VISÕES POPULARES

Cultura e comida sem terra: dirigente do MST explica como será Feira da Reforma Agrária em MG

Encontro reúne diversidade de acampamentos e assentamentos neste fim de semana, em BH

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No próximo fim de semana, o Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no centro de Belo Horizonte, recebe a 5ª edição da Feira Estadual da Reforma Agrária e Agricultura Familiar. Ao longo dos três dias de evento, 17, 18 e 19 de outubro, o público poderá participar de atividades culturais, formativas e de solidariedade, além de saborear a culinária “sem terra”, que vem de todas as regiões de Minas Gerais. 

É sobre isso que trata o Visões Populares desta semana, com Nei Zavaski, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Agricultor e assentado da reforma agrária, ele destaca a importância da feira na promoção da articulação entre o campo e a cidade. 

Confira a entrevista:

Brasil de Fato –  Quais produtos o MST traz para a capital mineira e como está a programação da feira?

Nei Zavaski – É a nossa quinta edição aqui na capital e ela é oferecida aos trabalhadores e trabalhadoras, à população de Belo Horizonte de forma geral, trazendo para o espaço urbano toda a diversidade da reforma agrária, da agricultura camponesa e familiar de Minas Gerais. Com a participação especial também de alguns outros estados, que trarão os produtos de suas cooperativas. 

O MST de Minas Gerais tem um sistema de cooperação, que conta com nove cooperativas em todas as regiões do estado. Nesses três dias, estarão representadas tanto as cooperativas quanto a diversidade dos produtos dos assentamentos. 

Desde o mel, o arroz, os ovos, lá do Triângulo Mineiro; passando pelo café de alta qualidade do Sul de Minas; e a cachaça “sem metanol”, lá do Norte de Minas. Teremos ainda as quitandas e biscoitos; a melhor farinha de mandioca e também o polvilho, do Vale do Jequitinhonha, no extremo Nordeste do nosso estado. 

Também teremos uma infinidade de variedades de feijão, do Vale do Mucuri, da Zona da Mata, feijão-catador do Norte de Minas; e a representação importante da Zona da Mata de Minas, com lácteos, doces, antepastos e conservas. Essa diversidade vai brindar nossa feira com um colorido, das cores, mas também dos sabores da agricultura camponesa, das terras conquistadas pela reforma agrária. 

Além disso, tem toda a carga cultural presente junto a esses produtos, a esses alimentos. Na culinária da terra, teremos uma diversidade de cozinhas de cada região nossa. Com toda a cultura e todo o carinho das nossas e dos nossos cozinheiros e cozinheiras, das áreas de assentamento. 

Junto a tudo isso, a boa música, a cultura da nossa Minas Gerais. A representação daquilo que a organização dos camponeses acumula. Vai ter viola mineira, bloco de carnaval e representação da arte urbana. Além da música, espaços para as artes plásticas, com a participação especial dos companheiros do Festival Cura, que têm deixado a nossa capital como um grande museu a céu aberto. 

Toda essa representação de alimento, de alegria, de cultura, de música, de artes plásticas, do que representa a diversidade do campo mineiro, vai estar presente nesta feira.

Qual é a história da feira em Minas e o que significa a reforma agrária popular defendida pelo MST?

A feira da reforma agrária em Minas Gerais é muito interessante, porque, para além de um espaço de comercialização de produtos dos assentamentos, ela surge como esse espaço da cultura camponesa. 

A nossa primeira feira, na verdade, não levava o nome de feira, foi o Festival Nacional de Arte e Cultura da Reforma Agrária, que tinha, dentro do festival, uma feira. A partir dessa construção, nos anos seguintes, consolidamos um Circuito Cultural de Arte e Cultura da Reforma Agrária, em todo o estado, principalmente nas grandes cidades. 

Durante esses anos, tivemos uma parada por conta da pandemia, mas chegamos agora à quinta edição da feira. O nosso objetivo principal é trazer efetivamente os valores e o projeto que o MST defende para o campo brasileiro, para o seio da cidade, a fim de que isso seja dialogado com a população urbana. 

