No Visões Populares de quarta-feira (17), o Brasil de Fato MG abordou um novo capítulo na trajetória do músico Pereira da Viola. Natural do município de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, ele se descreve enquanto um violeiro, cantador, compositor e, acima de tudo, sonhador.
No sábado, dia 13, ele mergulhou oficialmente em suas raízes, com o lançamento do álbum África Interior. No disco, que possui 13 faixas, ele reafirma seu lugar como um dos grandes nomes da viola brasileira e transforma o instrumento em ponte entre passado e futuro, tradição e reinvenção.
As participações também servem para aprofundar essas histórias. Mateus Aleluia, Fabiana Cozza, Chico César, Toninho Ferragutti, sua filha Bartira Sene e o irmão Dito Rodrigues ajudam a dar ritmo e voz ao África Interior.
“Por ser um artista negro, há todas as mazelas e todas as belezas também. Eu costumo dizer que não sei como seria a vida, se não fosse negro. Essa condição me dá uma perspectiva diferenciada na minha existência”, declarou o artista.
Na entrevista, debatemos também sua ancestralidade, tentativas de apagamento cultural e histórico dos povos afrodescendentes e quilombolas, resistência por meio da cultura e ainda mergulhamos no processo criativo do artista.
Confira a entrevista completa:
No álbum você cria uma ponte entre tradição e reinvenção da viola, instrumento que é patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais. Como você enxerga o papel da viola e da cultura popular na resistência às tentativas de apagamento cultural e histórico dos povos afrodescendentes e quilombolas?
Pereira da Viola – Este álbum sintetiza um pouco da minha caminhada enquanto artista e enquanto uma pessoa que tem uma conexão com as lutas populares. Sabemos que as conquistas de direitos nunca vieram de mãos beijadas. Sempre tivemos que pôr a mão na massa para que esses direitos pudessem se concretizar. Eu já lutei pela causa do trabalhador rural, pois fui presidente de sindicato de trabalhadores rurais.
Costumo dizer que essa luta vem de longe: quando se discutia a Constituinte, eu já estava lá como presidente de sindicato; quando houve a construção da CUT, também estava presente. É algo que perpassa a minha condição enquanto cidadão.
Enquanto artista, essa mesma luta se trava no dia a dia. Por ser um artista negro, há todas as mazelas e todas as belezas também. Eu costumo dizer que não sei como seria a vida para mim, se não fosse negro. Essa condição me dá uma perspectiva diferenciada na minha existência. Quando olhamos para a minha obra, este é o oitavo disco solo, mas já gravei em vários outros discos coletivos. Percebo que esse elemento da identidade de herança africana está presente em todo o meu trabalho.
Inclusive, na década de 90, quando a antiga revista brasileira Guitar Player fez uma entrevista comigo, eu tinha acabado de lançar o disco Tauarará. Eles me intitularam, ao ouvir o trabalho, como “a viola afro-indígena”. Ou seja, trago esse elemento desde lá de trás. A diferença com o África Interior é que eu quis dar uma centralidade e objetivar de forma mais clara esse olhar sobre minhas heranças africanas, a partir da relação com o meio rural, com o campo e com a roça.
O África Interior, então, tem essa dualidade na perspectiva do nome: é essa África interior do campo e da roça, mas também a África interior dentro de mim. É um processo de reconhecimento da minha origem e do lugar de onde venho. Já fiz o teste de DNA e quase 70% da minha herança ancestral vem da Nigéria. Eu sentia que precisava objetivar mais esse elemento. Como todas as outras lutas, essa também é uma luta em que percebo estarmos dentro de um processo de avanços, mas ainda há muita água para passar debaixo da ponte.
Senti que era necessário, neste momento, fazer esse processo e deixar isso claro para quem acompanha minha carreira e para quem convivo. É necessário, como dizia Nego Bispo, que estejamos no nosso cotidiano nos descolonizando. O África Interior vem com essa perspectiva de, aos poucos, irmos tirando essa máscara eurocêntrica que nos foi colocada como verdade única, combatendo esse apagamento do real, onde a verdadeira vida começa realmente na África.
Então, é um disco que chega com todos esses elementos que me atravessam e com as auto reflexões que tenho feito, principalmente pós-pandemia, ao enxergar que no nosso futuro o que nos aguarda é uma convivência de forma mais humanizada. Para isso, precisamos trazer à tona esses elementos que ainda estão escondidos, mas que precisam ser esclarecidos e deixados claros para toda a sociedade brasileira e para o planeta.
No álbum você cria uma ponte entre tradição e reinvenção da viola, instrumento que é patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais. Como você enxerga o papel da viola e da cultura popular na resistência às tentativas de apagamento cultural e histórico dos povos afrodescendentes e quilombolas?
