na população indígena, da própria questão do suicídio; ou da população LGBT, que é mais vulnerável no país, ou da maneira como vivemos o conservadorismo aqui. De que maneira esses sofrimentos coletivos impactam individualmente?

E aí a pessoa, individualmente, precisa encontrar uma resposta para lidar com aquilo. É interessante pensar que o acesso ao conceito diagnóstico às vezes é uma forma justa de lidar com o fenômeno social. Dar um nome a algo pode ser importante para que o processo seja legitimado e reconhecido.

Às vezes você dá um CID, que é a forma como fazemos as nomenclaturas. Ele é importante, por exemplo, numa consulta no SUS, porque gera dados que depois serão trabalhados em boletins epidemiológicos e servirão para nortear políticas públicas. Mas o que se faz com esses dados no meio do caminho é o problema. E como esses dados impactam a perspectiva da pessoa é outra questão.

Me perguntam muito: “é possível trabalhar com uma psiquiatria sem diagnóstico?” Eu respondo que sim, mas depende. Porque, na hora que a pessoa pedir um relatório, o chefe vai exigir o CID. Na hora de uma solicitação legal, também precisará do CID. Então, como encontrar um meio termo? É muito comum a crise do psiquiatra: você se vê em acordo com algo com o qual não necessariamente concorda.

Você começa a se perguntar: será que estou reproduzindo essas violências no nível micro, ou estou tensionando? Mas como posso ter sono se às vezes não reconheço isso em mim? Será que me coloco na história ou me posiciono diferente dessas pessoas?

Porque é isso: o trabalho é algo que, como ouvi de um aluno, achei muito bom: trabalhar como biólogo estudando borboletas, como pedreiro, como psiquiatra, como cirurgião, como engenheiro, como presidente, são todos trabalhos.

Eles não são melhores ou piores; continuam sendo trabalhos, com limitações, circunstâncias e realidades próprias. Influenciam, inclusive, na saúde psíquica. E aí está o ponto: o profissional da saúde às vezes enxerga o próprio trabalho como diferente, mas o objeto do trabalho passa pelas experiências dele. Isso faz com que muitos profissionais adoeçam psiquicamente também.

A gente fala muito sobre saúde mental, mas basta conversar com um colega psicólogo ou com alguém da saúde, principalmente do SUS, para ver como está a mente dele também.

E o ponto que quero dizer é que, para reconhecer o problema em nível social, em nível coletivo, preciso entender de que forma eu, como indivíduo faço parte disso. Seja reproduzindo, seja tensionando, seja sendo conivente. Então, de que maneira o meu trabalho também se insere nisso?

Como lidar com o diagnóstico de burnout, nesse caso? 

É interessante que o burnout diz de um coletivo, mas de forma individual. Ao mesmo tempo, o burnout não é um diagnóstico psiquiátrico. Na verdade, é um diagnóstico ocupacional.

Ele não está, por exemplo, no DSM, mas está presente na CID-11, no aspecto relacionado ao trabalho, e também, de certa forma, diz respeito a esse sentimento de exaustão e distanciamento pessoal que afeta outros âmbitos da vida, podendo levar as pessoas a desenvolverem outros quadros psiquiátricos.

Então, às vezes, um burnout em um trabalho faz com que as pessoas desenvolvam um transtorno ansioso, depressivo ou até estresse pós-traumático. A questão é que, quando nomeamos tudo o que acontece nas empresas apenas como burnout individual, esquecemos a forma como a empresa se organiza e estabelece relações.

Por exemplo, é muito comum hoje que pessoas que trabalham no digital, em bancos ou em setores de tecnologia, tenham um trabalho gamificado. O que é um trabalho gamificado? Você acorda sem saber como será o seu dia: quantas reuniões terá, com quem vai falar, de que maneira se comunicará, mas sabe que terá que fazer coisas.

Esse tensionamento é exaustivo. Precisamos de previsibilidade. Você se organiza minimamente, mas se mudarem o tema da reunião ou da tarefa, você fica perdido. Isso é um tensionamento constante.

E o que acontece? Esse tensionamento faz você ficar inquieto, mais atento, mais vigilante. Isso aumenta a produção, mas há uma linha tênue entre produzir mais por estar tenso e estar tenso demais a ponto de paralisar a produção. Muitas empresas de tecnologia já perceberam isso. 

O que fazem? Deixam você levar seu cachorro à empresa, oferecem horário flexível, eliminam hierarquias, fazem happy hours, tudo para aumentar a produtividade. Você não apenas veste a camisa da empresa, mas passa a trabalhar sua subjetividade dentro do ambiente de trabalho.

Quando percebe que a empresa não é tudo o que você esperava, vem o choque de realidade: “poxa, vesti a camisa por tantos anos, e agora? O que sobra de mim?”. São indagações inevitáveis.

Como repensar a narrativa sobre saúde mental?

Tivemos mudanças nos últimos anos. As pessoas passaram a tensionar mais o debate sobre Setembro Amarelo. É importante ter conscientização sobre suicídio, mas a forma como isso é feito importa. O “Setembro Amarelo” é registrado como marca. É preciso cuidado.

A questão central é: o que estamos fazendo de fato para pensar coletivamente o que esperamos como sociedade? O controle da narrativa é também controle da perspectiva social. O diagnóstico não é apenas consequência da narrativa, ele é criado por ela e influencia a forma como é tensionado.

Num debate sobre suicídio, precisamos pensar em medidas sociais e coletivas para entender como isso interfere no indivíduo. Mas parece que vivemos em uma era de indivíduos, sem sociedade.

Há 70 anos, durante o período entre guerras, se você perguntasse a um brasileiro: “Você morreria pelo Brasil ou pela família?”, a resposta seria sim. Hoje, as pessoas não fariam isso. Não estou julgando, mas refletindo sobre a forma como temos olhado as questões individualmente.

A fragmentação do debate gera polarização individual. Você briga com um familiar por discordância política ou evita entender as discrepâncias coletivas nos espaços públicos. Isso se torna uma escolha individual.

Sinto que o controle ativo é controle da individualização, do individualismo — não só como fenômeno do neoliberalismo, mas também como consequência da forma de entender sofrimentos.

Para pensar em saúde mental, precisamos resgatar a coletividade, nossos traumas coletivos

Para pensar em saúde mental, precisamos resgatar a coletividade, nossos traumas coletivos. Precisamos refletir sobre o modelo de sociedade que queremos, o que desejamos como indivíduos, e como avaliamos a atuação política coletiva.

Isso implica ocupar espaços públicos, conselhos municipais de saúde, manifestações e outros espaços coletivos, não necessariamente apenas partidários, mas de representação estudantil ou trabalho coletivo.

Às vezes me pergunto: a inteligência artificial vai roubar tudo que pensamos sobre saúde mental? Não, pelo contrário: ela pode explorar o que precisamos, que é o outro. Precisamos de alguém que dialogue conosco, e não apenas reafirme nossas opiniões. Isso gera sofrimento.

Quando percebermos isso, talvez seja um convite para refletir sobre como temos narrado esses fenômenos.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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