O MST projeta a reforma agrária popular como uma forma de resolver as grandes questões do povo brasileiro. Não tem como ter uma feira da reforma agrária que não dialogue com a luta contra a fome, a luta pela alimentação saudável, a luta para que esses produtos de qualidade, sem agrotóxicos, agroecológicos e orgânicos, cheguem até a mesa do trabalhador. 

Um segundo elemento é a democratização dos espaços públicos, do espaço da cultura. Um assentamento, quando é desapropriado, deixa de ser uma propriedade privada e passa a ser uma terra pública, concedida aos camponeses na forma de um contrato de concessão de uso. Então, esse território, que antes era privado, de uma única família ou de uma única empresa, passa a ser do povo brasileiro. 

Esse conceito, da democratização da terra, também passa pela democratização de outros espaços. O povo ir para esses espaços, que são espaços públicos, também faz parte dessa proposta política da reforma agrária popular. 

Durante a feira, serão ainda inúmeras as ações em torno do debate da crise climática e da agricultura camponesa como um mecanismo de enfrentamento desses grandes problemas da atualidade, desde o aquecimento global, aos crimes ambientais cometidos pelo capital. 

Nosso projeto enfrenta a mineração predatória, o monocultivo e esse projeto do agronegócio que envenena a nossa população e causa câncer. É essa disputa que fazemos com a afirmação desse projeto, com muita beleza, com muita diversidade e que estará nesses três dias aqui no Parque Municipal de Belo Horizonte.

Por que o lema Cultivar a terra, defender o Brasil?

Esse lema traz muito do momento político que a gente vive. A sociedade capitalista, a nível mundial, enfrenta uma crise extrema na forma com que gera sua riqueza, explorando e roubando a riqueza dos povos e dos territórios. 

Essa disputa pela hegemonia no mundo vai, cada vez mais, demandar os nossos recursos naturais, a nossa terra, os nossos minerais. Cultivar a terra, da forma como nós defendemos, com a agroecologia e o povo vivendo nos territórios, enfrenta diretamente esse modelo imposto pelo imperialismo estadunidense, que tenta roubar a nossa soberania. 

O imperialismo tenta saquear as nossas riquezas naturais, seja o nióbio, seja o minério de ferro, sejam as terras raras, para a produção tecnológica de coisas que melhoram a vida das pessoas no mundo, mas, fundamentalmente, para a tecnologia militar das guerras, usando nossos recursos como arma para destruir o povo em outros locais e, talvez, até aqui no Brasil. 

Há também a atuação da extrema direita brasileira, que por um período se apropriou da nossa bandeira, se autointitulou patriota, mas que agora sabemos que eles eram patriotas dos Estados Unidos e não patriotas que defendem o Brasil ou uma vida boa para o povo brasileiro. 

Então, cultivar a terra com agroecologia, cooperação e preservação ambiental é defender esse Brasil dos brasileiros. É defender a soberania nacional e dizer que o nosso país e as nossas riquezas têm que ser utilizadas para melhorar a condição de vida do povo brasileiro.

Qual é a importância da cultura sem terra em todo o processo de luta, desde a ocupação até a chegada dessa fartura alimentar na capital?

Nós dizemos que dentro do MST tem uma cultura de luta e uma luta pela cultura. O processo de exploração passa também pelo domínio cultural sobre os povos. Aqueles setores da sociedade que são oprimidos e explorados precisam ser massacrados culturalmente para que aceitem esse processo de dominação. 

Então, você diminui a capacidade de pensar das pessoas, por meio, por exemplo, de músicas que passam pela indústria cultural, da redução, inclusive, do número de notas musicais de uma música. Um sertanejo universitário tem três notas musicais, praticamente. Isso em um processo de longo prazo é comprovado cientificamente que faz com que as pessoas percam a capacidade cognitiva. 