Essa pegada que tenho da viola é um registro que está no meu DNA. Pelo fato de eu ter nascido na divisa com a Bahia, os ritmos do Nordeste perpassam também minha viola. Desde o início, lido também com as heranças europeias que recebemos, como ao tocar uma folia de reis, com melodias e ritmos que trazem elementos da Europa.
Mas o que mais me fortifica e me dá identidade, realmente, é o batuque e a contradança. A contradança, na verdade, foi um nome que traduziu uma forma de o caboclo “tirar sarro” da dança que vinha da Europa. Aquela coisa da dança clássica, na ponta dos pés, com movimentos delicados. O povo dizia: “vamos dançar também, e o que nós dançamos é contra essa dança”. Ou seja, o elemento de resistência já estava colocado ali. Aceitamos que vocês façam as suas danças, mas nós vamos fazer a nossa, e a nossa vai ser contra isso.
Para mim, a cultura popular é o elemento que mais sintetiza toda essa diversidade rítmica que perpassa o Brasil, porque foram coisas que não deixamos morrer nem desaparecer. Além desse elemento que trago no DNA e que se expressa na minha forma de tocar, antes de adentrar no processo de construir o disco África Interior, fiz uma imersão com dois artistas africanos: Bonga, de Angola, e Sona Jobarte, da Gâmbia.
Passei mais ou menos um ano e meio ouvindo esses dois artistas e acompanhando tudo o que postavam. A Sona Jobarte toca um instrumento (a kora) que tem uma linguagem histórica e social relativamente parecida com a história da viola no Brasil. Antigamente, dizia-se que só os homens podiam tocar viola e as mulheres não.
Na Gâmbia, com a kora, era o mesmo: era uma tradição familiar passada de pai para filho. A Sona conta que o irmão mais velho a ensinava a tocar escondida da família e, quando perceberam, ela já estava dominando o instrumento. Hoje ela é a grande referência da kora no mundo inteiro.
Eu me deixei influenciar muito pelo jeito dela de tocar. Houve músicas minhas que já estavam prontas e eu mudei a concepção, deixando que aquele jeito dela, rítmica e melodicamente falando, me influenciasse. O Bonga influenciou-me da mesma forma, principalmente na parte rítmica.
Este disco está recheado desses elementos. Considero que é um momento especial para lançá-lo, porque estamos vendo uma África se levantando e o nosso povo negro aqui no Brasil não querendo mais arredar o pé dos direitos conquistados, querendo avançar. Tudo isso me faz acreditar e me instiga muito a ter uma relação de muito afeto com esse disco.Ele perpassa desde uma poesia e elementos mais sofisticados até a cultura popular.
Também não há apenas a perspectiva da arte pela arte, mas os elementos religiosos de matriz africana. Eu me coloco assim: apesar de ter sido batizado na Igreja Católica, há mais de 20 anos sou umbandista, e um pouco kardecista também. É essa mistura das coisas boas que cada religião traz. Hoje tenho a prática muito voltada para a umbanda.
Trago todos esses elementos no disco em uma perspectiva de reverenciar minha condição de ser negro. Nós, negros e negras, já estamos entrando em um processo no Brasil de retirar essa marca da escravidão. O apagamento da África foi proposital, não foi algo normal. Toda a ciência que aprofunda as questões sabe que tudo começou na África: desde o pensamento, a criatividade e as grandes invenções, foram roubadas em todos os sentidos e apagadas.
É um momento em que dizemos: “Eu passei pela escravidão, sim, e não vou deixar que isso seja esquecido, mas quero apontar os próximos passos como um ser que vem de uma grandiosidade, de um elemento que é imenso e propositivo enquanto humanidade”.
Quais diálogos políticos e poéticos surgiram dessas parcerias no álbum e como elas ajudaram a ampliar a mensagem de África Interior?
Vamos começar pelo Mateus Aleluia. Costumo dizer que ele é uma entidade encarnada: uma grande sabedoria, um pensador profundo das questões de África e um ser humano de coração imenso. Na música em que participa comigo, ele nem canta, ele só fala; mas a fala dele, entrelaçada com a música, dá uma perspectiva de profundidade.
Eu falo de São Jorge nesta música, que compus no segundo turno das eleições de 2018. Junto com o MST, construímos o Festival Canções de Agora, com a proposta de fazer canções de protesto, mas de uma forma contemporânea.
Na segunda estrofe de São Jorge, digo: “São Jorge vem acompanhado de milhões de anjos, guerreiros, arcanjos em forma de flor”. Essa construção poética baseia-se na imagem do “Ele não”, aquelas mulheres chegando na Praça da Estação gritando. Era uma música de protesto dizendo que São Jorge está ali, pois parece que na montanha há um cavaleiro chamando e avisando que a malvada serpente quer atacar.
