VISÕES POPULARES

‘Cotas são fundamentais, mas queremos mais’, diz makota de MG, rumo à Marcha de Mulheres Negras

Andréia Roseno debate o histórico de luta das mulheres negras e a importância das pautas defendidas com a marcha

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A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras ocorre em Brasília no dia 25 de novembro e reunirá mulheres negras integrantes de organizações e grupos comunitários e ativistas independentes pautando reparação e bem viver. 

“A intenção é colocar o máximo de mulheres em Brasília. O que colocamos em foco hoje é a questão da reparação. Queremos construir as políticas de reparação histórica em todo o país. Hoje, as cotas são fundamentais, mas não queremos só isso. Queremos mais”, destaca Andréia Roseno, uma das organizadoras da delegação de Minas Gerais para a mobilização, ao Visões Populares.

Denominada na tradição do candomblé Congo Angola como Makota Kinanjenu, Roseno é nascida no quilombo urbano da Margem da Linha, em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri mineiro. Ela também é assistente social e mestra em Ciência Política, atuando com a articulação política em entidades do terceiro setor há mais de 20 anos. 

Confira a entrevista completa: 

Brasil de Fato –  Qual é a história da marcha e as principais bandeiras de luta? 

Andréia Roseno – Nós temos uma afirmação dentro do movimento negro feminista de que nossos passos vêm de longe. Reconhecemos toda a trajetória ancestral das mulheres quilombolas, que foram fazendo resistência nesse país, a partir da organização dos vários quilombos no período escravocrata. 

Somos mulheres que, ao longo do século 20, fomos nos organizando em várias entidades, dos movimentos de periferia até os movimentos rurais. Estivemos construindo fortemente a luta pela redemocratização do país. Construímos também um legado intelectual importantíssimo no Brasil. 

Não queremos estar sempre na luta pela migalha, queremos participar da divisão do bolo

O culminar disso, a partir de várias atividades e organizações, é em 2015, quando várias organizações de mulheres negras, dos 27 estados e do Distrito Federal, organizam a primeira marcha, que coloca 100 mil mulheres em Brasília. 

Era um período já muito complexo da polarização que o nosso país vive nos últimos anos. Ainda assim, colocamos 100 mil mulheres nas ruas. Nós somos esse caldo, esse leito histórico de várias organizações, a partir de uma ancestralidade muito forte que nos acompanha.

Quais são o lema e os objetivos da mobilização deste ano?

Em 2015, 10 anos atrás, fazíamos um debate contra o racismo, entendendo o racismo estrutural, a partir das várias imbricações que esse racismo tem: o racismo ambiental, epistemológico, institucional, etc. 

Naquele período, sobretudo o racismo institucional era muito forte. Também denunciamos a questão da violência e tínhamos como visão de futuro e esperança o bem viver, a partir de uma sociedade igualitária, sem racismos e sem classes. 

Em 2025, nós estamos trazendo a pauta da centralidade do poder. O poder é central quando afirmamos que nós estamos marchando por reparação histórica. E, quando falamos de reparação histórica, falamos de incidência na política a partir dos orçamentos públicos, mas também da construção de plataformas cada vez mais antirracistas.

Nossos passos vêm de longe

Queremos fortalecer a luta antirracista e ter a nossa cara pública não em espaços folclorizados, como a promoção da igualdade racial, espaços da cultura, da educação ou da área da saúde. Ocupamos esses espaços, mas também queremos ocupar outros, com  incidências no planejamento, etc das cidades, na movimentação financeira. 

Agora, a pauta tem sido muito relacionada à questão do Supremo Tribunal Federal (STF) e à importância de ter mulheres negras ocupando esses espaços. Continuamos denunciando o racismo, que é estrutural e estruturante na nossa sociedade.

Da pauta reivindicatória que saiu da Marcha das Mulheres Negras de 2015, o que colocamos em foco hoje é a questão da reparação, que inclusive conta com o projeto de lei no Congresso Nacional, com mobilização no sentido do fundo reparatório. Queremos construir as políticas de reparação histórica em todo o país. Hoje, as cotas são fundamentais, mas não queremos só isso. Queremos mais.