Disputar a cultura, trazer uma cultura de qualidade, uma expressão cultural dos modos de vida do povo do campo, é fundamental, em especial em Minas Gerais. O mineiro tem uma característica do campo. A cultura de Minas Gerais está diretamente relacionada à cultura do campo, não a do agronegócio. Não a de grandes latifúndios, que expulsam o povo da terra e produzem monocultura com agrotóxico, com alta tecnologia.

Mas temos aquela cultura da comunidade rural, da produção de polvilho feito na comunidade quilombola; da carne de sol feita pelos camponeses; do que resiste no campo, como povos e comunidades tradicionais, como populações quilombolas, que lutam pelo direito ao seu território, e como assentamentos de reforma agrária. 

Para nós, o processo da cultura está diretamente relacionado à forma de produzir e à forma de viver no campo. Assim, reafirmar a cultura do camponês mineiro é reafirmar o diálogo com a cidade – já que as comunidades urbanas também produzem a sua cultura de resistência, nos morros de Belo Horizonte – nas comunidades de cada rincão desse estado em que se produz cultura.

Duas novidades da feira deste ano são o espaço Caminhos da Agroecologia e a Assembleia Popular em Defesa da Natureza. Quais são os objetivos deles?

Viver no campo, diferente de explorar o campo, é a grande diferença entre a reforma agrária popular e o modelo do agronegócio e da mineração predatória. O capital organiza o campo para explorar a riqueza dos povos, dos trabalhadores e da natureza daquele território. 

O MST é uma organização que luta pela reforma agrária e pelo assentamento de famílias no campo. Assim, entendemos que o campo tem que ser o melhor lugar do mundo para viver. E para nós, isso sempre esteve ligado à preservação ambiental, porque é desse meio ambiente que a gente vive. 

Então, a preservação ambiental sempre esteve na proposta política do MST. Só que agora ela assume um nível muito maior, porque, com a crise que nós chegamos, está posta uma condição em que já se começa a falar na impossibilidade da produção e da reprodução da vida. 

Não passamos, nos últimos 20 anos no Brasil, nem um ano sem termos uma grande tragédia ambiental, o que nós no MST chamamos “de crimes do capital”. 

Os dois grandes crimes da mineração em Minas Gerais; as enchentes no Rio de Janeiro e em Santa Catarina, que levaram regiões inteiras; o crime da Braskem em Alagoas; as enchentes em Alagoas e Sergipe; os rios secando na Amazônia; as duas grandes enchentes no Rio Grande do Sul, etc, são exemplos. 

Todos os anos a mudança climática produz, no território brasileiro, seja um grande crime diretamente feito pelas empresas, seja um desastre causado pelo modelo de desenvolvimento que desmatou encostas e urbanizou grandes territórios desordenadamente. 

Além disso, este ano acontece a COP 30, em Belém. A COP é a reunião de representantes dos governos, de grandes empresas e grandes órgãos responsáveis pela destruição ambiental, tentando propor saídas ambientais que não mexam no seu lucro. Ela é uma grande junção de gente que comete crime ambiental para discutir sobre o meio ambiente. 

Por isso, as organizações do mundo inteiro promovem, paralelamente, a cúpula dos povos, fazendo frente à COP 30. É aonde indígenas, quilombolas, comunidades rurais, organizações ambientais, o MST, e organizações como essas do mundo inteiro, se organizam para dizer que a resposta para a preservação ambiental e o aquecimento global é um processo de desenvolvimento sustentável, que passa por frear o capitalismo e essa forma de exploração, que não leva em conta os povos, só leva em conta o lucro. 

Diante disso, a Assembleia Popular em Defesa da Natureza – que vai acontecer no meio da nossa feira, no sábado, dia 18, de 9h às 11h – é um espaço de diálogo entre o povo e os ambientalistas. Então, estão todos convidados a discutir conosco saídas para essa crise climática que vivemos. 

Teremos também um espaço muito especial na entrada da feira chamado Caminhos da Agroecologia, onde apresentamos as iniciativas que são desenvolvidas nos assentamentos, pelas cooperativas, nas escolas. São as ações que o MST faz no desenvolvimento da agroecologia, entendendo que não adianta só falar em agroecologia, precisa ter ações concretas. 