Todo mundo sabe do que se trata essa serpente. Conseguimos evitar a concretização de um desastre maior e, hoje, percebo que a fera da qual eu falava — e aquela figura era apenas um instrumento — é, na verdade, o fascismo. Mateus Aleluia chega e aprofunda isso, dizendo que São Jorge vem pela justiça para defender quem sonha com um mundo de maior igualdade.
A segunda pessoa é o Chico César. Ele chega em uma música que fiz em homenagem à mulher quilombola. Essa mulher quilombola é altiva e linda; como digo na letra: “bonita por dentro, bonita por fora, livre, educada e destemida, tão cheia de vida”.
O Chico César brincou com essa música e com essa figura, tratando também dos elementos dos orixás e dessa raiz de matriz africana que temos na Umbanda. Ele jogou a música lá para cima, ficou maravilhosamente linda.
A terceira pessoa é a Fabiana Coza, que tem feito um trabalho maravilhoso em torno do samba. Ela chega para cantar uma música comigo que fiz para fazer um contraponto à intolerância religiosa. Quando digo “respeite meu axé”, não estou falando apenas de mim, mas pedindo respeito às religiões de matriz africana, ao nosso povo indígena e aos povos originários.
Nenhuma religião levará as pessoas sozinha para um paraíso. As religiões podem ajudar a chegar a um lugar de conforto espiritual, mas a conquista está dentro de cada um. Cantei com ela “Seja como quiser, respeite meu axé do jeito que ele é. Sou filho de Umbanda, meu povo é de Aruanda, sou de amor, paz e fé”. A Fabiana trouxe essa voz feminina que eu queria para ter paridade de gênero no disco.
A quarta pessoa é a minha filha, Bartira Sene. A Bartira é cadeirante, professora, regente de coral, pianista, compositora, cantora lírica e também faz canto popular. Há uma simbologia muito grande no convite para ela participar do disco, até porque ela já cantava comigo desde os 13 anos. Foi natural convidá-la.
Relacionando isso — dois homens e duas mulheres —, a Bartira também faz a ligação da ancestralidade. Os elementos que estão aqui vêm de muito longe, perpassando o que Nego Bispo dizia sobre a cosmologia africana: “começo, meio e começo”. Não tem fim. Isso se traduz na nossa ancestralidade, que é passado, mas também é presente e futuro.
Além dessas vozes, tive a participação do Toninho Ferraguti, que é um sanfoneiro maravilhoso, e também do meu irmão mais novo, Dito Rodrigues, que me acompanha há anos. Esse é o panorama do África Interior, um disco que está me dando muita alegria. No decorrer do ano que vem, vou soltar “pílulas” dessas participações em estúdio. Compartilhar isso com as pessoas é maravilhoso.
Três décadas separam seu primeiro álbum, Terra Boa, deste oitavo, lançado agora. O que mudou no seu processo criativo de lá para cá?
De lá para cá, eu sempre volto ao Terra Boa no meu processo criativo, porque os elementos de África Interior já estavam presentes lá no início. Lá eu canto, por exemplo, um calango, que é África pura. Os batuques e as referências rítmicas das folias e da contradança já estavam lá.
O processo de ampliação se dá pelo meu acesso aos conhecimentos. A arte, a cultura e a música, de forma especial, proporcionaram-me estar em contato com sabedorias. Eu não deixo que o que absorvo desapareça. O que está na minha obra é o resultado do que sou naquele momento. E naquele momento sou o resultado de um processo anterior.
No decorrer do tempo, tive acesso a muita coisa: escuto música clássica, erudita, gosto muito de blues antigo e me adentrei, em certo tempo, na musicalidade do Clube da Esquina. Com o advento da internet, tive acesso aos elementos culturais do mundo e me aprofundei muito na cultura afro. Ouvi muitos artistas da África, desde os mais rústicos até os grandes expoentes.
Essa construção vem ocorrendo cada vez mais dentro do meu autoconhecimento e como um ser em diálogo permanente com as lutas populares. Sou um parceiro direto do MST, da Via Campesina, do MAB, do movimento negro e dos movimentos culturais. Sou um estudioso desses elementos.
Tenho consciência de que a arte por si só pode existir, mas o cidadão — que é o instrumento para que essa arte se movimente — tem um posicionamento na busca por uma melhoria de vida para todo o nosso povo, principalmente para aqueles que mais sofrem. Tudo isso me faz trazer o África Interior com este bojo de consciência, o que me torna um artista atuante também no campo político-social.