Qual é a importância da organização das mulheres negras no Brasil?

A Makota Valdina, uma referência histórica que já faleceu, traz uma máxima importante para nós, enquanto movimento popular: não somos descendentes de escravos, somos descendentes de povos que foram escravizados. Nós não aceitamos. Não fomos um povo passivo à escravidão. As mulheres não aceitaram a cultura do estupro, que é posta como um processo colonizador do nosso país.

Afirmamos que os primeiros negros e negras que chegaram neste país foram resistentes. Não trouxeram bens materiais, mas não deixaram que as suas cabeças e o seu pensamento fossem colonizados. Hoje, nós vemos nos candomblés, nas religiões e nas comunidades de matriz africana toda uma resistência popular, sobretudo em torno do matriarcado, das mulheres que estão nessas organizações. 

Quando falamos de organização, necessariamente não é uma organização nos modos ocidentais. O nosso povo considera como organização também esses modos de vida, essa forma como a gente conservou a nossa língua, os hábitos e o modo como lidamos com as energias da natureza. 

Assim como os povos indígenas, nós somos os povos que temos a natureza como parte de nós e nós fazemos parte dessa natureza. Divinizamos essa natureza. A nossa relação com a natureza não é mercadológica, não é de apropriação ou de domínio. Tudo isso passa pelas mãos dessas mulheres, pela boca dessas mulheres, no sentido de como invocam, como falam e como conduzem. 

Estamos trazendo a pauta da centralidade do poder

Quando o Estado era ausente  nas nossas periferias e não se tinha as políticas públicas implementadas, nós fomos, ao longo desses anos, quem fez o papel desse Estado. No sentido da educação, da saúde e dos atos de solidariedade que, agora, nesse período que nós passamos da pandemia,  foram tão fortes. Nós, mulheres negras, estamos nesses lugares, nessas organizações comunitárias, nesse maternar e amamentar da sociedade. 

Isso não é um lugar romântico, porque também vem a partir de muitas dores, de muitas lágrimas, de muitas renúncias. Quando as trabalhadoras brancas, no século 20, vão pedir inserção no mercado de trabalho, nós, mulheres negras, já estávamos no trabalho há muitos anos. A relação é muito diferente, nossos corpos já estão subjugados por esse capitalismo.

Como diz a Conceição Evaristo, estamos sempre nessa estratégia da sobrevivência. Mas hoje, quando estamos falando de reparação, estamos falando de condições de viver, de bem viver, de autocuidado. Não queremos estar sempre na luta pela migalha, queremos participar da divisão do bolo. A reparação, inclusive, passa por taxar os super-ricos. Queremos condições melhores para os nossos filhos, netos e comunidade. 

Como Angela Davis traz, se a gente se movimenta, movimentamos uma estrutura social, porque somos aquelas responsáveis por parir uma sociedade. Estamos lutando pelo direito de viver bem, em uma sociedade que não tenha como pauta a mercadoria das relações e na qual, de fato, consigamos estar em processos de mais equidade.

Como está o processo de preparação de Minas Gerais para a marcha? 

Todos são chamados a construir a Marcha das Mulheres Negras, no sentido do apoio. Mas nós não abrimos mão da nossa condução política e de ser uma marcha para as mulheres negras. Nós estamos organizadas, aqui em Minas Gerais, dentro da Articulação de Mulheres Negras e também a partir do comitê impulsionador.

Em uma média, feita a partir do segundo encontro de mulheres negras que nós fizemos no estado neste ano, somos 230 mulheres organizadas em mais de 100 organizações e movimentos. Estamos em 11 comitês territoriais:  Belo Horizonte, região metropolitana, Vale do Mucuri, Vale do Jequitinhonha, Norte de Minas, Zona da Mata, etc.