Então, nesses caminhos vão estar: os nossos planos de desenvolvimento de agroecologia, os nossos grupos de agroecologia, as ações de produção das cooperativas que trabalham esse tema. Sejam nossas do MST, sejam, inclusive, de organizações parceiras, que fazem parte da Articulação Mineira de Agroecologia.

O que é o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, criado pelo MST?

A questão do plantio de árvores do MST é o centro dessa ação do movimento. A partir do Plano Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, nos propomos a plantar 100 milhões de árvores em 10 anos. Nós já estamos chegando a 60 milhões, com 60% da nossa meta cumprida. E, nesse caso, se nós atingirmos a meta, vamos dobrar a meta. 

Porque é necessário reflorestar os nossos territórios, além de reflorestar as nossas cidades e  a nossa humanidade. Ser humano é natureza, é uma coisa só. A partir do momento que destruirmos a natureza, não teremos mais lugar para o ser humano. Então, esse é o nosso desafio e na feira nós vamos mostrar esse processo.

Durante a feira, a partir da organização do Mãos Solidárias, vai acontecer a distribuição de alimentos saudáveis. Como surgiu o Mãos Solidárias e como o grupo atua hoje em Minas Gerais?

O Mãos Solidárias é uma ação do MST no território urbano e em parceria com um conjunto de organizações. Ele surge, como sugere o nome, da solidariedade. A solidariedade, para nós, não é dar aquilo que te sobra. É dar parte daquilo que você precisa, para construir uma sociedade diferente. Essa é a concepção de solidariedade que a gente tem. 

É preciso, portanto, organizar uma ação de solidariedade que contribua para o desenvolvimento humano dessas pessoas, para sair da situação de vulnerabilidade social. A gente não pode achar que a miséria tem que se tornar comum. Aqui em Minas Gerais, o programa Mãos Solidárias atua em várias frentes. A primeira delas são as cozinhas solidárias, que são organizadas pelas próprias comunidades, em parceria com o MST e outras organizações, que funcionam através de políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da doação direta das cooperativas. 

Em Belo Horizonte e região metropolitana, temos, por exemplo, cozinhas solidárias organizadas com as organizações dos catadores de materiais reciclados. Atuamos também em bancos populares de alimentos, que são a distribuição direta de alimentos da reforma agrária para famílias que estão em dificuldade econômica e insegurança alimentar. 

E ainda no programa de alfabetização ‘Sim, Eu Posso’, que conta com 170 turmas de alfabetização de jovens e adultos, pelo método cubano Sim, Eu Posso, que em 4 meses alfabetiza as pessoas. Isso também faz parte desse processo de avançar no desenvolvimento humano das pessoas, que têm o direito de aprender a ler e escrever, em especial trabalhadores e trabalhadoras que não tiveram essa oportunidade. 

Outro fator importante é que, durante toda essa feira, nós vamos ter uma parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), via a Associação Asmare, que é uma das mais antigas associações de catadores, onde o MST tem uma cozinha solidária que serve alimento para os trabalhadores e trabalhadoras que atuam na catação. 

Nessa parceria, teremos todo o resíduo produzido na feira tratado. Uma parte vai para a produção de adubo orgânico e a parte que é possível fazer a reciclagem vai para o galpão das associações de catadores para ser reciclado. Então, o Mãos Solidárias reúne esse conjunto de ações com trabalho focado nos grandes centros, nas capitais e nas grandes periferias. Queremos e vamos avançar ainda mais na solidariedade. Tem um lema do Mãos Solidárias que é: o povo organizando o povo. 

Assim, com o povo organizando o povo, o povo ajudando o povo, através da organização, é que vamos encontrar a saída para superar esses grandes problemas da fome, do analfabetismo, da insegurança alimentar, da insegurança nesses territórios, de mãos dadas campo e cidade.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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