:: Ouça o podcast do Brasil de Fato MG aqui. ::

O comitê estadual já passou em várias organizações, mandatos, sindicatos, etc, solicitando apoio para organizar ônibus que levem essas mulheres até Brasília no dia 25 de novembro. É o último grande ato nacional, em um ano importantíssimo para nós, que antecede 2026, um ano eleitoral. 

Nós, enquanto as mulheres negras, também estamos nos organizando para ocupar esses espaços institucionais, sobretudo a fim de que a gente consiga derrotar esse Congresso tão conservador, que retira tantos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Nesta semana, a secretaria do comitê, chamada Coletivo Nzinga, fez um apanhado no estado, e, até este momento, o comitê estadual não tem ônibus para cerca de 130 mulheres que estão organizadas para ir. Então, o apoio dos mandatos populares, das organizações e dos sindicatos neste momento é fundamental para que Minas Gerais consiga ter uma participação bonita e efetiva na marcha de 2025.

O 25 de novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Quais são as principais violências enfrentadas pelas mulheres negras no Brasil? 

Nós, mulheres negras, sofremos a violência da desumanização, a partir do momento em que o racismo desconsidera os nossos corpos, no sentido de retirar de nós a humanidade. Então, a todo momento, precisamos afirmar para o sistema essa humanização dos nossos corpos. Isso se dá com as mulheres negras, cis ou trans.

Nós enfrentamos o silenciamento das instâncias e dos processos políticos. Enfrentamos também o apagamento, muitas vezes, da nossa contribuição histórica e, sobretudo, uma diferenciação dentro do mercado de trabalho, sem falar na questão da violência produzida e reproduzida a partir das ações do patriarcado nas nossas periferias, como as violências físicas, psicológicas, patrimoniais e letal. A violência sexista nos atravessa em cheio em todos os âmbitos da sociedade.

A mobilização acontece em um mês simbólico, o da Consciência Negra. Qual é o papel das mulheres negras no enfrentamento ao racismo? 

Houve um período no qual só engoliamos o racismo. Hoje, a gente tem colocado isso para fora, conseguindo nomear que é racismo, com a maneira com a qual temos ocupado as redes sociais, por exemplo, para fazer ativismo. Isso tudo diz da forma como fazemos política e tem incomodado bastante. A forma com a qual dialogamos na política tem incomodado. 

É certo que ainda tem as reproduções do próprio sistema. Ainda temos, infelizmente, companheiras que não chegaram a um grau de autonomia de si e para as outras. Mas a maneira com a qual a gente constrói, debate a política e se posiciona, faz com que, de certa forma, o sistema precise se movimentar. E ele se movimenta. Ele se movimenta inclusive ao ponto de nos ameaçar, de nos matar, como aconteceu com a Marielle Franco, mas também de ser extremamente violento em instâncias como o Congresso Nacional. 

A reparação passa por taxar os super-ricos. Queremos condições melhores para os nossos filhos, netos e comunidade

Nosso posicionamento é pedagógico. Não estou falando de um pedagógico que você precisa explicar, mas um pedagógico de uma práxis, de uma conduta, de enfrentamento cotidiano a essas mazelas provocadas por uma sociedade racista, patriarcal e de exploração de classe. Esse sistema nos impacta de uma forma visceral e letal, e estar de pé diante disso é uma postura revolucionária. 

Eu gostaria de convidar a todos para apoiarem a Marcha das Mulheres Negras em 2025, além de reproduzir os materiais das nossas redes sociais. Também quero convidar as mulheres negras que queiram participar a estarem presentes conosco em Brasília.

Que possamos ecoar as nossas vozes e, depois da marcha, sigamos nos organizando, movimentando e incomodando. Sigamos sendo revolucionárias, como temos sido ao longo desses anos. Por uma sociedade do bem viver, nossos passos vêm de longe. Nós temos uma ancestralidade que nos movimenta e que nos põe para frente. É essa estrada, caminho e estratégia que não nos deixa desanimar.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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